30 de setembro de 2022


Fotografia com crítica e assinatura


06/02/2007


Rodrigo Caixeta 
09/02/2007

A paixão pela fotografia surgiu aos poucos na vida de Zeka Araújo. Completando 40 anos de profissão em 2007, ele conta que seus primeiros cliques aconteceram na adolescência, época em que fotografava o time de futebol de sua rua. Foi ali que percebeu a importância da atividade como documento histórico, “uma forma de se integrar a um tempo de acontecimentos”:
— A partir daquelas fotos, me chamaram para ser estagiário no Diário de Notícias. Na época, o Seu Pereira, chefe do Departamento Fotográfico, perguntou-me se eu conhecia tudo da matéria. Menti para ele, mas fui aprendendo durante todo aquele ano de 1967.

Quando começou no fotojornalismo, Zeka diz que as pautas eram ainda muito subordinadas ao texto, o que o incomodava:
— Nossas fotos eram uma espécie de apêndice da verdade do texto. Em 1968, fui chamado para O Cruzeiro, onde o status do fotógrafo era outro. Lá havia a tradição de respeito ao profissional e estava mais claro que quem embalava o produto era a fotografia. José Medeiros e Jean Manzon, entre outros, já tinham passado por lá e formado uma escola de grandes fotógrafos como seres pensantes. Era um período em que havia tempo para andar pelo Brasil, mergulhar nos assuntos, fazer grandes reportagens.

Zeka lembra que o sonho de sua família era que ele fosse jóquei, tanto que, aos 6 anos, ganhou seu primeiro cavalo de corrida de brinquedo. Mas foi como fotógrafo que ele se consagrou e sempre trabalhou. Chegou a mudar a grafia de seu nome, devido à chegada ao Brasil de alguns fotógrafos estrangeiros “com nomes chiques”, como Claus Meyer e David Drew Zingg:
— Eu assinava José Araújo, nada mais comum e brasileiro. Resolvi botar um “k” para dar uma “estrangeirada” nesse Zeka brasileiro. Quando escrevem meu nome com “c”, fico sem identidade.

Zeka trabalhou também no jornal O Globo e na Placar, cuja equipe carioca para fazer as coberturas era então composta apenas por ele e um repórter. Na época, o fotógrafo achava que a revista precisava ter uma visão mais autoral do futebol:
— Comecei a me desprender da idéia de registrar o gol para mostrar o balé, o drama. Na Placar, cruzava com o Maurício Azêdo, hoje Presidente da ABI. Nunca fizemos dupla de reportagem, mas sempre tivemos uma relação cordial. Lembro-me dele como um jornalista ligado à ética da profissão, às causas jornalísticas.

Correspondência internacional 


Pela Editora Abril, Zeka foi o único correspondente fotográfico na Europa durante alguns anos e viajou por 18 países, fazendo imagens exclusivas para Placar, Veja e Cláudia. De volta ao Brasil, criou com Rogério Reis a Agência F4 e, posteriormente, fez “Meu querido Jardim Botânico”, livro produzido em parceria com Tom Jobim e reeditado recentemente em homenagem aos dez anos da morte do maestro. Atualmente, o fotógrafo está produzindo dois livros — um sobre as bandas centenárias do Rio de Janeiro, outro intitulado “Jardim Botânico 200 anos” —, ao mesmo tempo em que se dedica a dar cursos variados, sem abandonar as aulas para crianças carentes dos bairros de Irajá e Acari ou a visão crítica em relação ao que é ensinado em sala:
— Não acredito que dois meses, com duas aulas por semana, sejam suficientes para formar um fotógrafo. O aluno avança nos conhecimentos, mas é preciso ler, ir ao cinema, ouvir música, ter um conjunto de sensações, senão ele vira um mero apertador de botão. A fotografia, como boa parte da produção intelectual hoje, é conceitual.

Segundo Zeka, quando cria as diretrizes do ensino superior de Jornalismo, o Ministério da Educação desqualifica a profissão de fotógrafo, pois nega a possibilidade de autoria e atribui à fotografia apenas conceitos como diafragma e velocidade, “técnicas que em dez minutos se aprende”:
— As empresas usam este conceito perverso porque, não tendo autor, qualquer um pode fotografar, qualquer um ganha qualquer salário e obedece às orientações da empresa. Isso é uma mentira, porque nenhuma máquina de escrever redige um romance em si: é preciso um Graciliano Ramos para dar sentido àquele papel em branco. Todo fotógrafo é autor, ainda que siga orientações. Ele escolhe o tempo, o enquadramento, há uma decisão própria. A imagem autoral valoriza a publicação.

Entre os trabalhos inesquecíveis dos tempos dos jornais e revistas — a maioria perdida com o fim das publicações —, Zeka destaca uma foto do caixão do estudante Edson Luiz, feita sob a luz do farol dos carros na Avenida Rio Branco, no Rio, e publicada no Diário de Notícias:
— Naquela época, os fotógrafos tinham 12 fotogramas para cobrir três ou quatro pautas, o que era um exercício perverso, absurdo, mas que cumpríamos profissionalmente. Estava na rua quando ouvi uns dez jovens gritando “assassinos” na Cinelândia e fui ver o que se passava. Parei o trânsito, aproveitei a luz dos faróis, pois estava sem flash, e o grupo veio devagar, carregando o caixão. Tive calma para fazer a foto, porque só tinha um fotograma sobrando, mas todo o clima conspirou para aquele momento. A foto foi capa e aquela edição vendeu como água.

Hoje, o fotógrafo diz que é preciso viver com arte:
— O ser humano que não consegue ver a vida artisticamente, que se restringe a uma visão utilitária do mundo, está muito mal. É preciso ter poesia, ver o mundo de forma transcendente. Depois de 40 anos de carreira, imagina se eu estivesse fazendo fotos para satisfazer o desejo de um repórter ou editor? Ou qualquer trabalho que fugisse do meu desejo? Eu seria bastante infeliz. Um pouco da minha disposição em continuar vivendo como fotógrafo está na mudança de pauta, do paradigma do que é a fotografia, e de discutir para o que ela serve. 

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