Antonio Ribeiro – Jornalismo para fugir da Matemática


16/11/2006


Claudio Carneiro
01/12/2006 

A exemplo do que ocorre com alguns profissionais, a escolha de Antonio Ribeiro pelo Jornalismo se deu por exclusão. Como não podia ver sangue, riscou a Medicina de sua vida. A burocracia dos tribunais o fez chutar para escanteio o Direito. Chegou a pensar em Letras, mas lecionar não era compatível com seu temperamento tímido. O horror à Matemática excluiu Engenharia, Arquitetura e muitas outras. Sobrou a Comunicação. No primeiro dia de aula, na faculdade de Jornalismo, o calouro repousava à distância da mais exata das ciências quando entrou em sala o professor Kingston, que lecionava adivinhe o quê? Estatística:
— Quase cortei os pulsos. Era Matemática pura. Curiosamente, tudo isso que eu sempre abominei, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente no dia-a-dia do meu trabalho, sobretudo na função de repórter. O fato é que, feita a escolha, o ofício acabou me conquistando de tal forma que hoje, com 24 anos de carreira, não consigo me enxergar em qualquer outra profissão.

Para chegar à dupla jornada como editor de Jornalismo da Rádio JB FM e redator do Globo.com, Antonio Ribeiro fez a “via crucis da ralação”, tão característica da atividade profissional. Formado pela Escola de Comunicação da UFRJ em 81, dois antes já estagiava na Fundação Roberto Marinho, redigindo boletins internos. Nos fins de semana, cobria eventos promovidos pela instituição, como jogos comunitários, exposições de artesanato e até torneios de xadrez, “mesmo sem saber apontar no tabuleiro quem é a rainha e quem é o cavalo”:
— Também trabalhei no house organ da Delphos, uma empresa de prestação de serviços, no Rio Comprido. Naquela época, era um jornalzinho bem artesanal, impresso em máquina de fotocópia. Eu fazia de tudo lá: apurava, redigia, editava e imprimia. Foi então que surgiu a oportunidade de cobrir férias, à noite, na JB AM. Isto foi em julho de 1982. Depois, com a saída de uma colega do turno da tarde para a TV Globo, acabei ficando com a vaga.

Antonio Ribeiro passou de raspão pela crise do JB. Quando a rádio foi vendida, em 1993, ele foi um dos poucos “sobreviventes” das demissões e acabou integrando a equipe da JB FM, ao lado de Roberto Dufrayer, Roberto Castanha, Fátima França e outros. Em 99, estreou na dupla jornada, cobrindo férias na Edição de Texto na TV Globo. Acabou sendo contratado para o “Globo esporte” e, depois, para o “Bom-dia, Brasil” e, em 2000, passou a integrar a equipe do Globo.com que redige conteúdo para celulares SMS e WAP:
— Eles precisavam de profissionais com perfil de redator de rádio ou TV, ou seja, com texto conciso, que coubesse naquele espaço limitado da telinha do celular. Fui e adorei. Estou lá há seis anos.

O jornalista acha que teve sorte de começar a carreira num momento de grande efervescência política, logo depois da Anistia e às vésperas das eleições em 1982. Com dois meses de Rádio Jornal do Brasil e ainda inexperiente, foi “emprestado” à editoria de Política, comandada por Pery Cotta, e acompanhou a campanha da então candidata ao governo do estado Sandra Cavalcanti, do PTB. Logo depois veio o escândalo da Proconsult, episódio no qual a emissora AM teve presença marcante.

Antonio também viveu experiências internacionais. Em 1989, a rádio Deutsche Welle, a “Voz da Alemanha”, pediu à JB AM ajuda para um documentário radiofônico sobre a favela da Rocinha, falando sobre coisas como os serviços sociais da comunidade. O programa seria todo narrado em português e veiculado pela emissora alemã para países de língua portuguesa. Durante duas semanas, Antonio e Luiz Carlos Saroldi subiram a Rocinha diariamente e colheram horas de depoimentos em dezenas de entrevistas. Quando estava tudo pronto, a Deutsche Welle convidou a dupla para uma quinzena na Alemanha:
— Viajamos em março de 90. Em novembro do ano anterior, o muro de Berlim havia sido derrubado e o mundo ainda vivia o impacto daquele fato histórico. E nós estaríamos bem no meio do caldeirão, em plena Alemanha. Era uma grande oportunidade. A viagem — que era para ser a passeio — acabou sendo de mais trabalho. Embarcamos munidos de fitas, gravadores e blocos de laudas e colhemos farto material para outro documentário, desta vez para a JB AM. “Depois do muro, a Alemanha” foi ao ar pouco tempo depois, no programa “Encontro com a imprensa”, seguido de um debate ao vivo com jornalistas e cientistas sociais convidados.

Embora não torça o nariz, Antonio faz algumas restrições ao jornalismo praticado na internet. E explica:
— A concorrência pela velocidade acaba gerando erros grosseiros de Português e, pior ainda, erros de informação. O triste é que muitos editores de sites não parecem se importar muito com isso. Muitas vezes o erro fica lá, na tela do computador, por horas e somente os leitores mais atentos — ou chatos, como eu — percebem. Mas, sem dúvida, a informação se tornou mais ágil, embora não tenha superado o bom e velho rádio.

Ele ressalta ainda o mundo de conhecimento disponível na grande rede:
— Nos velhos tempos da máquina de escrever, quando você precisava de uma informação extra para incluir na matéria, tinha que ligar para o Departamento de Pesquisa, o que podia demorar minutos preciosos. Hoje, basta acessar um site qualquer desses de pesquisa e voilà!

Fora da atividade jornalística, Antonio é um viciado em livros sobre o mundo da música e seus personagens. A leitura mais recente foi o de Ruy Castro sobre Carmem Miranda e o próximo da fila é o de Joaquim Ferreira dos Santos sobre Antonio Maria. Ele também se confessa um beatlemaníaco que chega a “cometer” algumas composições ao violão:
— Basicamente pop e um pouquinho de rock’n’roll, mas que ninguém me ouça. Afinal, como se diz, ninguém merece.

Voltando a falar da longa carreira no rádio, Antonio se diz honrado de ter sido o último Chefe de Reportagem da JB AM. Na ocasião, recorda, aceitou o cargo mais pelas circunstâncias do momento do que pela função — “gostava mesmo era de ser repórter”. Depois de tantos anos como redator, porém, aprendeu a gostar de esculpir a notícia a partir de informações brutas e amontoadas. E nisso — podemos conferir na JB FM — ele é especialista.