30 de setembro de 2022


A notícia que vem de fora


27/01/2006


Rodrigo Caixeta
29/12/2005

A editoria Internacional é uma das que mais recebe notícias por dia dentro de uma redação. Devido ao grande volume de informações, os critérios de publicação não seguem lógica científica: o editor precisa apenas fazer um bom trabalho de hierarquização das notícias.

Eduardo Salgado, editor das páginas de Mundo no Estadão, diz que suas pautas vêm de correspondentes, agências internacionais de notícias e jornais estrangeiros. Além disso, todos na equipe ficam atentos ao que a TV e os sites de outros países noticiam:

— Basicamente, nosso noticiário vem das agências AP, AFP, Reuters e EFE e dos jornais New York Times, Los Angeles Times, Washington Post, Boston Globe, Guardian, Sunday Times, International Herald Tribune e outros com os quais o Estadão tem parceria.

Segundo Eduardo Salgado, normalmente o que se faz é uma compilação entre as informações que chegam das várias agências e jornais:
— Quando o fato ocorre em um dos lugares onde temos correspondentes — Washington, Buenos Aires, Paris e Genebra —, eles ficam responsáveis por apurar e escrever a matéria. Em situações importantes mas não previstas, quando não é possível enviar ninguém, usamos o trabalho de freelancers. Nas edições de domingo, entram mais matérias feitas a partir de entrevistas dos nossos repórteres.

Eduardo diz que, quando há eventos relevantes onde o jornal não tem correspondentes, enviados especiais vão ao local:
— Não há uma freqüência certa. Agora, por exemplo, tivemos eleições parlamentares na Venezuela e presidenciais na Bolívia com uns 20 dias de diferença e mandamos pessoas nossas nas duas ocasiões. Normalmente, o enviado é um redator especializado na região, que faz a cobertura diária sobre aquele país.

Assim como no Estadão, Marcelo Ambrósio, editor de Internacional do Jornal do Brasil, diz que a pauta de sua editoria baseia-se na ronda do noticiário, capturado tanto pela internet quanto pelas redes a cabo CNN e BBC. O conteúdo é produzido com base nas agências de notícias, além de conter material garimpado em sites:

— A exceção fica por conta da edição dominical, que tem um perfil diferenciado. Nesse caso, todas as pautas são pensadas e produzidas pela equipe, com entrevistas feitas por telefone ou por e-mail em qualquer parte do mundo. Além disso, o domingo sempre traz um artigo sobre política internacional, assinado por especialistas estrangeiros e nacionais.

Os recursos usados para a produção diária de conteúdo, segundo Marcelo, são os mesmos da editoria Geral, embora a equipe não vá para a rua cobrir as pautas. Sobre a rotina, ele diz:
— Na primeira parte do dia, que começa por volta das 14h, a equipe se dedica a apurar as dominicais especiais, enquanto, geralmente, um repórter é escalado para fazer a abertura da edição do dia seguinte. Nesse caso, ele fica por conta do aprofundamento da pauta. Há uma alternância diária nesta função.

Marcelo diz que se dedica a captar conteúdo acadêmico qualificado dentro e fora do Brasil:
— Graças a esse trabalho, temos como colunistas na Internacional o ex-Secretário de Defesa dos EUA Joseph Nye e vários especialistas em Relações Internacionais. Também mantemos uma parceria com o Observatório Político Sul-Americano do Iuperj, que nos provém de excelente conteúdo sobre a América Latina, nosso foco mais estratégico.

Por questões operacionais e de custo, Marcelo diz que o JB não costuma enviar repórteres ao exterior para coberturas especiais. Quanto ao factual, procura fugir da simples tradução do material que chega, pois considera “uma tática de guerrilha para ser possível enfrentar concorrentes que são maiores em equipe e estrutura fora do País”. Com tudo isso, afirma que ainda consegue “fazer gaveta”:
— Sempre existem boas histórias para contar e que não estão necessariamente sob os holofotes. Com isso, é possível guardar certos textos que podem ser turbinados mais adiante com apuração extra.

Intercâmbio

Além dos serviços das agências Reuters, AP e EFE, O Globo, segundo Trajano de Moraes, editor-adjunto de O Mundo, integra o Grupo de Diários América, que reúne diversos jornais da América do Sul que podem fazer intercâmbio de notícias.
— Usamos pouco as reportagens desses outros periódicos, mas elas ficam disponíveis para o grupo. Nossos redatores fazem matérias com o material que chega das agências, acrescentando informações de uma ou outra fonte. Eventualmente, acionamos os correspondentes para conversarem com especialistas do assunto em questão.

