A fotografia como parceira e essência da própria vida


18/12/2006


Claudio Carneiro
15/12/2006

Cearense de Camocim, Biaman Prado, ingressou na profissão como muitos de seus colegas: por acaso. De família pobre, sem muitas perspectivas, o rapaz de 17 anos precisou trabalhar para ajudar no orçamento doméstico. Pelas mãos de um primo, arranjou um emprego de contínuo em um estúdio fotográfico em Sobral, para onde a família se mudara. O trabalho era o de levar e trazer, além de limpar aqui e ali. Em pouco tempo, já estava com a chave da loja para abri-la pela manhã.

Nas horas em que não havia ninguém trabalhando, ele ia para a câmara escura, intrigado como a imagem aparecia naquela “bacia d’água” (revelador). Um dia, surpreendido pela chegada inesperada do patrão — Seu Coelho — estragou uma caixa de papel fotográfico inteira. Levou um “cartão amarelo” e prometeu se corrigir. Mas não demorou muito e foi flagrado mexendo no ampliador:
— Seu Coelho me chamou à sala dele. A demissão era certa. Para minha surpresa, ele perguntou se eu gostaria de aprender a trabalhar no laboratório. Respondi que sim. E ele — uma figura fantástica que me deu grandes oportunidades — completou aliviado: “Pelo menos não terei mais perda de material.”

Naqueles idos de 70, as fotos coloridas somente eram reveladas nos grandes centros do País. Os fotógrafos eram bons laboratoristas e conheciam todo o processo, basicamente, em preto e branco. Biaman revelava filmes e misturava os produtos químicos: estava preparando o terreno para a carreira de fotógrafo. Em pouco tempo, desembarcava em Fortaleza, com uma Yashica 6X6 a tiracolo. Lá, depois de acompanhar o colunista José Rangel, de O Povo, descobriu na redação, vendo como os fotógrafos trabalhavam, sua identificação com o fotojornalismo:
— Essa urgência e essa constante adrenalina para cobrir histórias às vezes escrabosas me deixaram louco para trabalhar no jornal. Consegui ficar como frila. Daí em diante, não parei mais. Em 1980, fui convidado para trabalhar em São Luis. Era uma chance — mesmo sabendo que era para fotografar aniversários e casamentos. Em dois anos eu já estava no Jornal de Hoje, depois fui para o jornal O Debate. Em 94, vim para O Estado do Maranhão, onde há alguns anos trabalho como editor de Fotografia.

Aos 49 anos de idade e 32 de profissão, Biaman Prado fez coberturas importantes no estado que escolheu para viver. Fotografou, por exemplo, o movimento Diretas Já, “que contagiou também a capital maranhense”; uma manifestação em repúdio à visita do então Presidente João Figueiredo, ainda no aeroporto do Tirirical, o incêndio na Prefeitura de São Luís; e as visitas de Maluf, quando candidato à Presidência, e do Papa João Paulo II a São Luís:
— Fomos também os primeiros a fotografar a torre de lançamento do VLS na Base de Alcântara, logo após o acidente que matou 21 civis naquele 22 de agosto de 2003.

Acaso

O acaso, mais uma vez, aprontou das suas. Certa vez, ele fez a travessia de barco São Luís—Alcântara ao lado de José Vicente Matias, o hippie “Corumbá”, acusado de matar duas estrangeiras no Maranhão:
— Achei estranho aquele hippie com uma mulher tão bonita. Ela seria sua segunda vítima. Ele já havia assassinado uma turista alemã. Só não os fotografei porque o mar estava bravo e jogava muita água dentro do barco. Não queria arriscar uma imagem naquela condição. Dias depois, o delegado responsável pelo caso me telefonou e eu acabei ajudando na identificação, com detalhes que a polícia não tinha. “Corumbá” foi preso em Belém. Fiz as fotos da reconstituição dos seus crimes também.

Biaman tem a fotografia como parceira, como investimento, como a própria vida. “Resolvo meu problema financeiro fazendo o que gosto”, diz. Mesmo sendo editor, ele sempre dá um jeito de ir pra rua para “estar na pauta”. Experiente, gosta de fotografar à noite, jogando com luzes e sombras, e acha que a foto mais importante é sempre a próxima. Aos novos fotógrafos, recomenda coragem:
— Quanto às mulheres que querem ser repórteres-fotográficas, a dificuldade é bem maior, muitas vezes, por causa do preconceito. Minha mulher e companheira é repórter-fotográfica. Ela se interessou pelo fascínio de manipular imagem em laboratório e aos poucos fui lhe passando as dicas. Ela trabalhou em alguns jornais e hoje está na assessoria da Assembléia Legislativa daqui. Tem 15 anos de profissão.

Equipamentos e máquinas, Biaman trabalhou com muitos. Em 70, usava Yashica-D, Yashica Mat, Rolleiflex, todas no formato 6X6. Passou a usar o 35 milímetros na década de 80, quando também vieram as Fujika e Hasselblad de grande formato. No início da era digital, resistiu muito, mas acabou cedendo:
— Você passa a vida toda fotografando com filme, revelando e, de repente, aparece uma coisa capturando imagem através de pixels, uma linguagem fotográfica desconhecida. A desconfiança da qualidade da imagem me deixava com o pé atrás. Hoje, sinto uma enorme diferença, não consigo mais viver sem câmera digital e, quando fotografo com a minha Nikon F-5 (analógica), quero sempre olhar no LCD da outra. Não tem como fugir do novo e quem não acompanha as evoluções acaba superado.

 

Clique nas imagens para ampliá-las: 

“Destroços do acidente na torre…”

“No povoado Antônio 
Dino, em…”

“A personagem é Cenira…”

“Durante 
os festejos juninos, o…”

 

 

 

“Mesmo amanhecido, o…”

“Resultado 
do acidente
com um…”

“Retrato da superlotação das…”

“Este é Vicente Matias, o…”

“Jogo entre Moto Clube e Paysandu…”

“Crianças são recolhidas nas ruas…”

“Resquícios da ditadura militar…”

“Esta imagem serviu para órgãos…”

“Na década de 90, Sua Santidade…”

“Na década de 90, Sua Santidade…”

“Conjunto 
de casario colonial na…”

“Domingo pela manhã, em…”

 

            

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