2 de julho de 2022


Guardião dos manguezais


05/06/2022


Bete Nogueira
(Publicado no jornal O Dia em 08/05/2022)

A natureza sempre encontra uma saída. Nem que seja tocando o coração das pessoas. O biólogo Mário Moscatelli atua no Rio de Janeiro há mais de 30 anos contra ações que impactam o meio ambiente. Tá errado? A Justiça achou que sim. Ao ver no noticiário que um delegado, em um canal de TV aberta, havia denunciado um grande shopping da Barra que estava despejando esgoto sem tratamento na Lagoa da Tijuca, ele se sentiu no dever de cobrar providências e que o shopping fosse responsabilizado pela poluição. Mas três meses depois, o shopping foi inocentado e, para completar, processou Moscatelli por calúnia e difamação. O centro comercial ganhou o processo e em breve receberá do biólogo R$ 40 mil, acrescidos de juros – do período entre fevereiro de 2018 e março de 2022 -, além de correção monetária.

O resultado dessa celeuma saiu há pouco tempo. Moscatelli aguarda a data para depositar a tal quantia. E onde a natureza entra com sua saída incrível? Por sugestão de amigos, o ambientalista criou um financiamento coletivo virtual e, em tempo recorde, conseguiu o montante que veio de conhecidos, amigos, desconhecidos, ex-alunos e todo mundo que cresceu vendo a luta do biólogo pelo meio ambiente fluminense. O shopping vai levar a grana, mas a grande vitória é de Moscatelli, que mostrou de que lado os cariocas estão na briga entre natureza e grandes corporações.

“Respeito a decisão da justiça e quero finalizar essa triste história. Na ocasião, eu me senti atingido diretamente porque trabalho nas lagoas desde 1992 e eu presenciei o estrago. Depois de três meses, a polícia ambiental mudou de opinião e acabei sobrando como boi de piranha. Tenho certeza de que não fiz nada de errado. O manguezal da Lagoa da Tijuca foi degradado e ninguém fez nada. Desconheço se houve qualquer ação contra quem foi responsabilizado de fato pela degradação. Processou quem reclamou, mas o manguezal ficou por conta. Nem me espanta. Vivemos uma cultura de abuso e de extermínio”, comenta.

O biólogo conta que ficou surpreso com a rapidez com que conseguiu levantar o dinheiro pela ‘vaquinha virtual’: uma semana. Cada um colaborando como podia: havia contribuições a partir de R$ 5 reais, chegando a depósitos R$ 5 mil. “Fiquei extremante emocionado. Em tantos anos de trabalho em defesa do ambiente dessa área litorânea, este é o reconhecimento”.

E explica: “Atrás de todo processo de degradação, existem grupos econômicos e políticos se beneficiando. É um processo histórico e cultural que envolve interesses econômicos públicos e privados, e ai de quem reclamar”, diz Mário, que já foi até ameaçado de morte por seu trabalho, quando estava à frente do departamento de controle ambiental em um município fluminense. Ele conta que precisou fugir do país quando descobriu que já havia até “gente contratada para me matar”.

Passione

Passado o susto, o ambientalista voltou a se expressar sempre que viu problemas de degradação na natureza. E continuou incomodando – às vezes mais, outras menos. Baseado em amplo conhecimento técnico, temperado por um jeito apaixonado de se expressar (“sou canceriano e filho de italiano”), Mário Moscatelli é incansável na hora de apontar os casos de ameaça aos biomas e como revertê-los. Se por um lado alguns grupos econômicos sentem que têm um espinho afiado no meio do caminho, por outro a população reconhece seu esforço de décadas e a sua coerência entre a fala e a ação. É difícil ouvi-lo e não querer ‘entrar na briga’.

“Como o Brasil tem recursos naturais de forma exponencial, não dá valor para a biodiversidade. E não adianta ser a oitava economia e não ter saneamento. Temos ‘castas’ acima do bem e do mal. E para completar, a massa crítica da população foi reduzida, fruto de uma educação onde pensar e reagir é uma blasfêmia. Eu não me lembro de nenhum grande degradador preso ou que tenha pago algum dinheiro por seu ato de degradação”, provoca.

