Um ícone e suas criações


08/02/2007


Quando se fala nas revistas semanais de informação brasileiras, o primeiro nome a ser lembrado é Mino Carta, nascido em Gênova entre setembro de 1933 e fevereiro de 1934 (a data exata do seu nascimento é um mistério). O jornalista está associado à criação veículos como o Jornal da Tarde e as revistas Quatro Rodas, Veja e IstoÉ. Atualmente diretor de outra de suas criações, a CartaCapital, ele diz que sua trajetória profissional é um caso de sorte:
— Não se trata de mérito. Apenas estava no lugar certo, na hora certa —, comenta, modesto, apesar de só computar um fracasso na carreira, o Jornal da República.
A estréia aconteceu na cobertura da Copa do Mundo de 50, no Brasil, pelo jornal Il Messaggero, de Roma. Mino costuma dizer que só continuou na profissão porque pode exercer a profissão no país em que percebeu que ser jornalista tinha alguma utilidade — no caso, “para tentar impedir que a história fosse escrita pelos vencedores”:
— Normalmente são eles que a escrevem, é claro. Mas, como jornalista, a gente tem a chance de deixar para o futuro alguma anotação, alguma coisa que poderá, eventualmente, sobreviver àquela versão — declarou em entrevista ao site Comunità Italiana.

Com esse espírito crítico sobre o papel da imprensa e do jornalista, Mino aceitou o convite da Abril para criar a Veja:
— Eles acreditavam que eu poderia dirigir uma revista como a Time no País. Honestamente, como corria o ano de 1968 — em plena ditadura militar —, não achava que aquele era o melhor momento. Fechei então um acordo de que eles (os sócios da editora) não participariam nem das reuniões de pauta, seriam simples leitores. Depois da revista pronta, poderiam dar palpites à vontade; nunca antes.

Mino Carta acha que a estratégia de lançamento foi equivocada, porque toda a publicidade passava uma idéia de que a Veja seria uma concorrente da Manchete, uma revista ilustrada:
— A primeira edição saiu como uma obra-prima, mas tinha falhas. Começou com 700 mil exemplares, depois caiu para 500 mil, 300 mil, 150 mil, 80 mil… E foi caindo. Eles me diziam que estava em 40 mil, mas na verdade o número era de 20 mil exemplares.

Primeira equipe da Veja, em abril de 1968

Censura

Um dos piores problemas, como Mino suspeitava, era a ditadura. A revista teve várias edições recolhidas:
— Aí veio o AI-5 e passamos a ser mais ferozmente censurados. Os censores só deixaram a revista com a minha saída, um fato que muito me honra. É algo que conto aos meus netos com prazer.

Hoje ele não gosta do padrão de Veja e Istoé, que ajudou a criar e afirma:
— O mercado das revistas semanais de informação está horrendo. O Brasil vive um momento terrível, de má qualidade na imprensa, que serve ao patrão, aos senhores que mandam no País. A CartaCapital é uma voz isolada.

CartaCapital circulou pela primeira vez em agosto de 1994. Foi mensal até março de 1996 e quinzenal até cinco anos atrás. Inicialmente, seria uma revista de negócios, mas Mino só aceitou o convite para fazê-la porque teria autonomia para criar um veículo sobre poder, política e cultura, que, em sua opinião, não tem concorrentes:
— As outras publicações têm outros intentos. Nossa busca é por uma fórmula nova, seguindo o caminho da análise, na tentativa de diluir os eventos por meio de temas respeitáveis. Quem escreve em CartaCapital tem conhecimento e autoridade para isso. Outro fator é a busca de informação exclusiva.

Quando lhe perguntam se CartaCapital é uma revista de esquerda, Mino responde que ela tem como proposta a crítica consciente. E cita Norberto Bobbio, para quem a luta isolada não funciona, pois, para quem quer a igualdade e a inclusão social, a liberdade não é o bastante e um elemento sozinho corre o risco de virar um instrumento do poder:
— Não vamos questionar a natureza. Determinar quem deve nascer e como. Igualdade de oportunidades, o País não atingiu. A CartaCapital se bate pela igualdade e prima pela verdade factual. Fazemos o exercício do espírito crítico, com a fiscalização do poder.

A redação da revista é enxuta — cerca de 15 jornalistas — e o Diretor se diz satisfeito com o resultado apresentado pela equipe:
— Isso valeu também na IstoÉ. Somos poucos e conseguimos pagar direito, com justiça e eqüidade. Tenho a convicção de que é uma vantagem muito grande ter uma equipe pequena e mais afinada. Aqui é costume fazer uma cópia grotesca do modelo norte-americano, com 40 pessoas numa redação. Isso é ridículo, porque são modelos aplicados em países ricos. Infelizmente esse é o Brasil que a gente vê por aí.

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