Moda desfila entre o glamour e o preconceito


08/02/2006


José Reinaldo Marques
18/1/2005

O Rio de Janeiro sediou semana passada um dos maiores eventos de moda do país. Seiscentos jornalistas foram credenciados para a cobertura do Fashion Rio. Quem acompanhou pelos jornais não tem idéia de como se desenvolve o trabalho ou a formação do jornalista de moda, nem os preconceitos com que muitas vezes são vistos, ou quanto ganham em relação aos outros coleguinhas. Nesta reportagem, o ABI Online entrevistou editores, repórteres, fotógrafos, produtores de programas de TV para contar um pouco dos bastidores do jornalismo de moda.

Raramente um evento tem a oportunidade de reunir um contingente tão grande de jornalistas em busca do mesmo tipo de notícia, correndo atrás das mesmas fontes e empenhados em levar aos seus públicos um conjunto de boas matérias. Ao promover essa façanha, a moda brasileira mostrou que está num de seus melhores momentos de criatividade e prestígio e ainda por cima virou um bom mercado de trabalho para jornalistas.

Os coleguinhas que atuam na cobertura do mundo fashion reclamam do preconceito dos que acham que moda é assunto de gente esnobe e só rende matérias sobre banalidades – muitos profissionais, inclusive, já passaram pelo desconforto de serem olhados com desconfiança dentro das redações, mas na verdade os profissionais das revistas e cadernos de assuntos femininos, para realizar suas matérias, cumprem as mesmas regras básicas que vale para qualquer área do jornalismo. É claro que falar de tailleurs, looks e do perfil de modelos famosas como Gisele Bündchen e Naomi Campbel não leva às tensões do dia-a-dia pesado em que se transformou a cobertura de Cidade, por exemplo, mas também exige que o profissional tenha uma boa formação, freqüente cursos de extensão e de pós-graduação, saiba cultivar boas fontes, esteja sempre antenado com os assuntos diretamente ligados à sua área de atuação, leia e pesquise sobre diversos temas e seja capaz de produzir bons textos como em qualquer outra editoria.

“Para comentar o mundo da moda é preciso conhecer mais que saia e blusa”, diz Patrícia Rubano, diretora do GNT Fashion, considerado o melhor programa de TV no gênero, que tem como âncora a jornalista Lílian Pacce.
“A moda de maneira geral está muito mais valorizada, com destaque não só em programas de TV e nas capas de jornais. O jornalismo de moda ganhou mais respeito, os programas em televisão são mais comportamentais. O GNT Fashion fala do funk, do hip hop e de fatos históricos. Fazemos um programa com assuntos de maior interesse do que os looks mostrados nas passarelas”, acrescenta Patrícia Rubano. Para a diretora do GNT Fashion, o jornalismo de moda é um mercado que está crescendo bastante. Em São Paulo, já é possível encontrar bons cursos para os jornalistas e produtores interessados em enriquecer seus conhecimentos e melhorar o currículo.

“Ainda há muito preconceito com relação à moda, que está associada a futilidades e coisa de dondoca que não tem o que fazer. Mas as cabeças mais modernas perceberam que nem só a política é importante. Não é à toa que as universidades privadas, para sobreviver, perceberam o nicho de mercado que é a moda e passaram a investir nesses cursos”, diz a jornalista Simone Serpa, editora de moda e artesanato da Revista Manequim, a primeira revista brasileira de moda lançada em São Paulo, em 1959, pela editora Abril.

Para os jornalistas que cobrem o segmento de moda é bastante clara a comparação que se costuma fazer entre os outros setores da imprensa e a imprensa feminina: invariavelmente valoriza-se a primeira.
“Considerando que a imprensa feminina tem penetração no mundo inteiro, vale mais pensar suas funções do que caracterizá-la como jornalística ou não”, opina a jornalista Dulcília Schroeder Buitoni, autora de um livro sobre imprensa feminina.

“Nessa linha de raciocínio, interessa afirmar que jornalismo não é uma categoria para julgamento. A imprensa feminina é passível de críticos, porém os critérios para análise não devem partir da oposição jornalismo não-jornalismo”, avalia Dulcília. Segundo a pesquisadora, o preconceito contra os coleguinhas que produzem matérias para o segmento feminino surgiu na
década de 1970, durante o regime militar, período no qual o jornalismo, apesar da censura, nunca deixou de ser crítico. O jornalismo de moda, então, era visto como alienado e fútil.

