Glenn Miller em Minas Gerais e independência no Pará


22/11/2007


A idéia de simbolizar a notícia fresca e o velho pote de barro, que guarda no seu interior a água fresquinha para beber, acompanhou muitos anos João Domingos. Com essa inspiração, em 19 de outubro de 1969 ele criou o Botija Parda, em Araguari, Minas Gerais. O título do jornal é também uma homenagem à música “Little Brow Jug”, lançada pela Glenn Miller Orchestra, da qual o jornalista mineiro é fã.

Com tiragem de 2 mil exemplares, o veículo circula entre assinantes araguarinos residentes no Brasil e no exterior, além de ser vendido em bancas e distribuído nas duas universidades do município mineiro:
— A sinergia do Botija Parda com o leitor é grande. A necessidade de participar da informação ou emitir opinião sobre a notícia cria uma relação muito próxima entre o órgão de comunicação e a comunidade — afirma o editor Cláudio Henrique Levi Domingos.

 Cláudio Henrique Levi

Segundo ele, os editores do Botija Parda geralmente discutem as pautas por telefone ou em encontros informais:
— Sempre privilegiamos o noticiário local. Afinal, o leitor conta com internet, televisão e rádio para atender à sua curiosidade em nível nacional. Cabe ao jornal comunitário levar-lhe o pensamento de seus líderes, as ações de seus representantes, os atos dos demais munícipes que mereçam destaque noticiosos e os eventos sociais da cidade. A capa contempla as notícias significativas do município ocorridas na semana até o fechamento da edição, sempre com ênfase nas informações políticas. É também nossa preocupação sempre registrar, mas nunca não potencializar ou tratar desprezivelmente, atos de violência e ocorrências policiais.

O fechamento acontece sempre às quintas-feiras na redação, onde a diagramação e a impressão são terceirizadas:
— Não se encontra mão-de-obra com facilidade — explica Cláudio. — A oferta de estagiários é pequena, pois não há faculdade no município, o que dificulta o investimento em qualificação e, conseqüentemente, a oferta justa ao mercado de trabalho.

Em relação ao mercado publicitário, Cláudio diz que, “a um custo altíssimo, é mais apropriado afirmar que, para sobreviver, toda mídia do interior do País depende de duas realidades: o poder público e a religião”. E faz uma queixa:
— O Governo de Minas Gerais trata com indiferença os veículos do interior. Não é que deixe de anunciar, mas não paga. O mercado publicitário fora das fronteiras de Araguari simplesmente não existe para o Botija Parda.

Alternativa

                                        Lúcio Flávio Pinto

No Pará, o experiente repórter Lúcio Flávio Pinto diz que o principal problema do jornalismo interiorano é a dependência excessiva da propaganda oficial e que as empresas mais independentes estão sempre sujeitas a tratamento discriminatório:
— Poucas conseguem encontrar na iniciativa privada um substituto para a publicidade governamental. A conseqüência é uma constante dificuldade de caixa e salários baixos, obrigando o profissional a buscar outras fontes de renda. O jornalismo pode acabar se tornando um bico, o que afeta a qualidade da informação.

Apesar das restrições, ele acredita que a imprensa do interior exerce um importante papel, por estar próxima de grandes projetos desenvolvidos longe das capitais:
— Como a imprensa da metrópole não se desloca tanto para o interior, como seria sua obrigação, recorre-se a essa pequena alternativa jornalística, que é fonte indispensável de informação.

Lúcio Flávio é o fundador, editor, diagramador, repórter e redator do Jornal Pessoal, que circula no Pará desde o final dos anos 90. Sempre teve um pé na imprensa convencional e outro na alternativa, trabalhou no Estadão e no Opinião, no Movimento e no Jornal da República, entre outros:
— Também idealizei experiências como o Informe Amazônico e o Bandeira 3, em Belém. O Jornal Pessoal, lançado em setembro de 87, foi o resultado do que fiz em 21 anos. Decantei tudo que aprendi na definição do projeto: produto de uma só pessoa, que não aceita anúncio, adota métodos industriais de baixo custo (sem fotos ou cores) e é comercializado, sem depender de ninguém, apenas em livrarias e bancas, pontos cada vez menos procurados pelo leitor das faixas A e B, que espera sua publicação chegar em casa. Meu jornal é independente não apenas na retórica, mas de fato.

Por isso mesmo, ele assume que a existência do Jornal Pessoal é precária:
— Ele só existe porque o leitor quer que ele exista. Quando o leitor não quiser, desaparecerá. Nesse caso, também não ficará preso a nada, porque não tem estrutura administrativa nem qualquer compromisso futuro, como aconteceria se adotasse o sistema de assinaturas. Mas não imaginei que ele ia durar tanto tempo e que sua existência teria uma justificativa básica: publicar o que não circula na grande imprensa.

Lúcio Flávio afirma ainda que, em seu Jornal Pessoal, fez uma deliberada opção pela pobreza para poder assumir um compromisso radical com a liberdade, sabendo que o veículo nunca irá crescer:
— Não porque não pode, mas porque não quero. Se ele crescer, terei que contratar gente, montar estrutura — e ele já não poderá mais viver exclusivamente da venda avulsa, precisará de anúncio, e deixará de ser o que é: diferente, único. Hoje, com 42 anos de profissão, sei que só assim posso ser completamente independente, escrevendo e publicando sem qualquer restrição, exceto a minha capacidade. Meu limite é minha competência e nada mais. Sou pobre, mas sou feliz.   

        

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