3 de julho de 2022


O real no escurinho do cinema


15/06/2022


Maria Luiza Franco Busse, diretora de Cultura da ABI (*)

Tamboro é palavra indígena da tribo dos ingaricó, de Roraima, que quer dizer  Para todos, sem exceção, e dá nome ao pouco conhecido filme de Sergio Bernardes sobre o Brasil e o extermínio da Amazônia pela ação deliberada das elites.

Não há como não imaginar no próprio corpo o impiedoso corte da floresta e o horrível barulho dos motosserras. E compreender a fundo a indiferença da elite na cena do banquete em traje a rigor e regado a champanhe francês em meio a toda destruição e miséria.

A elite indiferente ao sofrimento é o peso morto da História, a imagem do fascismo. Para além do que pode se pensar, o fascismo não é acontecimento datado. Quando muito, datadas são suas técnicas de modo de operar. Isso porque, fascismo é e sempre será a ausência da alteridade diversa.

Ainda como congressista e já se preparando para a disputa da presidência da República, Jair Messias Bolsonaro gravou mensagem no cenário da Câmara federal: “Alô pessoal de Roraima. Em 2019 vamos desmarcar a reserva indígena Raposa do Sol e dar fuzil com porte de arma para todos os fazendeiros”.

Quando falava sobre seu filme, ‘Tamboro’, o arquiteto e cineasta Sergio Bernardes dizia que o problema do Brasil e da Amazônia, em especial, não era nem ecológico nem sociológico, mas civilizacional. Sergio morreu aos 63 anos, em 2007. Doze anos depois, 2019, o país se encontrava chafurdado na barbárie do ultraconservadorismo nos costumes associado ao ultraliberalismo na economia que, juntos, perfazem a política do ‘Para poucos, com todas as exceções’.

*Extrato de artigo escrito em 28 de agosto de 2019 pela autora e publicado no mesmo ano site 247, com o nome original Tamboro/Bacurau.

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