1 de julho de 2022


Uma pauta indigesta


03/06/2022


Por Moacyr Oliveira Filho (Moa), diretor de Jornalismo da ABI

Eu virei jornalista meio que por acaso. Era estudante de Economia na USP, quando fui preso pelo DOI-CODI do II Exército, em maio de 1972, por minha militância no movimento estudantil e no PCdoB. Quando fui solto, fiquei sem ambiente na faculdade, que era dominada pela turma do Delfim Neto, os chamados Delfin´s Boys.

Fiquei um tempo enrolando, empurrando com a barriga, até que um dia resolvi abandonar de vez a faculdade.

Numa das intermináveis noitadas no Riviera, reduto da intelectualidade rebelde da Paulicéia Desvairada, que passei a frequentar, o sociólogo Gilberto Vasconcelos, o Giba, disse que eu deveria ser jornalista e me arrumou um emprego na Tribuna de Santo Amaro, onde comecei minha carreira, escrevendo uma coluna de variedades, chamada Baralho a 4, com o pseudônimo de Thelonious, homenagem ao pianista de jazz Thelonious Monk, que fazia sucesso nas mesas dos botecos. Era março de 1975.

Em janeiro de 1976, consegui uma vaga de repórter na Agência Folhas, e aí virei definitivamente um jornalista. Um repórter.

O diretor da Agência Folhas era o Luiz Carlos, chamado nos bastidores do reportariado e dos fotógrafos de Ratinho, que era da turma do editor-chefe da Folha da Tarde, Antônio Aggio Junior, conhecido pelas suas ligações com o DOPS do temido delegado Fleury. A Folha da Tarde era quase um órgão de divulgação extra-oficial da repressão.

Nunca se soube se Ratinho também era ligado ao DOPS, mas sua relação de amizade com Aggio era suficiente para que todos desconfiassem dele, naqueles tempos bicudos da ditadura.

Apesar disso e de saber que eu tinha sido preso político e ligado ao PCdoB, Ratinho foi com a minha cara e gostava de mim. Sempre me dava as melhores pautas e, em abril de 1977, quando eu já estava na Folha de São Paulo, trabalhando na editoria de Esportes, com o José Trajano, me indicou para ser transferido para a sucursal de Brasília, em abril de 1977.

Meu horário na Agência Folhas começava às 14h00. Por isso estranhei quando no dia 16 de dezembro de 1976 recebi, em casa – morávamos numa bela casa na Vila Olímpia, eu, Trajano e os também repórteres da Folha, Beto Stefanelli e Cláudio Faviere, às 8h00 da manhã, um telefonema da redação. Meio sonolento, porque as noites na casa da Rua Arminda eram longas, ouvi a ordem curta e grossa vinda do Ratinho, que estava do outro lado da linha, com uma voz meio irônica: “Tenho uma pauta especial pra você. Se manda para a Rua Pio XI, 767, na Lapa. Estouraram o aparelho do Comitê Central do PCdoB. Essa pauta só pode ser sua”.

Com as pernas bambas, tomei um banho e me mandei para a Rua Pio XI, 767, na Lapa, para cobrir o ataque da repressão ao aparelho do Comitê Central do PCdoB, que ficou conhecido como Chacina da Lapa, onde foram assassinados os dirigentes Pedro Pomar, Angelo Arroyo e João Batista Drumond, e presos vários outros, entre eles, Haroldo Lima e Aldo Arantes, com quem iria trabalhar, anos depois em Brasília, quando foram eleitos deputados federais, e de quem me tornaria grande amigo.

Na foto, estou à direita, de costas, de camisa xadrez e bolsa a tiracolo.

Foi meu batismo de fogo nas pautas indigestas que a vida me proporcionou.

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