O Globo tem correspondentes em Washington, Nova York, Londres, Paris, Berlim, Buenos Aires e Pequim e colaboradores em Bruxelas, Madri e Tel Aviv. Nessa época de fim de ano, Trajano diz que recebe em média 500 notícias — “num dia tranqüilo”. Fora da temporada de festas, o número salta para 700.
— Alguém chega mais cedo para começar a selecionar os assuntos de interesse, cuja escolha varia de acordo com a repercussão do fato. Fazemos uma pré-pauta com as notícias mais quentes, mas ao longo do dia tudo pode mudar, principalmente devido ao fuso horário dos países.

No Estado de Minas, como não há correspondentes, Pablo Pires, subeditor de Exterior, diz que depende do material enviado pelas agências de notícias:
— O material chega ao longo do dia, através de despachos das agências. As fotografias chegam diretamente no computador e as escolhemos.

O editor chega por volta das 13h e começa a selecionar o material. Às 16h30, entra em uma reunião de pauta, na qual são definidas as matérias do dia, o espaço aproximado para elas e sua ordem de importância. O subeditor — “que sempre percorre, em casa, cerca de dez sites dos principais veículos estrangeiros” — chega às 17h e fica responsável pelo fechamento de uma página:
— Isso é feito até 20h30, horário do fechamento da primeira edição. Para a segunda edição, que fecha à meia-noite, o subeditor ainda fica mais meia hora de plantão, para o caso de acontecer algo muito importante. Na segunda edição, acertam-se os possíveis erros, atualiza-se o material publicado se chegarem novos fatos e até trocam-se matérias ou notas inteiras, se necessário. O editor é responsável pela página principal.

Pablo diz que o material em português que chega das agências muitas vezes vem mal escrito, exigindo copidesque. Trata-se o texto mesclando as informações das várias agências e enfocando um determinado aspecto relevante:
— Buscamos dar um tom mais analítico e contextualizado, em vez de apenas o fato puro. Muitas vezes, checamos informações em sites de notícias. Não só pelos fatos, mas para saber qual o peso e o enfoque cada um está dando a eles.

Marcelo Torres, editor de Mundo de O Dia, diz que as pautas do noticiário do jornal chegam pelas agências de notícias, pela Internet e pela TV, em que a equipe está sempre ligada:
— Somos três redatores e uma repórter. Primeiramente, fazemos a busca das principais notícias. Parte-se então para a edição e a hierarquização de matérias e notas.

Há dez meses à frente da editoria, Marcelo diz que o conteúdo varia de acordo com o perfil do leitor das diversas seções do jornal:
— Quando é alguma notícia de artista internacional, por exemplo, sai da seção Vipt-Vupt e vem para o Mundo. Nosso público-alvo é de baixa renda. O julgamento de Michael Jackson mereceu cobertura especial porque o povo quer saber o que acontece com o ídolo.

Já o Zero Hora, que manteve correspondentes em Nova York, Paris e Buenos Aires, agora tem apenas um, em Jerusalém. Segundo Luciano Peres, editor de Mundo, é costume mandar enviados especiais para coberturas de eventos como o furacão Katrina e a guerra do Iraque:
— Também fazemos muita apuração por telefone e e-mail, sempre buscando o lado gaúcho do jornal. Esta é uma característica do Zero Hora, de entrevistar personagens gaúchos que são testemunhas dos fatos ou estão envolvidos nos assuntos de alguma forma.

Luciano diz que o material recebido da AP vem em português e o da EFE, em português e espanhol, mas a equipe ainda busca complementação na informação original:
— Somos uma equipe polivalente, que reporta, redige e edita. Nossa edição de domingo, por exemplo, é toda feita de matérias especiais, como a de um ano da Tsunami, feita a partir de entrevistas com gaúchos que estiveram ou estão na Tailândia.

Marcos Guterman, editor de Mundo da Folha de S. Paulo, diz que até 1989 as notícias chegavam por telegrama. Com a implantação de um sistema próprio do jornal, em 1994, houve uma revolução, com as informações chegando direto à redação quando ainda não havia a internet:
— A base do nosso noticiário vem das agências de notícias — que são mais rápidas—, além dos nossos correspondentes no exterior. A internet é usada para acompanhar o geral ou fazer pesquisas.

Ele explica a rotina:
— Como primeira atividade, olhamos os jornais, fazemos uma reunião de passagem com a ajuda do pauteiro e pensamos na edição do dia seguinte. Além disso, tentamos fazer gaveta com material mais analítico. 

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