30 de setembro de 2022


Teatro Opinião é tema do Claquete


28/07/2021


Noitada de samba no  Claquete Musical

Claquete Musical discute, hoje, às 19h30, a Noitada de samba, espetáculo das segundas-feiras do Teatro Opinião, em Copacabana, em que todos os considerados “subversivos” ali se encontravam, na década de 1970. Uma noite, os milicos invadiram o teatro para uma varredura, mas, na verdade, era um coronel apaixonado que queria ver sua musa: a cantora Nora Nei. Os produtores passaram todo o tempo com medo de que os frequentadores descobrissem que havia militares no recinto e jogassem latas neles. Esse era o clima.

O Brasil vivia a ditadura militar e, no Rio de Janeiro, Jorge Coutinho e Leonides Bayer iniciavam no Teatro Opinião o espetáculo A Noitada de Samba e traziam, pela primeira vez com regularidade para a zona sul, compositores e intérpretes dos morros e da periferia. Foram 617 espetáculos em 13 anos, de 1971 a 1984, transformando o endereço da rua Siqueira Campos, 143, Copacabana,  em foco de resistência política e cultural. Para reviver essas lembranças estão reunidos no Claquete , sob o comando do jornalista Paulo Figueiredo, a jornalista Cély Leal, diretora do filme A Noitada de Samba, os compositores Noca da Portela e Aluisio Machado, além do radialista Adelzon Alves. O trailer do filme será exibido no programa. Assista pelo canal da ABI do YouTube.

Teatro Opinião

A história da Noitada de Samba, um dos movimentos musicais e culturais dos mais importantes do país, virou também filme, Noitada de Samba Foco de Resistência com direção e roteiro da jornalista e cineasta baiana Cély Leal. O filme conta esta história através de depoimentos de Alcione, Beth Carvalho, Dona Yvone Lara, Eliana Pittman, Xangô da Mangueira, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Cartola, Ismael Silva, Gilberto Braga, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Arlindo Cruz, Martinho da Vila, Maurício Sherman, Ademilde Fonseca, Carlos Lyra, Gilberto Braga, Adelzon Alves, Diana Aragão, Rubem Confete, Lygia Santos e o jogador de futebol Afonsinho, Noca da Portela e outros.

Foram 13 anos, de 1971 a 1984, do espetáculo que transformou o teatro  em foco de resistência política e cultural, ganhando o filme que participou de diversos festivais pelo mundo. Ganhou ainda as páginas de um livro homônimo, com texto de Márcia Guimarães e fotos de Manoel Paixão Pires, contando os bastidores que marcou a história da MPB e lançou nomes como Bete Carvalho, D. Yvone Lara, Leci Brandão, Monarco e Clara Nunes. O projeto contribuiu para a restauração da memória histórica da MPB.

O evento, pela primeira vez, trazia à Zona Sul carioca com regularidade, compositores e intérpretes oriundos dos morros e bairros populares a exemplo de Cartola, Ismael Silva, Antônio Candeia e tantos outros, onde a grande vedete do show era o samba puro de raiz e o melhor da MPB. Num espaço livre e democrático, passou o melhor da música em geral: Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Batatinha.

O Teatro Opinião assim ficou conhecido pelo show-manifesto Opinião que estreou em 11 de dezembro de 1964, alguns meses depois do golpe militar, no teatro do Shopping Center Copacabana, sede do Teatro de Arena no Rio de Janeiro. Opinião tornou-se uma referência na chamada “música de protesto” e é considerado um dos mais importantes da história da música popular brasileira. Foi um espetáculo musical, dirigido por Augusto Boal, produzido pelo Teatro de Arena e por integrantes do Centro Popular de Cultura da UNE – instituição que, a esta altura, havia sido colocada na ilegalidade pelo regime militar recentemente instaurado no Brasil.

O elenco era formado por Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia), João do Vale e Zé Kéti. Os atores-cantores intercalavam canções a narrações referentes à problemática social do país. O texto era assinado por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes. O registro do show deu origem ao álbum homônimo, lançado em 1965. No espetáculo eram interpretadas 24 distintas canções: Peba na Pimenta, Pisa na Fulô, Samba, Samba, Samba, Partido alto, Borandá, Desafio, Missa Agrária, Carcará, O Favelado, Nêga Dina, Incelença, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Guantanamera, Canção do Homem só, Sina de Caboclo, Opinião, Malmequer, Marcha de Rio 40 Graus, Malvadeza Durão, Esse Mundo é meu, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, Tiradentes e Cicatriz.

Diretora e convidados

Debatedores

A diretora do filme Noitada de samba é uma jornalista baiana, radicada há muitos anos no Rio de Janeiro. Quando ainda morava em sua Salvador natal, Cély Leal ouviu de sambistas baianos como Ederaldo Gentil, Batatinha e Riachão, além de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, em shows na cidade, comentários elogiosos sobre a badalada Noitada de Samba. Em 1978, quando o evento já tinha sete anos de vida, ela veio para o Rio e realizou o sonho de conhecer a noitada, ficando amiga dos produtores, Jorge Coutinho e Leonides Bayer, além de tornar-se bilheteira do evento. E a baiana decidiu estrear como diretora no documentário Noitada de samba – Foco de resistência.

Osvaldo Alves Pereira, 86 anos, mineiro de Leopoldina e carioca por afinidade, é conhecido e aplaudido nacionalmente como Noca da Portela. Antes e mesmo depois de se tornar um cantor e compositor famoso, foi feirante, militou no extinto Partido Comunista Brasileiro, apresentou programa de rádio e ocupou o cargo de secretário de Cultura do Rio de Janeiro. É detentor dos títulos de comendador da ordem do Rio Branco e do Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Mas a faceta que mais o distingue é a de sambista. Ligado à Portela desde 1966, com passagem anterior pela Paraíso de Tuiuti, Noca é autor de mais de 300 músicas, algumas feitas no âmbito de sua escola e para os blocos Barbas e Simpatia é Quase Amor. Outras foram gravadas por nomes consagrados da MPB como Paulinho da Viola, Seu Jorge, Beth Carvalho, Maria Bethânia. Entre os seus sucessos estão Caciqueando, É preciso muito amor, Mil reis, Portela Querida e Virada. Essa última se transformou em um dos hinos do movimento Diretas Já!

Alcides Aluisio Machado, 82 anos, é cantor e compositor de música popular brasileira, nascido em Campos (RJ) e membro da Ala dos Compositores do Império Serrano, já tendo vencido 14 vezes a disputa de samba-enredo. É autor de clássicos do Império como Bum Bum Paticumbum Prugurundum, Eu quero, Verás que um filho teu não foge à luta e O Império do Divino.

O jornalista, radialista e produtor paranaense Adelzon Alves, 81 anos, nesse governo, teve seu programa da EBC retirado do ar, provocando revolta entre os artistas. Ele fez história ao lançar e produzir personalidades como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Candeia, dentre tantos outros artistas imortalizados neste gênero musical. Em 1966, lançou seu programa Amigo da madrugada, na Rádio Globo, onde iniciou um movimento de valorização do compositor do morro e recebeu em seu estúdio Cartola, Nelson Cavaquinho, Silas de Oliveira, Geraldo Babão, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, dentre tantos utros artistas consagrados. Ele se dedicou ao samba, mas conhece as músicas regionais do Brasil e gravou programas com Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Ele nos conta que Donga, autor do primeiro samba, dizia que a bateria da escola de samba é nossa orquestra sinfônica. O Brasil é o único país que recebeu os três tambores e fez trezentos, e ela tem todos os timbres: desde o surdão aos tamborins.

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