O que diz a mídia sobre a visita de Obama


17/03/2011


Na edição desta quinta-feira, 17 de março, o jornal argentino La Nación publicou um artigo em que destaca que, a contar pela recepção que está sendo preparada pelo Governo brasileiro, o Presidente Barack Obama será recebido no Brasil como se fosse uma estrela da música pop. Para o diário esta visita “poderia ser comparada com uma viagem do Papa, ou melhor, com a chegada de uma estrela do rock”.
 
 
O Presidente Barack Obama chega ao Brasil no sábado, 19 de março, para uma visita de dois dias. Vai direto a Brasília, onde será recebido pela Presidente Dilma Rousseff. No domingo, estará no Rio de Janeiro, onde cumprirá uma agenda matutina que inclui uma pausa para fotos com a família no Cristo Redentor, e a ida à favela Cidade de Deus, recentemente pacificada pela instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).  À tarde, às 15h, ele fará um pronunciamento na Cinelândia, no Centro do Rio, palco de grandes manifestações políticas e populares do povo carioca.
 
“O Presidente dos Estados Unidos, apresentado como uma estrela pop, repetirá o trajeto de outras celebridades: uma foto sob o Cristo Redentor e um tour por alguma favela mais ou menos apresentável, onde lhe receberão com batucadas e apresentações de capoeira”,  comenta o La Nación
 
O tom irônico empregado pelo diário argentino deixa transparecer uma suposta decepção, ou contrariedade, porque a Argentina não está no roteiro de visitas que o Presidente norte-americano fará a países latino-americanos. Além do Brasil, Obama visitará o Chile e El Salvador.
 
 
É bem verdade que no Rio de Janeiro a recepção a Obama está sendo preparada em clima de euforia. Tanto o Governador Sérgio Cabral, quanto o Prefeito Eduardo Paes estão empenhados em transformar a visita do chefe do Estado norte-americano em um evento histórico. Esse esforço das autoridades fluminenses também foi ressaltado com ironia pelo La Nación: “A festa de Obama parecerá uma prolongação do carnaval”, comentou o jornal.   
 
 
Outra opinião
 
 
Afora o comentário jocoso do La Nación, as opiniões na mídia de maneira geral convergem sobre a importância da viagem que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fará ao Brasil neste fim de semana.  O número de jornalistas credenciados para a cobertura da visita demonstra o tamanho do interesse dos veículos em acompanhar os seus passos no Brasil: 120 jornalistas estrangeiros e 170 nacionais, de acordo com o Itamaraty.
 
 
Empossado em 20 de janeiro de 2009, o democrata Barack Obama é o 44º Presidente da História dos Estados Unidos, e o nono a visitar o Brasil nos últimos 60 anos. Para a maioria dos veículos nacionais e internacionais, a visita do chefe de Estado norte-americano tem como ponto principal a necessidade de reaproximação entre os dois países, que, segundo analistas, ficou meio prejudicada por causa da política externa adotada pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
 
Como observou o colunista Luiz Garcia no Globo, em artigo publicado na edição do dia 15 de março, “Obama não vem ao Rio a passeio, nem para resolver problemas. E sim para sacramentar decisões já acertadas e interessantes para os dois países”.
 
nbsp;
 
Reaproximação
 
 
 
Em meio a uma série de fatos importantes que estão acontecendo no mundo neste momento — o desastre nuclear no Japão, as revoltas no Norte da África e no Oriente Médio — a visita ao Brasil do Presidente Obama pode perder um pouco do brilho que uma iniciativa como esta sempre provoca na mídia.
 
 
O correspondente da revista alemã Der Spiegel, no Rio, Jens Glusing, acha que esses acontecimentos não vão afetar o apelo editorial da visita do Presidente Obama ao Brasil nesse momento. Segundo ele, trata-se do recomeço das boas relações entre os dois países, que foram prejudicadas nos últimos anos no Governo Lula:
— Ele (Lula) se decepcionou com a posição dos Estados Unidos na Cúpula das Américas, e em relação ao golpe em Honduras, quando o Brasil esperava que os norte-americanos também apoiassem o Presidente Zelaia. Isso provocou um esfriamento entre as duas nações. Mas esse reatamento vai ganhar destaque no noticiário, afirmou o jornalista.
 
 
Para a correspondente da revista Latin Trade, Mery Galanternick, o Presidente Obama está vindo ao Brasil em um momento de intranqüilidade em diversas regiões do mundo, mas que são acontecimentos que ele não tinha como prever. Mesmo assim, “qualquer coisa que ele faz desperta interesse”, afirma a jornalista que também já foi responsável pelo escritório do The New York Times no Rio de Janeiro.
 
Mery diz que as visitas que o Presidente Obama fará a países da América do Sul têm como propósito reforçar uma possível aliança com lideranças do continente, principalmente para melhorar as relações no âmbito da economia:
— A China já é o primeiro país importador de produtos brasileiros, passou os Estados Unidos. Então essa visita pode estar ligada a isso, ou seja, restabelecer projetos econômicos, afirma a correspondente da Latin Trade.
 
Outro ponto importante destacado por Mery Galanternick que vem sendo observado pela mídia é a diferença de comportamento entre a Presidente Dilma Rousseff e seu antecessor:
— Apesar das aparências, o Lula tinha muito mais intimidade com o Bush do que com o Obama. Com o primeiro ele tinha afinidade e empatia. Aquilo de o Presidente Obama ter dito que ele “é o cara” foi mais jogo de cena. Já a Dilma, logo no início do seu Governo, deu sinais de que tem intenções de ter mais aproximação com os Estados Unidos, disse Galanternick, que acredita que a visita de Obama vai ganhar as primeiras páginas e disputar o headline dos jornais, juntamente com os outros temas quentes do momento.
 
 
“Interrogações”
 
 
Em sua mais recente edição o Le Monde Diplomatique Brasil traz como matéria de capa a vinda do Presidente Obama ao Brasil. O ponto de vista da publicação é de que a vinda dele ao País “coloca muitas interrogações”. 
 
Na mesma edição do Le Monde, o PhD em ciência política Raphael Neves escreveu um artigo dizendo que, como se trata de um encontro de reaproximação, Estados Unidos e Brasil “darão prioridade a temas menos espinhosos e que possam gerar mais consenso”.
 
 
O correspondente da revista NewsWeek para a América Latina, Mac Margolis, classifica a passagem do Presidente Obama como “simpática e mais simbólica” do que as decisões importantes:
— Obama vem ao Brasil para refazer o elo que havia se perdido. Note-se ele vem ao Brasil antes de a Dilma ir lá (aos EUA), o que acho que é inédito em se tratando de um Presidente dos Estados Unidos. Em um momento em que a China ganha terreno como competidora no mercado externo, esse gesto (visita ao Brasil) está perfeito, porque os norte-americanos têm se afastado da América Latina. Então mesmo sendo simbólica esta visita agrega valor, afirma o jornalista.
 
Disse o correspondente da NewsWeek que há um reconhecimento da mídia norte-americana, sobretudo os veículos da área de economia, de que essa reaproximação dos EUA com os países sul e latino-americanos pode ser importante:
— É preciso ouvir o que pode somar para a economia norte-americana que anda de atualmente de crista baixa, por isso essa viagem move principalmente a imprensa especializada na área econômica, como o Wal Street Journal, a agência Reuters e as páginas de negócios dos grandes jornais, disse Mac Margolis.