O presidente da Fifa não existe para agradar chefes de Estado. Existe para proteger o regulamento deles. Sua obrigação era agradecer a ligação, desligar o telefone e deixar a punição seguir exatamente como determina o código disciplinar.
Ao admitir que uma regra consolidada pudesse ser revista após a intervenção de um presidente da República, comunicou ao planeta que o regulamento da Copa talvez já não esteja impresso em papel. Pode estar gravado na agenda telefônica dos poderosos.
Lembra os tempos em que o lendário Caixa d’Água, personagem conhecido da política esportiva fluminense, simbolizava as articulações de bastidores, as costuras silenciosas e a convicção de que campeonatos também se decidiam fora das quatro linhas.
Lembra também Eurico Miranda, que transformou a guerra política em método administrativo. Judicializava campeonatos, pressionava federações, enfrentava tribunais, confrontava dirigentes e fazia do poder uma ferramenta quase tão importante quanto a bola.
Mas há uma diferença humilhante. Caixa d’Água e Eurico atuavam num futebol provinciano, marcado pelos vícios da cartolagem brasileira.
Trump internacionalizou esse comportamento. Conseguiu fazer o planeta assistir ao renascimento da mais atrasada cultura do futebol, a do tapetão, segundo a qual sempre existe um gabinete ou recurso capaz de derrotar o regulamento.
Basta abrir o álbum das velhas vergonhas do futebol brasileiro. Ali estão os campeonatos decididos nos tribunais, os rebaixamentos revertidos por decisões administrativas, regulamentos reinterpretados conforme a conveniência dos dirigentes e intermináveis batalhas judiciais para modificar resultados já consolidados em campo.
Foi assim na Copa João Havelange, em 2000, quando o futebol dividiu espaço com decisões administrativas. Foi assim também na crise da Máfia do Apito, em 2005, que obrigou a anulação de partidas do Campeonato Brasileiro e abalou profundamente a confiança dos torcedores.
O folclore da cartolagem também colecionou episódios grotescos. Houve dirigente que afirmou ter sido assaltado enquanto transportava, debaixo do braço, a renda milionária do Maracanã. A história virou símbolo da falta de transparência que, durante décadas, marcou a administração do futebol nacional.
Não por acaso, a Copa de 1978 permanece como uma cicatriz na memória do futebol. A goleada da Argentina por 6 a 0 sobre o Peru eliminou o Brasil e conduziu os argentinos ao título.
Ao longo das décadas, aquele resultado jamais deixou de alimentar suspeitas e controvérsias. Embora nunca tenham surgido provas definitivas de manipulação, a percepção de favorecimento nunca abandonou aquele Mundial. Basta a suspeita para que uma Copa carregue uma mancha histórica.
Naquela ocasião, os protagonistas pertenciam às ditaduras militares da América do Sul. Agora, quase meio século depois, a própria Fifa produz sua nova cicatriz.
A discussão já não será apenas se o jogador norte-americano deveria cumprir suspensão. A verdadeira pergunta passa a ser por que o presidente de um país teve acesso privilegiado ao presidente da Fifa para tratar de um processo disciplinar durante uma Copa do Mundo e, pior ainda, por que foi prontamente atendido.
Se o presidente de qualquer outra seleção tivesse feito a mesma ligação, teria recebido tratamento idêntico? É essa dúvida que destrói a credibilidade da decisão.
Trump talvez imagine ter conquistado uma vitória para seu país. Na realidade, prestou um enorme desserviço ao futebol. Devolveu o esporte ao tempo em que a influência política parecia valer mais do que o talento dos jogadores.
Infantino, infelizmente, aceitou ser o fiador desse retrocesso. Quando um cartão vermelho pode ser derrotado por um telefonema presidencial, deixa de existir Copa do Mundo. Passa a existir apenas um torneio em que alguns disputam no gramado, enquanto outros jogam com a agenda de contatos.
Com a bola rolando, o futebol presenteou o público com a resposta devida ao sabujo Infantino. Nas quatro linhas, dentro dos 90 minutos, só deu Bélgica, num 4 a 1 vingador. Uma vitória que derrotou o escárnio e a desfaçatez.
Foto: REUTERS/Leah Millis



