1 de outubro de 2022


A grande virada da imprensa nos anos 50


20/08/2007


José Reinaldo Marques
24/08/2007
 

As grandes reformas gráficas, editoriais e empresariais que mudaram o perfil do jornalismo do Rio de Janeiro na década de 1950 — com reflexos na imprensa em todo o Brasil — são o tema central do recém-lançado “Imprensa e história no Rio de Janeiro dos anos 50” (Editora e-Papers), de Ana Paula Goulart Ribeiro, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco-UFRJ),

Com base nas inovações do Diário de Notícias, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e Última Hora, a autora apresenta no livro, didaticamente, uma análise bem construída de modelo editorial, conjuntura política e empresarial, infra-estrutura gráfica, produção de textos e mercado profissional dos veículos cariocas que viraram um marco na História da mídia impressa do País.

Até a década de 50, o padrão da imprensa no Brasil seguia o estilo europeu, principalmente no texto, diz Ana Goulart:
— Em termos gerais, a maioria dos nossos periódicos seguia o modelo francês de jornalismo, cuja técnica de escrita era mais próxima da literária. Os gêneros mais valorizados eram os mais livres e opinativos, como a crônica, o artigo polêmico e o de fundo.

Naquela época, a oferta de jornais era muito grande. Como lembrou Luiz Garcia em entrevista ao ABI Online, somente no Rio de Janeiro circulavam cerca de 20 periódicos — muitos com a credibilidade e a qualidade comprometidas por seus interesses políticos e econômicos. Segundo o colunista do Globo, “os jornais eram muito mais veículos de projetos políticos do que de outra coisa e funcionavam com poucas pessoas”. Outro problema apontado por ele era a falta de organização empresarial nos meios de comunicação, mas, apesar do improviso, “naquele período já começava a se desenvolver a técnica de lead, que foi trazida ao Brasil por dois jornalistas brasileiros: o Lacerda na Tribuna da Imprensa, e o Pompeu de Souza, no Diário Carioca”.

Objetividade

Ana Goulart diz que só não concorda plenamente com Garcia no tocante à credibilidade da maioria dos veículos que circulava no período:
— Poucos foram aqueles de que a gente pode se orgulhar de terem dado uma grande contribuição à imprensa. Antes dos anos 1950, a credibilidade da imprensa não estava associada diretamente à idéia de imparcialidade, ninguém esperava, realmente, que jornais fossem neutros e objetivos. Sua função era comentar os acontecimentos e, nesse sentido, era considerado normal que expressassem pontos de vista e interesses particulares. As reformas naquela década é que consolidaram a idéia de objetividade jornalística.

O conjunto de mudanças implementado pelos jornais nos anos 50 foi amplo e contemplou todos os aspectos da produção jornalística:
— Começou a se estabelecer um padrão empresarial de gestão, caracterizado por formas de gerência mais impessoais. Do ponto de vista da produção do texto, o jornalismo passou a adotar técnicas norte-americanas, como o lead e a pirâmide invertida. Surgiram os copidesques e os primeiros manuais de redação. O aspecto gráfico dos diários se transformou, com o desenvolvimento de modelos de diagramação mais funcionais.

O contexto visual também foi alterado, com uniformidade na tipologia das letras e lógica na hierarquia dos elementos nas páginas — antes, a paginação das matérias era feita na base da improvisação. Estabeleceu-se ainda um novo conceito de fotojornalismo:
— A fotografia deixou de ser meramente ilustrativa e passou a ser também informativa. Outra novidade foi o processo de profissionalização: o aumento dos salários permitiu que o jornalismo deixasse de ser um bico, uma ocupação provisória. Aos poucos foi desaparecendo a figura do aventureiro, que fazia do jornalismo apenas um lugar de reconhecimento ou que buscava no jornal a possibilidade de ascensão social através de negociatas, suborno e chantagem. Ao longo desse período, os jornalistas foram adquirindo um sentido de categoria profissional diferenciada da dos literatos e da dos políticos.

Não houve, porém, um rompimento radical com o antigo modelo de jornalismo, segundo Ana:
— A nova orientação do jornalismo brasileiro não impediu que os jornais continuassem a exercer uma função nitidamente política, marcada aqui por renitente tensão entre modernidade e arcaísmo. Como todo período de transição, os anos 50 foram marcados por ambigüidades. Também nas empresas jornalísticas conviviam, ao lado de um modelo de gestão e administração mais racional, outro mais personalista. Além disso, devido às características do mercado interno, o apoio a determinados grupos ou ao Estado ainda era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas, através de créditos, empréstimos, incentivos fiscais ou mesmo publicidade.

