21/04/2026
Por Zilda Martins (*)
Fotos: Agência Senado
Ninguém poderá banhar-se duas vezes nas mesmas águas do rio. A máxima de Heráclito ilustra o sentimento de fluidez experimentado no primeiro encontro como conselheira do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, em 09 de fevereiro de 2026. A posse, um ritual com leituras sobre o Conselho, e a cerimônia de assinatura no cargo para o mandato de dois anos (2026-2028), seguida pela apresentação dos/as conselheiros/as, exigia uma posição. Eu, na condição de representante da sociedade civil, indicada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), tinha o dever de honrar a Casa do Jornalista, marcada pela luta em favor da liberdade e da democracia.
Contudo, sentar naquela tribuna me pareceu estranho. No primeiro momento, tive a sensação de estar fora do lugar, de que seria uma voz solitária por não fazer sentido para os/as demais conselheiros/as. Mas já na apresentação evidenciei que não apartaria minha participação no conselho das atividades de pesquisa sobre comunicação e relações raciais, que desenvolvo na UFRJ. E era urgente assumir uma atitude política, de luta, convocando o coletivo a enfrentar e romper a dinâmica histórica de silenciamento e de racismo, sobretudo pelo segmento que nós representamos.
O cenário de ausência de vozes negras e indígenas no plenário pede abertura, repetindo Guimarães Rosa, que o que a vida quer da gente é coragem. Afinal, representar a ABI exige forças para enxergar além. Esse mês, abril, discutimos saúde mental, com relato do Conselheiro Carlos Magno, que apontou ansiedade, depressão e outras violências contra jornalistas e radialistas. Foi seguido pela conselheira Ramênia Vieira, com a proposta de transversalidade. Reiteramos a importância de repudiar à violência contra jornalistas, assim como a urgência em buscar mecanismos de combate à ofensiva de racismo que permeia narrativas jornalísticas. A conselheira Camila Leite falou em apoio às propostas e sugeriu ir além.
Registramos pequenos avanços, como a participação de pesquisadores negros, dentre outros, na primeira e na segunda audiências públicas (março e abril). Ouvimos a pesquisadora da FGV, Renata Tomaz, e o pesquisador do Coletivo Centro Direitos da Rede, Paulo Rená, falando sobre o ECA Digital, Lei 15.211/2015, de proteção à criança e o adolescente. A próxima audiência, em 4 de maio, será sobre a chamada Lei da Midiatização, ou Lei 15.324/2026, que regulamenta a profissão multimídia, com a participação de novos convidados da sociedade civil.
Mas o que a frase de Heráclito tem a ver com minha nomeação no Conselho de Comunicação? Do sentimento de improbabilidade no cargo à sensação de fluidez, percebemos o acolhimento no Conselho, e em cada novo encontro reacendemos o vigor da democracia. Compreendemos que só haverá plenitude democrática se houver totalidade de direitos, de liberdade, de respeito e de humanidade. Do apelo à responsabilidade do plenário, e da provocação do Dr. Paulo Rená no último encontro, começamos, a boca miúda, a pensar em medidas que caibam a implantação de ações afirmativas e cotas raciais, quem sabe, já na próxima legislatura do Conselho?
(*) jornalista, professora colaboradora da Escola de Comunicação da UFRJ, fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Muniz Sodré sobre Relações Raciais – (GEMS/LECC), da ECO/UFRJ e integra a diretoria de Igualdade Étnico-Racial da ABI.