Morre, aos 84 anos, o jornalista Carlos Leonam, ‘inventor’ do ritual de bater palmas para o pôr-do-sol em Ipanema


26/04/2024


Do Globo

Morreu na manhã desta quinta-feira (25) o jornalista, fotógrafo e colunista carioca Carlos Leonam, aos 84 anos. A informação foi confirmada pela família. Ele estava internado desde o último dia 13, na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, por causa de uma pneumonia bacteriana.

O velório foi realizado nesse sábado (27), no saguão do nono andar da sede da ABI.

Leonam deixa três filhos, Manoela, Caetano e Elisa, e dois netos, Cecilia e Oliver.

Carlos Leonam trabalhou nos veículos Última Hora, Tribuna da Imprensa, O Cruzeiro, Jornal do Brasil, Veja, O Globo, entre outros. Neste último, assinou de 1974 a 1984 a Coluna de Carlos Swann. No Jornal do Brasil escreveu, no Caderno B, a página “Carioca (Quase Sempre)”. Também escreveu para a revista Carta Capital.

Foi ainda diretor de arte, cineasta, publicitário e autor de fotos emblemáticas, como alguns retratos de Leila Diniz e Chico Buarque.

Também tem um Prêmio Esso por uma foto do astronauta russo Yuri Gagarin, no Alto da Boa Vista.

Publicou o livro “Os degraus de Ipanema”, que reúne uma seleção de seus textos em grandes jornais e revistas do país no período entre 1960 e 1990.

Leonam, reza a lenda, foi o “inventor” do célebre do ritual de bater palmas para o pôr-do-sol na Praia de Ipanema, conforme relatou o jornalista Zuenir Ventura certa vez:

“A cerimônia se repete todo dia. Quando o sol acaba de cumprir o seu trajeto habitual e desaparece lá pelos lados do Vidigal, os banhistas da Zona Sul se levantam da areia e aplaudem de pé. Os moradores já estão acostumados com o ritual. De casa ouço o barulho das palmas, dos assovios, de gritos e exclamações que se espalham pela Praia de Ipanema entre 19h30m e 19h45m. São jovens que não eram nascidos no verão de 68/69, quando o costume foi lançado num ‘dia de exportação’, como se dizia. Diante de um pôr-do-sol como esses de agora, o jornalista Carlos Leonam não se conformou: ‘Essa tarde merece uma salva de palmas!’. Imediatamente, o grupo em que estava na altura do Posto 9 — Glauber Rocha, Jô Soares, João Saldanha, entre outros — deu início aos aplausos. Depois, o publicitário Roberto Duailib consagrou a cena, recriando-a num comercial de bronzeador para a televisão. A cidade que, segundo Nélson Rodrigues, vaiava até minuto de silêncio era capaz, também, de aplaudir o entardecer”, contou Zuenir.

Ventura conta ainda, em seu livro “1968: o ano que não terminou”, que a expressão “esquerda festiva” foi cunhada por Leonam, em 1963. Uma descrição de como a expressão surgiu é encontrada em “Os degraus de Ipanema”.

Edney Silvestre disse que, “em suas colunas sociais, Leonam foi o inventor dos/das socialites e o maior propagador do mito de Ipanema; também, entre outras façanhas, circulou pelo Rio de Janeiro dos anos 1960, em seu Fusca tendo a bordo a segunda italiana mais sexy e mais bela da história: Claudia Cardinale”.

Para o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos (colunista de OGLOBO), que destaca a atuação de Leonam no colunismo social, ele “foi um desses homens que fizeram Ipanema nos anos 1960”.

— Sempre teve texto muito bom e era muito bem informado — diz Joaquim.

Filho do botânico e naturalista mineiro Leonam de Azeredo Penna e da professora Dorcelina Rosário Penna, Carlos Leonam nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Viveu até os 29 anos em Botafogo, onde aos 10 anos criou o jornal “A Voz da Rua”, já dando mostras da própria vocação. De 1968 a 1977 morou em Ipanema, para onde retornou em 1990.

Torcedor “saudável” do Fluminense, como se definia, Leonam foi um dos criadores da torcida Jovem Flu, ao lado do jornalista Nelson Motta, do compositor Chico Buarque, do ator Hugo Carvana, da cantora Elis Regina, entre outros.

Foi editor-executivo do cine-jornal Canal 100, especializado em futebol, co-diretor do documentário “Futebol total” (na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha) e co-roteirista de “Brasil bom de bola 78” (1978). Foi também assistente de direção em “O fabuloso Fittipaldi” (1973), filme de Hector Babenco e Roberto Farias sobre o piloto Emerson Fittipaldi. No cinema, fez ainda duas pontas como ator: no filme de Leon Hirszman “Garota de Ipanema” (1967) e no longa de Hugo Carvana “Bar Esperança”, ambos no papel de si mesmo.