Socialismo com restrição à liberdade de imprensa


23/01/2007


Trajano de Moraes*

Hugo Chávez é um político extremamente hábil. Às vezes o seu lado histriônico ofusca o compromisso com as metas que se propôs a atingir, e que vem atingindo. A retórica exacerbada, de comunicação instantânea com o povo, freqüentemente faz com que sua figura seja considerada ultrapassada, fora de moda, cafona até.

Mas já passou o tempo em que ele podia ser considerado apenas uma excentricidade latino-americana. A velha política venezuelana era uma democracia formal, em que dois partidos da elite se revezavam no poder há 40 anos, passando longe dos graves problemas de distribuição de renda, desigualdade social e corrupção. Foi esse modelo que Chávez pulverizou.

Chegou ao poder e expurgou as antigas instituições, substituindo-as por outras que possibilitaram a implantação de seu modelo bolivariano. O líder venezuelano passou a usar o Estado como instrumento-chave de execução de sua política assistencialista, garantida pela espetacular receita proporcionada pelos elevados preços do petróleo.

Quer queiram ou não seus críticos, Chávez consegue a proeza de manter sua popularidade depois de mais de oito anos no poder. Ganhou todas as eleições que disputou e soube capitalizar o imenso desgaste dos EUA, causado pelo desastroso governo do Presidente George W. Bush. Calçou as sandálias de Fidel Castro, aparecendo como uma espécie de sucessor do líder cubano, só que sentado em imensas reservas de petróleo que lhe conferem poder de fogo político.

Ao contrário de Fidel, que não conseguiu exportar a Revolução Cubana, Chávez está obtendo aliados na América do Sul, como o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa (Daniel Ortega, na Nicarágua, embora seu aliado, ainda é uma incógnita; no Peru e no México, contudo, adversários do venezuelano levaram a melhor em eleições recentes). Além disso, aproximou-se de Irã e Síria, inimigos dos EUA.

Os rumos do terceiro mandato chavista estão carregados de motivos para preocupação. O Presidente está disposto a levar seu poder pessoal ao limite extremo, passando por cima das próprias instituições que criara e que, de certo modo, davam uma tintura de normalidade a seu governo. Ele vai governar através das chamadas leis habilitantes, que nada mais são que decretos do Executivo, com os quais pretende ampliar ainda mais o intervencionismo estatal na vida dos venezuelanos. Em primeiro lugar, quer mudar a Constituição para aprovar a reeleição ilimitada e planeja estatizar as telecomunicações, as empresas de energia e os projetos de exploração de petróleo.

Seu programa segue em frente com a criação de uma grande rede estatal de meios de comunicação. Uma das iniciativas nesse sentido é a não renovação da licença operacional da RCTV, antiga rede privada de televisão e crítica de seu governo. É mais um sinal de que o caminho para o “socialismo do século XXI”, apontado por Chávez, passa por forte restrição da liberdade de expressão e de imprensa.

Dois grandes problemas do chavismo são a falta de informação sobre em que realmente consiste a Revolução Bolivariana e onde pretende chegar com o socialismo do século XXI. Infelizmente, as restrições ao direito de informar e opinar não ajudarão a esclarecer essas questões e dão razão aos que vêem, com preocupação, rumos cada vez mais totalitários na Venezuela.

*Trajano de Moraes é editorialista do Globo

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