Paulo Totti, um ícone do jornalismo nacional , nos deixou hoje


26/04/2024


Por Vera Saavedra Durão, associada da ABI

Morreu nesta madrugada o jornalista Paulo Totti, aos 86 anos. Gaúcho de Veranópolis, iniciou na profissão aos 14 anos, como redator de notícias da Rádio Municipal de Passo Fundo. Foram, portanto, 72 anos dedicados ao jornalismo, que ele mesmo admitia “ser sua cachaça”. Aos 19 anos, estudante de Direito foi eleito vice-presidente da UNE, quando se transferiu para o Rio, onde começou sua carreira de repórter na Última Hora de Samuel Wainer. Do Rio transferiu-se para a Última Hora de Porto Alegre, a pedido de Wainer. Em 64, com o golpe militar, foi demitido da UH gaúcha e teve que passar algum tempo na clandestinidade.

Em 1968, participou da equipe de Mino Carta, que fundou a Veja. Ainda em Porto Alegre, antes de se transferir para São Paulo, foi preso pela ditadura. Ao deixar a prisão, com a saída de Mino Carta, da Veja, também pediu demissão. Trabalhou uns tempos como editor de Política e Nacional no Globo, no Rio e, em 1978, assumiu a direção da sucursal da Gazeta Mercantil, no Rio, onde trabalhou por 10 anos.

Conheci Paulo Totti quando ele me convidou para trabalhar com ele, na Gazeta Mercantil. Foi o melhor chefe que tive em toda minha carreira de 46 anos de jornalismo. Na verdade, ele foi meu professor de jornalismo, pois era amigo dedicado, cultivava a amizade com toda a redação e se revelava um grande formador de jornalistas. Totti era, como bem lembrou minha amiga jornalista Sueli Caldas, um grande formador de jornalistas. Ao contrário dos diretores de jornal que ficavam no “aquário”, ele gostava de perambular pela redação, sempre com um cigarro entre os dedos, dando uma olhada nos nossos textos, sugerindo algumas mudanças, sempre numa prosa que nos deixava à vontade.

Quando saíamos do jornal, costumávamos acompanhá-lo num bar que havia perto da Gazeta, quando ela era na Presidente Vargas, quase esquina de Rio Branco. Lá, a gente relaxava contando casos da redação, falando sobre nossas matérias e o chope rolando alto. Algumas vezes, alguns de nós extrapolávamos, como o querido Riomar Trindade, também gaúcho como Totti e já falecido, que depois de beber algumas canecas de chope, contava casos e chorava. Aí a turma toda caía na pele dele. Era muito bom trabalhar com Paulo Totti.

Depois de 10 anos na GZM, foi ser correspondente do jornal em Buenos Aires, Cobriu a guerra das Malvinas em 1982 e a criação do Mercosul, em 1990. Sua cobertura das Malvinas tinha um olhar crítico em relação a Ditadura argentina, quando o último ditador General Leopoldo Galtieri enviou para o front os jovens argentinos e muitos morreram de bala e de frio, por não terem condições adequadas para participar de uma batalha com os ingleses. A guerra das Malvinas foi o último suspiro da cruel Ditadura Argentina e Totti falou sobre isto em seus textos.

Depois da Argentina, foi transferido pela GZM para trabalhar como correspondente nos Estados Unidos, em Washington, cobrindo a renegociação da dívida brasileira. Ficou lá dois anos e meio. Chegou a trabalhar no Jornal do Brasil, mas acabou voltando para a Gazeta, onde foi correspondente no México. Em 2000, foi para São Paulo onde assumiu a primeira página da Gazeta, de onde foi afastado por uma crise dos salários atrasados. Em 2003 foi assessor de imprensa no BNDES.

Ao deixar o BNDES foi repórter especial do Valor Econômico e fez por conta do jornal, uma fantástica viagem a China, retratando em sua cobertura a realidade do socialismo chinês. Me lembro de uma de suas matérias, onde ele revelava que na República Popular da China não havia aposentadoria para os trabalhadores. Quem tinha que cuidar dos velhos era a família. O que o deixava muito indignado, já que sonho de um socialista/comunista, como ele, era de uma vida melhor para os trabalhadores num país socialista.

Mas a experiência valeu.

Enfim, o querido Totti, que hoje nos deixou, teve uma vida plena como jornalista, que era a coisa que ele mais amava no mundo. Seus textos eram primorosos e ele ao escrevê-los, brincava ao relê-los, que “estava lambendo a cria”.

O que mais me encantava emTotti, era esta alegria e amor pela profissão de jornalista e pela vida. Como disse-o bem minha amiga Sueli Caldas: “Totti gostava de viver” e o fez da melhor maneira possível. Nos últimos tempos vivia com Ana Mandim, sua esposa, numa praia da Bahia. Onde ia todo dia tomar sol e banho de mar. Até que a saúde titubeou e, infelizmente, ele se foi. Paz e amor para nosso querido amigo Totti.