Mulheres em campo


30/03/2006


Rodrigo Caixeta 
31/03/2006

Não é de hoje que se percebe a presença cada vez maior da mulher no esporte. E elas não estão só praticando: vêm demonstrando talento e segurança nas coberturas jornalísticas em todas as mídias. Entendem de basquete, rali, Fórmula-1, futebol, e, em geral, torcem também.

Mariana Becker, da TV Globo

Mariana Becker, repórter e apresentadora da TV Globo, começou carreira na Geral, mas, no dia-a-dia, “achava muito mais graça na leveza, na luta, na emoção do esporte”. Diz que enveredou na editoria por prazer e cobriu todas as modalidades que lhe foram pautadas, além de ter feito “muitas viagens longas e contemplativas, que pediam papel e caneta”:
— Daí veio o hábito de escrever sobre o que vejo e gente que conheço. Mas, para ser uma candidata à editoria, é preciso ler muito, ser curiosa, ter desenvoltura, interesse e predisposição para trabalhar pra valer e se deixar absorver pelo jornalismo. 

Nas horas vagas, Mariana surfa — “praticar esporte mantém a sanidade mental”, diz. No trabalho, gosta de cobrir esportes radicais, “porque têm muito mais imprevistos e costumam ser praticados em ambientes naturais”. Quando a pauta envolve viagens, aproveita a oportunidade para estudar a cultura e a geografia, desenhar o roteiro da história, escolher a trilha sonora e “tudo mais que a produção de um quase minidocumentário envolve”:
— Por outro lado, a adrenalina diária de se fazer uma matéria com pouco tempo para apurar e concluí-la tem um gosto especial. Provar a própria agilidade com o tempo limitado é um exercício gostoso.

             Glenda Kozlowski

Glenda Kozlowski, apresentadora do “Esporte espetacular — Edição São Paulo”, entrou por acaso no jornalismo esportivo. Queria fazer teatro, mas a mãe não gostava da idéia. Em 1992, foi convidada pelo SporTV para apresentar o programa “360º” e acabou se apaixonando pela profissão. Atleta profissional de body-boarding — conquistou quatro títulos mundiais, cinco brasileiros, dois norte-americanos e três australianos —, hoje Glenda pratica vários esportes, como natação, tênis e vôlei, e anda de skate com o filho:
— Adoro me exercitar. Esporte é minha vida e meu trabalho. Consegui me realizar.

Sobre a formação dos futuros profissionais, analisa:
— Ainda que estejam mais bem preparadas atualmente, as faculdades nos apresentam apenas à parte teórica. Os alunos se formam com uma noção do que é edição, produção, reportagem, apresentação. Mas o dia-a-dia é o grande professor, a prática é o grande livro.

Imaginação

Quando era estagiária, Marluci Martins, repórter do Dia, passou por todas as editorias do jornal, mas o interesse pelos eventos esportivos e o domínio do assunto fizeram com que seu desempenho fosse melhor “onde sempre quis estar”. Para ela, o jornalista de Esportes difere dos demais pela criatividade:
— Um setorista do Flamengo vai diariamente ao treino do time e, dependendo do jornal para o qual trabalha, tem que voltar com uma, duas, três, quatro, cinco matérias. É diferente do repórter que vai cobrir um tiroteio num dia e um atropelamento no outro. Ele tem que achar alguma coisa diferente naquela rotina, num treinamento que acontece todos os dias quase que da mesma forma. Haja imaginação! 

Marluci Martins e Romário

Marluci lembra ainda que a proximidade com a fonte não pode interferir no resultado do produto:
— A credibilidade é tudo na vida de um jornalista. Por exemplo: o jogador fulano de tal se tornou meu amigo e me deu um furo jornalístico, mas ele tem que entender que, se jogar mal, vai levar nota zero. É preciso separar as coisas. Recentemente, liguei pra um dirigente de clube que conheço há séculos, pois queria fazer uma entrevista com um jogador acusado de tentativa de estupro, entre outros rolos. O dirigente disse que conseguiria a entrevista para mim, com exclusividade, se eu prometesse aliviar o jogador. Agradeci e disse que não queria mais fazer a entrevista.

                   Denise Mirás, do JT

Denise Mirás, subeditora de Esportes do Jornal da Tarde, está há 26 anos na editoria em que pensou que ficaria apenas 15 dias. Para ela, qualquer área da imprensa é igual:
— Jornalista é jornalista, tem que perguntar, se informar, entender e transmitir. Não é uma brincadeira, como alguns entendem, de ficar fazendo notinhas de atletas. Não estamos aqui para deseducar ou desinformar, mas para dar chance aos leitores de crescer.

A forma como é feita a cobertura do futebol atualmente, em sua opinião, é muito chata:
— Nem adianta imaginar que se possa discutir isso. O argumento de que, com mais esportes, mais gente leria a editoria e de que futebol é que vende jornal, para mim, não é verdade. A boa história, bem contada, é lida, sim. E em qualquer editoria. 

Heleni,  do Estadão

Sem horário

Heleni Felippe, repórter do Estadão, ingressou no jornalismo esportivo quando foi trabalhar na assessoria de imprensa do Pão de Açúcar Esporte Clube — que tinha equipes de tênis, atletismo e vôlei e um piloto de Fórmula Ford, Pedro Paulo Diniz. Ela diz que gostar de esporte é fundamental para trabalhar na editoria:
— Cubro todos os esportes olímpicos: atletismo, basquete, natação, vôlei, vela, judô, hipismo… Já fiz quatro edições dos Jogos Pan-americanos e três Olimpíadas. Adoro.

