Fotógrafo de guerrilhas e beldades


04/09/2006


Claudio Carneiro
08/09/2006

Nascido em 1933 e com 52 anos de atividade, Geraldo Simeão Viola foi repórter-fotográfico de O Cruzeiro e do Jornal do Brasil e, atualmente, está na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Com tanto tempo de profissão, ficaram boas histórias pra contar. O primeiro contato com a carreira foi no final dos anos 40, num estúdio fotográfico na Rua México, no Edifício Civitas:
— O patrão era amigo do meu pai. Naquela época, esse tipo de indicação era muito comum. E os estúdios faziam retratos — lembra.

Em 54, ele estreou na revista O Cruzeiro, onde atuou por 23 anos. Lá, trabalhou com o repórter David Nasser e tinha como colegas da Fotografia Indalécio Wanderley, Flávio Damm e Luiz Carlos Barreto. Nessa fase, a inauguração de Brasília e o lançamento da missão da Apollo 11, que chegou à Lua, estão entre seus trabalhos mais importantes:
— O ano foi 1969. Eu e o Indalécio viajamos cobrir o concurso de Miss Universo. No intervalo, fomos até Cabo Canaveral, fotografamos o lançamento da espaçonave e voltamos para a grande final do concurso. Éramos dois fotógrafos, sem nenhum repórter. A imagem era mais importante que o texto em O Cruzeiro.

Uma missão que deu muito trabalho foi o treinamento de combate à guerrilha — em plena Amazônia — durante a ditadura. Viola se diverte ao contar que chegou a ganhar um certificado de conclusão de curso antiguerrilha dado pelos militares. E destaca que os anos de chumbo foram o período que rendeu os trabalhos mais importantes e arriscados: 
— Os movimentos estudantis e o enterro do estudante paraense Edson Luís de Lima Souto — quando os militares confundiram a bandeira do Pará com a de Cuba —  foram muito marcantes.

O fotógrafo acabou preso durante o embarque dos militantes de esquerda trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick.
— Eu consegui entrar pelos fundos do aeroporto do Galeão, onde havia uma cerca meio aberta. Entrei por ali e fiz a foto. Os militares me viram. Fiquei preso por algumas horas e, depois, fui liberado. Esta foto que fiz não é aquela oficial, publicada em diversos jornais — para provar que os “subversivos”, entre eles Fernando Gabeira e José Dirceu, tinham embarcado. A que saiu no Cruzeiro é que era minha.

No JB, Viola trabalhou por 17 anos — “como você pode ver, não gosto muito de mudar de emprego”, brinca. Perguntado se ganhou algum prêmio na carreira, ele dispara:
— Nunca concorri a prêmio nenhum. Sempre fugi de duas coisas: concorrer a prêmios e dar entrevistas. 

Polêmica

Durante o conflito Malvinas/Falklands, mesmo sem desembarcar no campo de guerra, Viola causou grande polêmica ao fotografar um bombardeiro inglês apreendido por invadir nosso espaço aéreo:
— O avião foi levado para o Galeão e a imprensa toda correu para lá. Peguei uma teleobjetiva de 500 milímetros e fiz a foto da varanda do aeroporto. Como a objetiva muito grande tende a juntar — ou “chapar”, como dizemos — os diferentes planos, dá a impressão de que o Pão de Açúcar estava colado no Galeão. Muita gente pensou até que a foto tivesse sido feita do Santos Dumont e dezenas de leitores escreveram para o jornal para dizer que a foto era mentirosa ou montada. O jornal teve de publicar uma nota explicando, tecnicamente, como ela fora tirada.
BR>Apesar dos muitos anos de carreira e das variadas coberturas que fez, Viola tem um arquivo pessoal muito modesto:
— Havia normas muito rígidas em O Cruzeiro. Eles não permitiam que ficássemos com fotos nossas. Tenho pouca coisa e não sei que fim levou o material da revista. Mas nunca tive essa preocupação. Sempre achei que iria embora e que O Cruzeiro e o JB ficariam para sempre. Acabou acontecendo o contrário.

Avaliando sua trajetória, ele acha que valeu a pena:
— Conheci o mundo inteiro e consegui viver e sobreviver graças à fotografia. Cobri a Copa do Mundo de 66, na Inglaterra, a inauguração em Portugal — pelo próprio Oliveira Salazar — da ponte sobre o rio Tejo. Estive também em Cuba, Estados Unidos, Áustria, Espanha, Itália, Suécia, Rússia, Irlanda, Argélia, Tunísia e outros países de que não me recordo agora.

Quanto aos avanços tecnológicos, como a fotografia digital e o envio de fotos pela Internet, Viola não esconde o entusiasmo:
.— Tudo ficou mais fácil! E este é o futuro. Os jornais precisam de muita agilidade na feitura das matérias e na edição. Antigamente, você ia para o jogo de futebol, fotografava os primeiros cinco minutos de jogo e mandava o que tinha feito pelo motorista. O material era revelado, ampliado e selecionado para publicar. Hoje, o fotógrafo faz tudo isso de dentro do campo, pelo celular ou pelo laptop. O processo ficou mais ágil. Acho até que o filme não vai acabar, nem a foto em preto e branco, mas as inovações vieram para ficar. Para a imprensa, o futuro é digital.

Clique nas imagens para ampliá-las: 

“Tirei 
esta foto 
durante a…”

“Esta beleza natural não existe…”

“Esta imagem gerou polêmica…”

“Registrei 
nos anos 60 imagens…”

“Um momento de reflexão 
na vida…”

“A cobertura de uma
Copa do…”

“Aqui vemos a taça Jules Rimet…”

“A Copa 
de 70 foi conquistada…”

“Além da fotografia, as orquídeas…”

 

 

           

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