17 de agosto de 2022


ABI pede ao governador justiça para Edson e Jhordan


18/12/2020


Edson Arguinez e Jhordan Luiz (Imagens: reprodução)

 

“Carta aberta ao governador do Rio”

Rio, 16 de dezembro de 2020

Ilmo. Sr. Cláudio Castro, Governador do Estado do Rio de Janeiro

É com um sentimento de dor e de profunda indignação que nós, da Associação Brasileira de Imprensa, nos dirigimos ao senhor, para clamar por justiça diante de mais um crime bárbaro, entre tantos que têm chocado a população do nosso Estado. Mais uma vez, as vítimas são jovens negros, de famílias pobres. E a violência policial está presente.

Como certamente é do seu conhecimento, na madrugada de sábado, 12 de dezembro, Edson Arguinez Junior, de 20 anos, e Jhordan Luiz Natividade, de 18, foram assassinados em Belford Roxo, Baixada Fluminense. O crime foi precedido pela abordagem brutal dos dois rapazes em uma ação de dois policiais militares. Tudo registrado por uma câmera de segurança. Os policiais envolvidos são o cabo Júlio César Ferreira dos Santos e o soldado Jorge Luiz Custódio da Costa.

Câmera Flagra abordagem brutal dos policiais

Ao que parece, pelas imagens, um dos policiais dispara sua arma contra os jovens, que trafegavam em uma motocicleta conduzida por Edson. Já caído, Jhordan, aparentemente ferido, é chutado nas costas por um dos policiais. E precisa se arrastar para chegar ao outro lado da rua, para onde foram levados pelos policiais. Em seguida os dois rapazes são algemados e postos no carro da PM, que deixa o local dirigido por um dos policiais, enquanto o outro conduz a moto em que estavam os rapazes.

Ao amanhecer o dia, os corpos de Edson e Jhordan foram encontrados com marcas de tiros a poucos quilômetros do local. Não fosse a existência da câmera de segurança que registrou a violência inicial dos dois agentes públicos, talvez esse crime entrasse para a estatística de casos não esclarecidos. Graças àquelas imagens, o desfecho do caso tem tudo para ser diferente, para que se chegue aos assassinos.

Muita coisa, Sr. Governador, precisa ser apurada, principalmente entre o momento em que o carro da PM sai do alcance da câmera de segurança, levando os dois rapazes algemados, e o encontro dos corpos, horas, depois, com marcas de tiros. Os policiais, que estão presos, negam ter praticado os assassinatos. Dizem que pouco depois do local da abordagem liberaram os dois rapazes, quando o normal seria que os levassem à delegacia da área. Alegam ter constatado que nada havia de irregular com Edson e Jhordan, ou com a moto que era pilotada por Edson. E deixam um oceano de suspeitas, desconfianças, contradições.

Emily e Rebeca morreram juntas

Emily Victória Silva dos Santos e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos (Reprodução)

A sequência de crimes contra a população pobre e negra em nosso estado tem sido assustadora e revoltante, governador Cláudio Costa. Um verdadeiro massacre. Apenas oito dias antes do crime em Belford Roxo, duas meninas de quatro e sete anos foram mortas por um tiro de fuzil quando brincavam na porta de casa, na comunidade Barro Vermelho, em Gramacho, Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense. Eram primas. Vizinhos de Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7, afirmam que o tiro foi disparado por policiais militares, durante uma ação na comunidade. A PM nega.

João Pedro, 14 anos

João Pedro (Arquivo pessoal)

No dia 18 de maio, mais uma tragédia enlutou outra família, desta vez na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo. O estudante João Pedro Mattos, de 14 anos, foi morto com um tiro, dentro de casa, durante uma operação conjunta da Polícia Federal com agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). Parentes e vizinhos dizem que os policiais invadiram, já atirando, a casa em que João Pedro estava com outras crianças. Uma das paredes ficou com as marcas de vários tiros.

A essa hora, Governador Cláudio Castro, no momento em que nós, da ABI, clamamos por justiça, mais duas famílias estão destroçadas, perto do Natal — as de Edson Arguinez Junior e Jhordan Luiz Natividade. Neste caso, existem imagens nítidas, reveladoras das práticas de violência que têm sido comuns em ações da Polícia Militar. É preciso que essas práticas sejam punidas e, mais que isso, que os policiais do nosso estado recebam melhor formação. A Associação Brasileira de Imprensa apela ao senhor para que o Estado apure o crime com o máximo empenho. Porque justiça, nada mais que justiça, é o que exigem as famílias de Edson, Jhordan, Emily, Rebeca, João Pedro e de todas as outras vítimas desse tipo de violência em nosso estado.

 

Paulo Jeronimo de Souza

Presidente da ABI

 

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