4 de julho de 2022


ABI repudia veto de Bolsonaro à inscrição do nome de Nise da Silveira no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria


25/05/2022


No mesmo dia em que elogiou os policiais militares que participaram da chacina na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, que deixou pelo menos 24 mortos, o presidente Jair Bolsonaro vetou a inscrição do nome da psiquiatra alagoana Nise da Silveira no livro dos ‘Heróis e Heroínas da Pátria’. A homenagem à médica, conhecida por revolucionar o tratamento de transtornos mentais, foi aprovado pelo Senado em 27 e abril. O veto de Bolsonaro foi publicado na edição desta quarta-feira (25) do “Diário Oficial da União (DOU).

Na justificativa para o veto, Bolsonaro afirma que “não é possível avaliar a envergadura dos feitos da médica Nise Magalhães da Silveira e o impacto destes no desenvolvimento da Nação, a despeito de sua contribuição para a área da terapia ocupacional”.

Ironicamente, o veto de Bolsonaro ocorreu em maio que é o Mês da Luta Antimanicomial no Brasil.
A Associação Brasileira de Imprensa – ABI, repudia veemente o veto de Bolsonaro e espera que o Congresso Nacional derrube esse veto que representa mais um ataque de Bolsonaro à ciência e ao pensamento em nosso país.


Foto: Centro Cultural da Saúde/Ministério da Saúde

Autora do requerimento da homenagem, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) criticou a decisão do chefe do Executivo. “Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria. Em reconhecimento ao seu trabalho e à repercussão dele até hoje, apresentei projeto para inscrever o nome dela no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. A Câmara e o Senado aprovaram. Bolsonaro vetou. Inimigo da sociedade. Nise é maior! Quem tem um torturador como herói nunca entenderá a dimensão e o brilhantismo de uma mulher como Nise da Silveira”, afirmou a parlamentar.

Nise da Silveira é pioneira da terapia ocupacional e mudou os rumos dos tratamentos psiquiátricos no Brasil, até então conduzidos por meio de isolamento em hospícios. Ela também ganhou projeção internacional, tendo seu trabalho reconhecido por psiquiatras mundo afora, como o suíço Carl Gustav Jung.

Ao começar a atuar no setor, na década de 1940, Nise rebelou-se contra os métodos manicomiais então aplicados a pacientes com transtornos mentais, como o eletrochoque, a lobotomia e o confinamento, entre outros. Como forma de punição, foi transferida para a área de terapia ocupacional. Ironicamente, a psiquiatra encontrou lá o espaço necessário para desenvolver um modelo humanizado de tratamento para os transtornos mentais.

Uma das terapias desenvolvidas por Nise foi a expressão dos sentimentos pelas artes, especialmente a pintura. A produção artística de alguns pacientes ganhou reconhecimento pela qualidade estética, além de ter demonstrado resultados positivos na recuperação. Muitas destas obras estão hoje expostas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Esses trabalhos também já foram expostos no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

A Casa das Palmeiras, aberta por Nise em 1956 com foco em reabilitar sem internação, também investiu no processo criativo e afetivo dos pacientes. Além da arte, o contato com gatos e cães foi outro tratamento introduzido por ela no Brasil. Os pacientes podiam cuidar de animais nos espaços abertos do centro, estabelecendo vínculos afetivos.

Sua história de pioneirismo e ações de vanguarda começou na Faculdade de Medicina da Bahia, onde foi a única mulher em uma turma de 158 alunos. Formou-se em 1926 com um trabalho sobre a criminalidade da mulher no Brasil. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro com o marido, o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira. Ali fez especialização em neurologia e psiquiatria e foi aprovada em concurso público para o Hospital da Praia Vermelha.

Em 1936, Nise foi denunciada por envolvimento com o comunismo e acabou presa durante 18 meses no presídio Frei Caneca, juntamente com o conterrâneo Graciliano Ramos, que a converteu em personagem do livro Memórias do Cárcere. Ao sair da prisão, viveu na clandestinidade por nove anos.

A psiquiatra morreu no Rio de Janeiro em 1999, aos 94 anos. Entre 1971 e 2014, recebeu 29 homenagens, entre títulos, medalhas, prêmios e diplomas. A partir de seu trabalho, outras 16 instituições foram criadas.

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