2 de julho de 2022


Brasil, um Estado misógino que só cumprimenta a juíza que nega aborto legal a uma criança


23/06/2022


Por José Trajano, membro do Conselho Consultivo da ABI, no UOL

Diz-se de tudo deste governo que aí está: negacionista, preconceituoso, racista, absurdamente ruim, incentivador das invasões aos territórios indígenas e dos que promovem o desmatamento da Amazônia, responsável pelo alto número de mortes na pandemia pelo atraso na compra de vacinas, ignorante em relação à cultura, incapaz com a educação (um ministro pior e mais desqualificado do que o outro), incompetente no controle da inflação e dos altos preços, responsável pelo crescimento absurdo e cruel do número de pessoas com fome, incentivador da violência desmedida através da liberação da compra de armas e dos discursos carregados de cólera do presidente.

Podia ficar aqui até amanhã acrescentando aberrações e malfeitos na relação das barbaridades. Mas o que quero mostrar é outra faceta: o quanto esse governo é feito de misóginos. Misógino é o cara que tem ódio ou aversão às mulheres, não é? Pois bem.

Listei situações recentes, porque se olhar para trás, a lista não chegaria ao fim.

De uma semana para cá perdemos Ilka Soares, Maria Lúcia Dahl, Marilu Bueno e Danuza Leão. Mulheres talentosas que nos iluminaram por muitos e muitos anos com participações em filmes, desfiles de moda, novelas, e também como escritoras. Nem um pio por parte deles, talvez até por não saber de quem se trata.

A extraordinária e maravilhosa Fernanda Montenegro, do alto dos seus 92 anos, tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Nem uma menção, nem um cumprimento à nossa estrela maior do teatro, do cinema e da televisão.

As viúvas de Bruno Pereira (a antropóloga Beatriz Matos) e de Dom Phillips (a designer Alessandra Sampaio) não receberam pêsames por parte do presidente, apenas uma declaração frita e protocolar solta ao vento.

No esporte, Bia Haddad se tornou a tenista brasileira mais bem ranqueada da história, ao lado da inesquecível Maria Esther Bueno, ao vencer 12 partidas seguidas na grama. Nada.

Ana Marcela Cunha conquistou ouro em etapa do Circuito Mundial de Maratona Aquática. Nada.

As meninas da natação conquistam feitos históricos no Mundial em Budapeste. Nada

A doutora Nise da Silveira, psiquiatra que primou pelo combate a técnicas agressivas no tratamento de pessoas com doenças mentais por meio da arte, teve seu nome aprovado pelo Senado para o livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Mas a inclusão foi vetada pelo presidente, que justificou que a homenagem representava “contrariedade ao interesse público.”

Podia citar também agressões a Daniela Mercury e Anitta por parte dos filhos do homem. As duas seguem firmes e altivas na luta pelos direitos da mulher e da população LGBTQIA+, parabéns.

Também não vi nenhuma palavra deles sobre a brutal agressão sofrida pela procuradora-geral Gabriela Samadello por parte de seu subordinado, o também procurador Demétrius Oliveira Macedo, na cidade de Registro, interior paulista.

E a “acusação” do deputado 02, Eduardo Bolsonaro, o Dudu Bananinha, que responsabiliza o acidente da linha 6 do Metrô de São Paulo pelo número de mulheres envolvidas na obra? É rir para não chorar de tanto preconceito e ignorância.

Hoje temos um Estado misógino, que reduz as politicas públicas para as mulheres e que se escora na tresloucada figura da ex-ministra Damares Alves e suas bizarrices.

A única mulher louvada e aplaudida nos últimos dias pela familícia foi a juíza Joana Ribeiro Zimmer, aquela que tentou convencer uma menina de 11 anos, vítima de estupro, a desistir do aborto legal, comparando-o a uma tentativa de homicídio.

É inacreditável! Dói na alma tamanha falta de afeto, de bom senso, de carinho, de amor, enfim.

Decididamente, precisamos que outubro chegue logo!

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