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Um rito de liberdade e denúncia política em apenas 13 minutos


11/02/2026


Por Vanesa Baerga (*)

Foto: Instagram @debitirarmasfotos

A princípio parecia ser uma obra de teatro musical de 13 minutos, mas Benito Antonio Martinez Ocasio, nome de batismo de Bad Bunny, apresentou um ato de denúncia política e resistência cultural em homenagem a Porto Rico, sua terra natal, diante de 128 milhões de espectadores de todas as partes do mundo que sintonizaram na noite de domingo (8), ao vivo pela TV, o mais relevante evento esportivo dos Estados Unidos. Bad Bunny protagonizou o tradicional show de intervalo da final do Super Bowl (futebol americano), no estádio Levi em Santa Clara, Califórnia.

Bunny apresentou uma homenagem a Porto Rico, com diversas referências aos latinos residentes nos Estados Unidos, extensiva a toda a América Latina, desde a Patagônia ao Estreito de Bering. O espetáculo reivindicou a América como continente em que desfilaram todas as bandeiras de igual para igual. Os Estados Unidos figuraram como um desses países que integram o universo americano, marcado pela diversidade: negro, mestiço, indígena e multilíngue.

A seleção musical de Bad Bunny foi interpretada como uma declaração política, porque surgiu em um contexto de fratura cultural estadunidense, que inclui operações policiais de combate a imigrantes, como em Mineapolis, Los Angeles e Chicago, presente na nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, conhecida ironicamente como Doutrina Donroe (misto de Doutrina Monroe com Donald Trump). Essa prática reafirma a decisão de ampliar  a presença militar no continente. Desse contexto faz parte a confirmação do inglês, por decreto, como único idioma oficial, anunciado em maio do ano passado.

Em 2025 o Governo dos Estados Unidos deportou cerca de 650 mil imigrantes e outros 2 milhões decidiram regressar a seus países de origem, numa espécie de autodeportação.

Dentro desse contexto, o espetáculo do “Conejo Malo” (Coelho Mau), como Bad Bunny tornou-se conhecido no início de carreira, converteu-se em um instrumento de contestação ao poder no ambiente de guerra cultural que assola os Estados Unidos. Um projeto cultural de antagonismo a Donald Trump e seus seguidores. Para a oposição, o músico portorriquenho surge como uma figura simpática entre aqueles que não o conheciam, nem o entendiam, mas que passaram a apoiar.

Com perfil combativo pelas causas sociais, Bunny compreendeu seu papel como portorriquenho e latino, e o que sua figura representa como símbolo de resistência diante da polícia migratória dos Estados Unidos, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE).

O show esteve carregado de mensagens em diferentes níveis que mostraram a história, a cultura e o cotidiano em Porto Rico e que também podem valer para outras áreas do continente. Referiu-se aos vendedores ambulantes de coco, aos canaviais, o refresco conhecido no Brasil como “raspadinha”  (gelo raspado com sabor de frutas), os boxeadores, os idosos jogando dominó na praça. Exibiu os costumes de Porto Rico, com suas contradições: o passado de escravidão e o presente de apagões por conta da infraestrutura deficiente, o maus governos mantidos pelos Estados Unidos no território, a migração, a preocupação em preservar a família e as festas.

Nos últimos seis anos, Bad Bunny foi o artista mais ouvido na plataforma Spotify em três deles (2020, 2022 e 2025). Para as professoras Vanessa Diaz e Petra Rivera-Rideau, estudiosas do fenômeno Bad Bunny, o êxiaoaaaa cantor se deve principalmente à defesa incondicional de Porto Ricoe a conexão estreita que mantém com a ilha caribenha.

Uma semana antes do show, ao receber dois prêmios Grammy, Bad Bunny dissera: “Ice out”. Em seguida acrescentou: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos estrangeiros. Somos humanos e somos americanos”. Durante o espetáculo na Califórnia, o cantor deixou claro o que significa, para ele, ser americano.

Em campo o título foi conquistado pelo time de Seattle, mas no mundo virtual o grande vencedor do domingo foi o cantor Bad Bunny e o seu grito por liberdade, com a benção de Deus de todas as religiões. “God save America”.

(*) jornalista e pesquisadora portorriquenha que reside em Chicago