O problema, segundo Heleni, é que, como o esporte faz parte do cotidiano, “todo mundo comenta e acha que entende do assunto”.
— Qualquer jornalista, de qualquer editoria, deve ter curiosidade intelectual, ler muito, falar línguas e gostar de um trabalho sem horários ou dias fixos. Mas cobrir esportes também pressupõe que o repórter seja capaz de identificar um Ministro de Estado ou um astro de rock numa arquibancada, por exemplo.

         Amanda, do Estadão

Há um ano repórter de Esportes do Estadão, Amanda Romanelli diz que trabalhar nessa área era um sonho de infância. Às novatas, ela adverte que, na redação de um diário, não há tempo para aprender o ofício. Portanto, quem costuma acompanhar competições leva vantagem, pois já conhece, entre outras coisas, o jargão, as regras e formas de disputa de campeonatos:
— Da faculdade, é necessária a bagagem básica para qualquer editoria: bom texto e disposição de sempre propor boas pautas.

 Deborah Lannes: JSnbsp;

Deborah Lannes, editora-geral do Jornal dos Sports, foi triatleta e chegou a cursar até o 5º período de Educação Física:
— Foi quando descobri que gostaria de me relacionar de outra forma com o esporte. Como também sempre gostei de escrever, fiz Jornalismo. Mas interesse, bom senso, capacidade de discernimento, conhecimento da língua portuguesa e bom texto não se aprendem na faculdade.

Embora não se considere especialista num esporte específico, nem tenha predileção por qualquer esporte, Deborah diz que há um envolvimento mais forte com o futebol, que ocupa a maior parte do noticiário. Sobre a relação amistosa com os atletas, destaca que confiança e respeito são indispensáveis para criar fontes e, conseqüentemente, conseguir furos:
— Mas a amizade, em alguns casos, pode até atrapalhar, porque você pode se envolver emocionalmente com o assunto, o que não é apropriado. 

        Glenda Carqueijo, do JT

Discernimento

Glenda Carqueijo, repórter do Jornal da Tarde, credita aos pais, professores de Educação Física, o interesse pelo esporte. Sempre soube que queria trabalhar na área, mas diz que o caminho foi longo:
— Só há dois anos comecei na editoria, cobrindo “outros esportes”, ou seja, tudo que não é futebol. Não somos obrigados a entender todas as regras, mas quem souber mais terá mais facilidade para escrever e trabalhar. Os repórteres muitas vezes se identificam com um ou mais esportes, mas há aqueles que você tem que dar a cara para bater e aprender na marra, como beisebol.

  Sanny Bertoldo

Sanny Bertoldo, única mulher da editoria no Globo, faz o que sempre quis, mas acredita que, mais do que a paixão pela atividade, é preciso ter disponibilidade:
— Os plantões são pesados e a carga horária varia de acordo com o horário das competições. Também não faz sentido dizer que os repórteres de esporte são menos preparados que os de outras editorias, para as quais muitas vezes fazemos matérias. Para ser jornalista, é necessário ter bom texto e boa apuração e, principalmente, saber discernir o que é notícia.

  Carla: Rádio Globo de SP

Carla Matera, repórter da Rádio Globo de São Paulo, diz foi o jornalismo esportivo que entrou em sua vida. Era locutora-noticiarista e repórter de outra emissora quando o patrão, no Dia Internacional da Mulher de 1999, a convocou para participar da jornada esportiva no Maracanã, que incluía um torneio de futebol feminino:
— Na hora, relutei e argumentei que não sabia nada de futebol. Meu chefe, no entanto, não se comoveu, respondendo que eu também não precisava ser médica para entrevistar um cirurgião. Fui, cheia de receio, mas ele gostou do meu “clima” na transmissão. Então, passei a cobrir o campeonato estadual de futebol feminino e, depois, fui incorporada à equipe de Esporte.

Embora afirme estar bem longe de ser atleta, Carla orgulha-se de ter feito um gol no Maracanã, numa promoção de intervalo de jogo. No trabalho, porém, é preciso disposição para suportar a maratona:
— A carga horária é pesada. Viaja-se muito e as folgas, normalmente, são de apenas um dia e durante a semana.

  Andréa, da Rádio Globo-RJ

Também da Rádio Globo, mas no Rio, Andréa Maciel começou carreira em Teresópolis, onde apresentava um programa no domingo pela manhã, com comentários, resultados da rodada de sábado e os jogos do dia:
— Na mesma época, o time da cidade, Barra Futebol Clube, disputava a seletiva no Campeonato Carioca e eu gravava matérias, fazia especiais e fui me apaixonando cada vez mais por aquele mundo. A rádio do interior é escola para muita gente e na capital, quando me tornei setorista do Botafogo, entrei fundo no universo do futebol, em que me sinto à vontade.

Quando Andréa começou, não era exigida formação acadêmica em Jornalismo:
— Na minha opinião, o fundamental é entender, é gostar do assunto, ter conhecimento de causa e, claro, talento. A faculdade pode ensinar muitas técnicas, mas o talento é seu. O José Carlos Araújo era professor de Geografia e vai dizer que algum jornalista aprendeu a ser bom como ele na faculdade? Os pré-requisitos são conhecimento, rapidez de raciocínio, boa voz, boa dicção, humildade e sabedoria. 

 Atletas nas coberturas

    

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