Mercado e formação


18/01/2006


As universidades e a mídia do País precisam se preocupar com a melhoria da capacitação dos jornalistas que desejam atuar na área de ciência. Quem alerta é o Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, Ulisses Capozzoli:
— O assunto se transformou numa certa coqueluche e com isso atraiu muita gente sem qualificação, buscando apenas um certo prestígio. As faculdades e redações deveriam passar por uma profunda reformulação, para que possa emergir um jornalismo interpretativo de boa qualidade. E esse desafio é de toda a sociedade, embora possa não parecer à primeira vista. Informação de boa qualidade é um reflexo de boas condições sociais.

O editor Cláudio Ângelo Monteiro, da Folha, é mais contundente em suas críticas ao mercado de trabalho e se diz cético em relação ao crescimento de oportunidades no campo da ciência, “que, no Brasil, não oferece perspectiva de crescimento”.
— Vejo-o como aquilo que os economistas chamam de mercado de nicho. Ou seja, toda redação deveria ter jornalistas da área, com sua competência diferenciada, pagando um “prêmio” ou sobrepreço por essa competência.

Mesmo assim, ele elogia o esforço de parte da nossa imprensa para divulgar o tema:
— Na Folha, por exemplo, temos uma das poucas páginas diárias dedicadas exclusivamente à ciência na imprensa mundial. O New York Times, o Boston Globe e o Washington Post não têm isso. Em compensação, contam com muito mais gente para cobrir a área.

Segundo a jornalista Terezinha Costa, o crescimento e a profissionalização das assessorias de imprensa tem ajudado muito a divulgação científica e os colegas que trabalham com o tema. Como há poucos profissionais especializados, a competição no setor também é menos acirrada, o que não os livra de ter que entender de assuntos variados:
— O jornalista precisa gostar de ciência e tecnologia e não ter medo de temas que a maioria das pessoas acha complicados ou técnicos demais. É preciso, porém, levar em conta que esse universo é muito amplo: abarca praticamente todas as áreas da ação humana.

Segundo ela, a curiosidade intelectual é fundamental, mas conhecimentos profundos sobre os temas a serem abordados, nem tanto:
— Até porque isso seria impossível. Basta que o jornalista tenha disposição para adquirir noções básicas que lhe permitam pelo menos iniciar uma conversa com um astrônomo, um físico, um químico, um paleontólogo etc., e usar cada entrevista para aprender um pouco mais. E se ele se interessar também por história da ciência e um pouco de economia e for capaz de articular tudo isso em suas matérias, então irá se destacar. 

Viviane Kulczynski 

Leitura prazerosa

Para cativar o leitor, Viviane Kulczynski, do Estadão, acha que o principal é transformar o tema em algo acessível a todos:
— Não somos uma revista especializada. Logo, somos lidos por gente com as mais diversas formações. Nossa função é quase que a de traduzir assuntos complexos e torná-los legíveis, inteligíveis e prazerosos, levando para o universo do leitor questões complexas, mas fundamentais.

No Estado de S. Paulo, assuntos de ciência e tecnologia estão vinculados à Geral, que passou a se chamar Vida& com o novo projeto gráfico do jornal:
— Nas quartas-feiras, temos sempre matérias, notas e um artigo sobre o tema, o que não exclui a publicação de reportagens científicas nos demais dias da semana.

O mais importante, diz a editora, é não ficar na superfície da notícia:
— Temos a preocupação de que a equipe de reportagem seja competente para ir além da notícia, com capacidade de repercutir, de explicar as implicações dos temas abordados.

Formada há dois anos em Jornalismo e, atualmente fazendo um curso de especialização em gestão ambiental, a repórter Júlia Kacowicz, do Diário de Pernambuco, concorda que a aptidão para a pesquisa é fundamental na divulgação científica. E como os assuntos das reportagens são muito diversificados, não há como selecionar uma área principal de formação:
— Alguns termos técnicos ou científicos podem ser bastante assustadores, por isso é preciso buscar ao menos um conhecimento básico antes de qualquer entrevista. Muitos cientistas são muito acessíveis. Outros, no entanto, não têm interesse em divulgar seu trabalho ou serem compreendidos, acham que os jornalistas é que têm a obrigação de saber de tudo.

Júlia Kacowicz

Para estes, Júlia procura esclarecer a importância de transmitir para o leitor mensagens sem dúvidas, principalmente porque o assunto será mostrado num veículo não-especializado:
— Num jornal diário, o ideal é ser claro sem ser superficial, pois o público é muito diversificado. O texto deve ser atraente, para causar interesse nos leigos, e informativo, para não desapontar os cientistas. Todos gostam de ler um texto informativo e de fácil digestão. Dessa forma, ainda estaremos contribuindo com a divulgação científica, despertando o interesse de um público mais amplo.

Siga a abi

© 2013 ABI - Associação Brasileira de Imprensa – todos os direitos reservados -Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Cep: 20030-012