Mário cita casos como despejo de esgoto em bacias hidrográficas, derrame de petróleo, mortandade de peixes, ameaças a ambientalistas. “Depois de 32 anos acompanhando a degradação do Estado do Rio de Janeiro, eu percebo que a delinquência ambiental tá ganhando de goleada.”

Longo prazo

O especialista acredita que poderá acontecer uma virada de mesa com a entrada de empresas privadas no saneamento, permitida desde 2021. Ele explica que os dois protagonistas do processo de degradação do Rio de Janeiro são o crescimento urbano desordenado e a falta de saneamento universalizado. Mas essa mudança só poderá ser sentida daqui a uns cinco anos.

Isso é pouco se comparado ao tempo de recuperação de determinados ambientes. Ele lembra que em outubro último, a Lagoa Rodrigo de Freitas teve uma “explosão de biodiversidade”, diretamente associada à presença dos manguezais e à melhoria da qualidade da água. Milagre? Não. Anos de trabalho intenso na área. “Na Lagoa, quem se beneficiava da degradação era só um pequeno grupo que queria lucro imediato. Com a recuperação, o ganho é socializado: a natureza, o quiosqueiro, os restaurantes, os moradores – todos saem ganhando.”

Manguezais

Os manguezais são protegidos por lei desde 1965. Mas em Gramacho, que pertence a Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em meados dos anos 1970 foi criado um lixão em área de mangue. Em 1995, a prefeitura transformou o lixão em um aterro controlado, onde o principal impacto era o chorume que jorrava em direção aos manguezais e à Baía de Guanabara. Em 1998, a questão do chorume já estava sendo cuidada, e Mário Moscatelli foi contratado para começar a cuidar da área de mangue. Desde então, o manguezal de Gramacho já teve 1 milhão e 330 mil metros quadrados de recuperação. Em 2020, a empresa Statled Brasil entrou no projeto, e hoje o biólogo coordena uma equipe vinda da própria região – uma forma de criar consciência ambiental entre quem vive naquela realidade.

“O manguezal é a primeira linha de defesa do litoral, que vai ser submetido à elevação da linha do mar e sequestro de carbono. Ele sequestra quatro vezes mais carbono e concentra dez vezes mais carbono que qualquer outro tipo de floresta. Não existe nada de poético, verde, é capitalismo. Sem recursos naturais bem gerenciados, não há futuro. Temos que deixar o Brasil-colônia e nos tornar uma nação inteligente, com mega biodiversidade. Enquanto transformarmos biodiversidade em pasto, será um ganho particularizado.”

Gramacho: números impressionam

– Há mais de 25 anos, Mario Moscatelli faz um trabalho de recuperação do ecossistema à beira do antigo Aterro de Gramacho. Além de replantar dezenas de milhares de mudas de mangue no local, o biólogo retira o lixo que vem da Baía de Guanabara.

– Há dois anos, o biólogo conta com a parceria da Statled Brasil, empresa contratada pela Comlurb para administrar o Aterro de Gramacho, que empregou moradores da região para apoiar o biólogo no trabalho de revitalização da área. Hoje, Moscatelli supervisiona uma equipe de 10 pessoa e conta com a infraestrutura da empresa para recuperar e revitalizar o manguezal no entorno do aterro.

– Só no ano passado, foram plantados 40 mil metros quadrados de mudas de mangue na região. Para este ano, a previsão é de 45 mil metros quadrados.

– Também em 2021, a equipe retirou 1.470 toneladas de resíduos de um trecho de apenas um quilômetro em Gramacho. Nos três primeiros meses de 2022, foram retiradas 115 toneladas de resíduos. Para evitar que o lixo despejado pela população nos rios Sarapuí e Iguaçu – que desembocam na Baía de Guanabara – seja levado para os mangues durante a maré cheia, a equipe instalou um quilômetro de cercas para fazer a contenção do lixo, protegendo os manguezais.

– O trabalho de revitalização do mangue em torno de Gramacho já ganhou uma resposta da natureza. No último verão, maçaricos, aves migratórias que vêm do Hemisfério Norte, visitaram o local. Segundo Moscatelli, o aparecimento dessa espécie é a comprovação da importância dos manguezais para a biodiversidade.

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