Inovação

Para a escritora, a vanguarda nos projetos jornalísticos foi a Última Hora de Samuel Wainer:
— A apresentação gráfica de UH, desenvolvida pelo argentino Andrés Guevara, estabeleceu um novo padrão visual para a imprensa brasileira, sobretudo para aquela mais popular. O periódico também teve um papel importante na valorização da fotografia. Não só o jornal lhe deu um destaque especial, utilizando muitas fotos e em grandes proporções, como também modificou suas características. Até então, as fotos usadas pela imprensa diária eram geralmente estáticas, lembrando álbuns.

O jornal também se destacou no uso da cor e privilegiou o desenho de humor de artistas como Lan, Augusto Rodrigues e Nássara:
— Editorialmente, o jornal também foi extremamente inovador ao ressuscitar a fórmula do folhetim e dar novo impulso ao colunismo, através de nomes como Nelson Rodrigues, Sérgio Porto e Antônio Maria. Pagando altos salários, cerca de dez vezes mais que a média da época, Wainer conseguiu atrair para a sua redação o que havia de melhor no jornalismo nacional.

Outras reformas editoriais e gráficas impactantes foram as do Diário Carioca e do Jornal do Brasil — o primeiro pela inovação do texto jornalístico, criação da função de copidesque e de um manual de redação, produzido por Pompeu de Souza:
— O jornal foi pioneiro na adoção das técnicas norte-americanas e era considerado uma verdadeira de escola de jornalismo. Por lá, passaram quase todos os bons profissionais da época, alguns jovens que se tornariam célebres jornalistas, como Armando Nogueira, Jânio de Freitas, Zuenir Ventura, Hélio Fernandes, Evandro Carlos de Andrade, José Ramos Tinhorão, Maurício Azêdo, Nilson Lage, Paulo Francis, Sérgio Cabral e Sérgio Porto.

Já o JB se destacou com o projeto gráfico de Amílcar de Castro, que seguia princípios estéticos opostos aos de UH:
— O Guevara apostou na utilização maciça de ornamentos. A paginação era movimentada por setas, fios, grisés e muitos outros recursos gráficos. Amílcar eliminou todos os elementos ornamentais da página, investindo na leveza visual, através do uso do branco e do jogo de espaços e volumes.

Marco institucional

Ana Goulart defende no livro a idéia de que, com as mudanças, a imprensa se transformou num dos principais campos discursivos da atualidade:
— A modernização da década de 50 representou para a imprensa a construção de um lugar institucional que lhe permitiu, a partir de então, se constituir como o registro factual por excelência. Os enunciados jornalísticos são aceitos pelo consenso da sociedade como relevantes e verdadeiros. O que passa ao largo da mídia é considerado, pelo conjunto da sociedade, como sem importância. O discurso jornalístico passou a se revestir de uma aura de fidelidade aos fatos, que lhe conferiu um considerável poder social.

Nesse contexto a autora chama a atenção para o fato de que, mesmo que a objetividade da imprensa venha a ser questionada “como um efeito ilusório”, há fatos concretos como nomes, datas etc. que não são deformados ou inventados:
— Os leitores, num certo sentido, ainda que critiquem a imprensa, confiam nas suas narrativas, até porque raramente podem verificar in loco a veracidade dos acontecimentos relatados. A objetividade passa a ser elemento de credibilidade.

Da década de 50 para cá, a imprensa já sofreu diversas reformas, tanto do ponto de vista editorial quanto do aperfeiçoamento profissional e técnico-industrial. Na opinião de Ana Goulart, o paradigma implantado naquele período tem dado evidentes mostras de esgotamento:
— O fazer profissional guia-se atualmente por regras diferenciadas daquelas. Muitos dos métodos e formas de se fazer notícia foram abandonados. Mas acredito que a idéia de objetividade ainda é uma das grandes responsáveis pela acolhida que o jornalismo tem e acredito que a imprensa ainda resguarda a legitimidade da representação objetiva, por mais que essa idéia já tenha sido exaustivamente criticada pelos estudiosos da comunicação e pelos próprios jornalistas.

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