“Eu me formei na UFF, mas aprendi a trabalhar o jornalismo de moda na prática, e ao entrar nele percebi a riqueza dos profissionais da área, vi que eram pessoas altamente preparadas, mas que na visão dos colegas nos anos 70, quem não estivesse ligado em economia e política era um alienado”, conta a jornalista e professora de moda Ruth Joffily.

Esse debate fica mais apimentado quando a professora Ivana Bentes, coordenadora-adjunta da Escola de Comunicação da UFRJ, diz que o jornalismo de moda ficou muito relacionado à divulgação, à coluna social, que acabou contaminando outras editorias com o chamado jornalismo de notinhas.

“O jornalismo de moda não é crítico e deixa de explorar o mercado em expansão de mulheres consumidoras”, diz Ivana, sugerindo que os repórteres que cobrem moda e assuntos femininos passem a explorar mais, nas suas matérias, as questões mercadológicas, a economia da moda e a movimentação financeira da indústria ligada ao setor.
“No caso das escolas de comunicação das universidades públicas, estas devem também investir em estudos de comportamento e mercado, pois há muito interesse da parte dos alunos”, conclui.

Para Constanza Pascolato, uma das mais respeitadas profissionais do segmento fashion, o jornalismo de moda não precisa ser fútil e “depende de quem faz”. Diz isso com a autoridade de quem está no mercado há mais de 30 anos, como empresária e consultora de moda, depois de atuar como jornalista em algumas das mais importantes revistas, como a Vogue, onde colabora há cerca de 14 anos. Começou a fazer jornalismo de moda em São Paulo, como editora da Revista Cláudia, nos anos 70, “uma época em que a dona-de-casa estava saindo da casa grande e da senzala para uma era mais revolucionária”, diz, fazendo questão de relatar o toque que recebeu de Victor Civita, um dos donos da editora Abril:
“Você está fazendo uma revista nacional, então levanta o bumbum e vai conhecer o Brasil”, lembra Constanza, afirmando que a indicação lhe deu uma visão mais realista da diversidade de “modos e modas” incorporados pela população brasileira. Em sua passagem pela Folha de S. Paulo, nos anos 80, quando esteve na redação da Folha Ilustrada, percebeu muitos olhares de desconfiança: “Aí começamos a trabalhar para ganhar o respeito da redação, muito mais do que o do público”. O resultado foi bastante positivo, analisa Constanza, que diz ter tido muito prazer quando viu seus textos sendo utilizados em aulas dos cursos de jornalismo e de moda. Marcio Madeira/Divulgação

Preconceitos à parte, o que se viu durante o Fashion Rio foi muito trabalho por parte dos jornalistas, que passaram uma semana “semi-internos” no Museu de Arte Moderna. A equipe do GNT Fashion (diretor, produtor, repórter, editor, cinegrafista e operador de vt) comandada pelas jornalistas Lilian Pacce e Patrícia Rubano, manteve no MAM uma jornada de trabalho que durava cerca de 10 horas por dia. Com esse expediente, durante uma semana, produziu várias matérias sobre os desfiles, mostrou o trabalho dos estilistas e apresentou diversas entrevistas com modelos – a entrevista com Gisele Bündchen foi a mais concorrida -, e outras personalidades. As matérias viraram um programa especial que foi ao ar no sábado às 22h, e foi reprisado no domingo, às 20h. Segundo a diretora Patrícia Rubano, cujo pensamento já está voltado para o São Paulo Fashion Week, ainda há bastante material para ser editado e usado na produção de vários outros programas.

Segundo a assessoria de imprensa do Fashion Rio, todas as equipes de jornalismo de rádio e televisão fizeram a cobertura da feira como factual. A exceção foi a Rádio Eldorado – rádio oficial do evento – que manteve um programa com a atriz e comentarista de moda Beth Lago. A TV Globo cobriu a feira produzindo matérias para todos os seus telejornais. O evento rendeu dois VTs para o Jornal Nacional, cinco para o Jornal Hoje, quatro para o Jornal da Globo, um VT e uma entrada ao vivo para o Bom Dia Rio, um ao vivo e três VTs para o RJTV2 e várias matérias para o RJTV1.
O coordenador de produção da TV Globo, Juarez Pessoa, diz que a Globo quando faz cobertura de eventos de moda sempre escala os produtores que têm mais intimidade com assunto. Um desses produtores é Luiz Antônio Costa, que está na emissora há nove anos. Para o produtor há três regras básicas para se fazer uma boa cobertura num evento de moda.

