30 de setembro de 2022


Othon Bastos no debate do Macunaíma


17/08/2021


Por Vera Perfeito, diretora de Cultura da ABI

Considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela lista da Abraccine, São Bernardo, de Leon Hirszman (114 minutos), baseado no livro de Graciliano Ramos, será exibido hoje, a partir das 10hs e até segunda-feira, no Cineclube Macunaíma. Às 19h30, haverá debate sobre o longa-metragem de 1971 com o ator Othon Bastos,  a jornalista e crítica de arte Maria Hirszman, filha do diretor, o diretor de fotografia Lauro Escorel e o crítico de cinema Rodrigo Fonseca. Assista pelo canal da ABI do YouTube.

Com música de Caetano Veloso, São Bernardo é um drama brasileiro de 1971, rodado na cidade de Viçosa (Alagoas), onde Graciliano Ramos viveu muitos anos e onde escreveu algumas de suas obras. O filme recebeu vários prêmios em festivais, entre eles o de melhor ator para Othon Bastos no Festival de Gramado, e ganhou o Prêmio Air France, de 1973, como melhor filme, diretor (Leon Hirszman), ator (Othon Bastos) e atriz (Isabel Ribeiro), além do Coruja de Ouro de melhor diretor e atriz coadjuvante (Vanda Lacerda). A cinematografia é de Lauro Escorel.

Filme e diretor

De origem pobre, Paulo Honório (Othon Bastos) trabalha incansavelmente como caixeiro-viajante e agiota, conseguindo se tornar um rico fazendeiro; só que ele é um homem torturado constantemente por suas obsessões e desconfianças.

Em uma manobra financeira, assume a decadente propriedade São Bernardo, fazenda tradicional do município de Viçosa, Alagoas. Recupera a fazenda, expande a sua cultura, introduz máquinas para tratamento do algodão, entra na sociedade local. Desejando um herdeiro para um dia assumir o fruto da acumulação do capital, estabelece um contrato de casamento com a professora da cidade, Madalena (Isabel Ribeiro). O casamento se consuma, mas gradativamente as diferenças entre eles se acentuam e Madalena, precisa enfrentá-lo depois que ela se cansa de seus modos. No elenco estão ainda: Rodolfo Arena ( Dr. Magalhães), Joseph Guerreiro (Gondim), Labanca, Vanda Lacerda (Dona Glória), Mário Lago (Nogueira), Nildo Parente (Padilha), José Policena, Andrey Salvador e Jofre Soares (Padre Brito).

Leon Hirszman, o diretor de São Bernardo, morreu jovem, aos 50 anos,  em 1987. Carioca de Lins e Vasconcelos, ingressou no Partido Comunista do Brasil aos 14 anos, influenciado por seu pai. Bacharelou-se em engenharia, mas nunca exerceu a profissão. Apaixonado por cinema desde cedo, já na faculdade tornou-se frequentador assíduo de cineclubes. Seu primeiro contato com o cinema foi em 1957, como ajudante de produção do filme Rio, Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos. Neste mesmo ano foi assistente de direção e continuidade de Juventude sem amanhã, de Elzevir Pereira da Silva.

Durante o governo João Goulart (1961-1964), foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura em 1962, tornando-se responsável pelo setor de cinema. Produtor de Cinco vezes favela, um marco do Cinema Novo, Hirszman dirigiu A falecida (1964), baseado em peça homônima de Nelson Rodrigues, e Garota de Ipanema (1967). No final da década de 1960, associou-se, juntamente com Marcos Farias, à produtora Saga Filmes, para filmar São Bernardo. A demora em estrear o filme, retido pela rígida censura do regime militar durante sete meses, levou os produtores a abrirem processo de falência (São Bernardo só entraria em cartaz em 1972).

Em 1975, foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Cineastas, na qual desenvolveu intensa atividade política, procurando articular diversos intelectuais contra a ditadura. Nos anos seguintes, dirigiu os documentários Partido alto (1976), Cantos de trabalho (1978) e ABC da greve,filmado em 1979, mas que só ficaria pronto para exibição postumamente, em 1990. Apenas em 1981, voltou a fazer um longa-metragem, Eles não usam black-tie, argumento de Gianfrancesco Guarnieri.

Os últimos anos de sua vida foram dedicados ao projeto Imagens do inconsciente, uma série de três documentários sobre três artistas esquizofrênicos do Centro Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro, dirigido pela psicanalista Nise da Silveira. O trabalho foi concluído em 1986. Faleceu no dia 16 de setembro de 1987, no Rio de Janeiro.

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