12 de agosto de 2022


Os amores do escritor Manuel Bandeira com a ABI


27/01/2021


Reprodução do Boletim da ABI. Arquivos jornalísticos de Norma Couri.

 

Os amores de Manuel Bandeira com a ABI

Por Norma Couri, diretoria de Inclusão Social, Mulher & Diversidade da ABI 

Os novos jornalistas não sabem o que perdem por não ler Manuel Bandeira. Seus seguidores aprenderam muito com ele: Murilo Mendes, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes… O que Bandeira ensinava valia tanto para os poetas como para os profissionais da escrita. Ele dizia que os poetas não chegariam à grandeza “sem queimar algo de si”, “sem tirar tudo de si”. “Reivindico em arte o direto de gritar”. Artistas, deveriam espalhar “o contágio, o transe, o pânico”. “Eu faço versos como quem morre”, escrever é morrer um pouco. Na posição de crítico, escrevendo em jornais, Bandeira dizia sobre as obras que analisava, “não havendo choque, aí, sim, não existe necessidade nenhuma de crítica”. Defensor dos modernistas da Semana de 22 ele sugeria adotar o estilo direto e confessava, em 1933, na coluna Impressões Literárias noDiário de Notícias “a vantagem dos críticos está em não comprar; a desvantagem, às vezes, em ler”.

Numa das críticas ataca um autor que gosta de “latinismos campanudos”, tacha a tradução de um catarinense de “ilegível… será assim o português de Blumenau?”. Era um crítico tão leal que seus criticados recebiam as críticas duras como Vinicius de Moraes (“a sua facilidade verbal está pedindo a disciplina”) acabavam ficando seus amigos.
Seus melhores textos foram escritos na Lapa, rua do Curvelo,33, onde morava sozinho trabalhando a escrita sobre uma rotina carioca mundana. Bandeira se intitulava “simples e pobríssimo poeta lírico” mas foi um belo tradutor de Shakespeare em “Macbeth”, um dos maiores poetas do século XX, imortal da Academia Brasileira de Letras e, nas crônicas, um repórter genial sobre a vida cultural do Rio.
E jornalista. Bandeira entrou para a Associação Brasileira de Imprensa em 1925 na gestão de Raul Pederneiras mas quando a ABI se mudou para um sobradinho, desistiu, seu pulmão não lhe dava fôlego para subir escadas. O fino humor de sua carta de desligamento foi reproduzido no boletim comemorativo dos 50 anos da Casa, a 7 de abril de 1958. Ali alegava o motivo: “insuficiência respiratória”.

“Em 1925 havia em nossa imprensa periódica uma revista meio clandestina, não me lembra se semanal ou quinzenal, chamada, muito pouco jornalisticamente, A Idéia Ilustrada. A enfezadinha meio moribunda foi para nas mãos de Luís Aníbal Falcão, que gastou dinheiro e deu pulos para todos os lados tentando galvanizar a desenganada.

Acompanhei essa luta heróica no posto não remunerado de crítico musical da revista. Julgava-me suficientemente pago de meu presunçoso trabalho pela convivência com Falcão, Freixeiro, Secretário da Idéia, rapaz encantador, morto prematuramente, e o desenhista Angelus. Mas resolvi tirar outra vantagem da situação, inscrevendo-me como sócio da Associaç&ati lde;o Brasileira de Imprensa: teria meu enterro pago, se morresse, e, enquanto vivo fosse, abatimento nas passagens do Lóide e da Central. Precação inútil: jamais morri, nem com abatimento viajei no Lóide e na Central.

Bem. Munido do atestado que me foi fornecido pelo diretor da revista, dirigi-me à sede da ABI. A rica cinquentona de hoje era, naquele tempo, uma menina de quinze anos, sem eira e sem beira nem maneira. Nem tinha casa própria. Morava por favor em casa alheia. Na ocasião era hóspede da Brigada Policial e ocupava uma dependência do quartel da rua Evaristo da Veiga. Seu presidente, Raul Pederneiras. Nunca eu lhe tinha falado, embora eu fosse admirador do caricaturista da vida carioca desde os meus tempos de menino, desde os tempos do Tagarela.

Raul passou a vista no atestado de Falcão e indagou, sem me olhar:
–Essa revista existe mesmo?

A pergunta pareceu-me desobrigante. Mas Raul era humorista e eu decidi tomá-lo com humorismo. Respondi: Existe, sim, mas nós não a alcançamos porque ela existe apenas…

Percebi que Raul não conhecia os versos de Vicente de Carvalho, considerei-me desforrado.

Enquanto a ABI ficou nos Barbonos foi-me fácil ser sócio dela porque a sua sede era no rés-do-chão. Quando, porém, se mudou para um segundo andar da rua do Rosário, a coisa virou sacrifício, porque a Associação não tinha cobrador a domicílio e eu não tinha dois pulmões necessários para a escalada do segundo andar do velho prédio da rua do Rosário. Fui eliminando por insolvência pecuniária: na realidade por insuficiência respiratória.

Eis a história lamentável dos meus amores com a ABI. De longe vi a menina ficar moça, noivar e casar-se com Herbert Moses, que lhe deu casa, estadão, prestígio. E agora que ela completa seus cinquenta verões, lhe envio minha saudação de obscuro colaborador da mais extinta revista da nossa imprensa, e os votos de prosperidade do maior admirador de seu bravo, dinâmico, infatigável Presidente. (Não canto o Happy Birthday to you porque detesto a toada e a letra)’.

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