A número um é conhecer a logística para conferir o que vai render de imagem. Em segundo lugar vem o contato com os organizadores, pois como o Fashion Rio não é novidade é necessário saber com antecedência quais serão os atrativos que serão oferecidos; e em terceiro lugar é explorar bem nas matérias somente o que é novo. Para exemplificar o quanto vale ter boas fontes e saber negociar com elas, Luiz Antônio Costa conta que por esse caminho conseguiu uma matéria exclusiva com Gisele Bündchen – a notícia mais disputada do Fashion Rio. Por meio de sua assessoria, a modelo tinha matérias exclusivas agendadas com o Jornal O Globo, a Folha de S. Paulo e o Fantástico, mas Luiz conseguiu a sua e gravou na quinta-feira uma matéria que foi ao ar no Jornal Nacional. “Um bom trabalho jornalístico exige que a gente marque presença junto às nossas fontes, levantando as pautas para não depender dos releases das assessorias de imprensa”, diz o produtor da TV Globo.

Outro trabalho de grande destaque num evento de moda é o dos repórteres-fotográficos. Segundo José Roberto Serra, editor-assistente de fotografia de O Globo, normalmente para o Fashion Rio são destacados repórteres-fotográficos que já estão identificados com o assunto, ou seja, “que têm aptidão para este determinado tipo de matéria”. Serra afirma que no caso da fotografia não é imprescindível que o fotógrafo que vá cobrir um evento de moda seja um especialista no assunto. Até porque calendários como o Fashion Rio são pautados com bastante antecedência e por isso é possível preparar bem a equipe. O repórter-fotográfico Fábio Rossi, do Globo, com a experiência de ter participado de todas as edições do Fashion Rio, conta que o mais difícil é fazer passarela:
“Cada desfile de moda acontece num ambiente que tem luz e posicionamento de fotógrafos diferentes. Muitas vezes, antes do desfile, o salão está às escuras e na hora que acende a luz é que o fotógrafo terá que ser rápido para não perder nenhum detalhe. Cobrir desfiles é como no futebol, o olho na máquina o tempo todo”, ensina.
Para fotografar o Fashion Rio, o Globo destacou uma equipe de seis fotógrafos, alcançando a média de 130 fotos clicadas por desfiles. Num total de 25 desfiles, somente os fotógrafos do Globo que cobriram passarela fizeram 3.250 cliques.
Divulgação

“Para se tornar um bom jornalista de moda é preciso conhecer as principais publicações de moda no mundo e no Brasil, ler livros e ver filmes relacionados ao tema”, diz Adriana Bechara, coordenadora de moda e repórter da Revista Domingo e do Jornal do Brasil. Ela acha que por causa da escassez de cursos os jornalistas de moda devem recorrer a toda informação disponível. Para Adriana, só há uma forma de o jornalista conhecer o mercado, que é acompanhar tudo o que sai publicado e assistir aos programas com freqüência.

Simone Serpa, editora de moda da Revista Manequim, também dá algumas dicas para o profissional do jornalismo que deseja se especializar. Diz ela que antes de mais nada é preciso passar por várias editorias e que o repórter de moda tem que ter uma visão estética aguçada. Numa revista, por exemplo, o texto é fundamental, pois a notícia tem que parecer atual durante o mês inteiro, ou seja, por toda uma temporada de moda. Ela afirma que no circuito das revistas femininas “o jornalismo se abriu muito, deixando de ser ideológico para ser mais produto e nesse sentido adquiriu mais valor. Melhorou o mercado, que passou a ser assunto de interesse mais amplo”. Quanto a salários, Simone diz que um repórter numa editoria de moda ganha em média R$ 3 mil por mês. Mas faz questão de ressaltar que no jornalismo de moda não há espaço para estrelismo:
“Neste ramo, quando alguém vira estrela, monta o seu próprio negócio e sai da redação”, diz.

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