03/05/2026

Em mais da metade dos países do mundo, a situação da liberdade de imprensa agora se enquadra nas categorias “difícil” ou “muito grave” — um fato inédito na história do Índice. Em 25 anos, a pontuação média geral de todos os países avaliados está em seu nível mais baixo de todos os tempos. O jornalismo nunca foi tão perigoso e nosso direito coletivo à informação nunca foi tão prejudicado. A reportagem jornalística está sendo criminalizada em escala internacional, o que se reflete na queda da pontuação geral do Índice em relação à legislação. Leis cada vez mais restritivas estão corroendo o direito à informação, mesmo em países democráticos.
Mapa da liberdade de imprensa 2026
O mapa do Índice está ficando mais vermelho a cada ano: 57% da população mundial vive em um país onde a situação da liberdade de imprensa é considerada “muito grave”, enquanto menos de 1% vive em um país onde é considerada “boa”.
ANÁLISES REGIONAIS
EUROPA – ÁSIA CENTRAL
Em termos regionais, a Europa Oriental e a Ásia Central (EECA) permanecem na penúltima posição no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026. A região abriga regimes altamente repressivos, como os governos da Bielorrússia (165ª posição entre 180 países e territórios), Azerbaijão (171ª), Rússia (172ª) – uma das maiores prisões para jornalistas do mundo – e Turcomenistão (173ª). A Ucrânia se destaca como uma relativa exceção, com uma ligeira melhora em sua pontuação geral, apesar da guerra de agressão da Rússia. Isso se deve ao dinâmico setor de mídia do país e ao trabalho investigativo realizado por veículos de comunicação ucranianos. A região da União Europeia – Balcãs permanece em primeiro lugar.
AMÉRICAS
Sob o governo de líderes como Donald Trump nos Estados Unidos (64º), Javier Milei na Argentina (98º) e Nayib Bukele em El Salvador (143º), a liberdade de imprensa continua a deteriorar-se. Retórica hostil, acesso restrito à informação pública e restrições legais e administrativas são utilizadas pelas autoridades para sufocar a cobertura jornalística. Em países assolados pela violência dos cartéis, como o México (122º), a falta de mecanismos de proteção adequados agrava os riscos para a segurança dos jornalistas.
ÁSIA-PACÍFICO
De acusações injustas de terrorismo a leis draconianas de cibersegurança, regimes autoritários utilizam seus vastos arsenais legais para silenciar redações já sufocadas pela censura e pela propaganda. A China (178ª), onde 121 jornalistas estão atualmente detidos, é o principal exemplo e exporta suas táticas para países como o Vietnã (174ª) e Mianmar (166ª). A liberdade de imprensa na maioria dos países desta região é classificada como estando em situação “difícil” ou “muito grave”.
ÁFRICA SUBSARIANA
Entre conflitos violentos, criminalização do jornalismo e pressões sobre o mercado de mídia, a liberdade de imprensa nunca esteve tão comprometida, desde a região dos Grandes Lagos até o Sahel e o Sudão. A situação da liberdade de imprensa é “difícil” em metade dos países desta zona e “muito grave” em Ruanda (139ª), Etiópia (148ª), Sudão (161ª), Djibuti (167ª) e Eritreia (180ª).
ORIENTE MÉDIO – NORTE DA ÁFRICA
A liberdade de imprensa é severamente restringida em toda esta região, em grande parte devido a guerras, censura e leis repressivas. Embora alguns países tenham apresentado progressos encorajadores — principalmente a Síria (141ª posição, subindo 26 posições desde o ano passado) desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 — a situação se deteriorou em outros. É o caso de Israel (116ª posição), cujo exército matou mais de 220 jornalistas em Gaza; Argélia (145ª posição); e Arábia Saudita (176ª posição), onde a imprensa independente enfrenta intensa pressão.
Como podemos impedir a criminalização do jornalismo?
“Em escala global, a criminalização do jornalismo não é resultado de lacunas legais, mas sim da subversão das ferramentas legais existentes e, na maioria das vezes, da falta de vontade política para protegê-lo. A chave agora reside nas ações dos Estados — especialmente das democracias, que devem tornar a proteção dos jornalistas uma prioridade política e judicial. Caso contrário, a impunidade e a lei da selva continuarão a prosperar. Existem soluções práticas, e elas exigem a implementação de políticas públicas proativas e políticas robustas de justiça criminal que possibilitem investigações sobre crimes contra jornalistas.” (Antoine Bernard, Diretor de Advocacy e Assistência da RSF).
Situação se deteriora nas Américas
A liberdade de imprensa nas Américas continuou a deteriorar-se, caindo 14 pontos no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa desde 2022 — a mesma tendência de queda observada nas duas regiões mais difíceis do mundo para o jornalismo: Europa Oriental e Ásia Central (EECA) e Oriente Médio e Norte da África (MENA).
O jornalismo nesta região já vinha sofrendo há tempos devido à fragilidade econômica do mercado de mídia e, na América Latina, à persistente violência contra a imprensa. Agora, em 2026, observa-se uma tendência marcante de autoridades em toda a região intensificarem essas pressões por meio de retórica hostil, restrições legais e administrativas, acesso limitado à informação pública e instrumentalização do sistema jurídico para sufocar o jornalismo. O jornalismo está sendo criminalizado, silenciado por processos judiciais e, em países assolados pela violência de cartéis, torna-se ainda mais perigoso pela falta de proteção aos profissionais da imprensa.
Nos Estados Unidos (que ocupa a 64ª posição entre 180 países e territórios), jornalistas que já enfrentavam dificuldades econômicas e uma crise de confiança pública — entre outros desafios — agora também lidam com a instrumentalização sistemática das instituições estatais pelo presidente Donald Trump, incluindo cortes de verbas para emissoras públicas como a NPR e a PBS , interferência política na propriedade dos meios de comunicação e investigações com motivação política contra jornalistas e veículos de comunicação desfavorecidos. Desde seu retorno ao cargo,
Jornalistas também foram alvos de ataques no terreno durante os protestos, o que reflete uma deterioração mais ampla que configura uma das crises mais graves para a liberdade de imprensa na história moderna dos EUA.
A Argentina (98ª posição) caiu 11 posições em 2026 sob o governo do presidente Javier Milei, aliado de Trump, e despencou mais de 69 posições no Índice desde 2022 devido ao aumento da hostilidade institucional contra a imprensa e à violência contra jornalistas que cobrem protestos. El Salvador(143ª posição, -8 posições em 2026) também continuou sua tendência de queda, despencando 74 posições desde que o presidente Nayib Bukele, outro líder alinhado a Trump, assumiu o poder em 2019. Seu governo intensificou a criminalização do jornalismo, notadamente por meio da lei de agentes estrangeiros de 2025 , que exige que indivíduos e organizações que recebem financiamento estrangeiro paguem um imposto de 30% sobre essa renda e concede ao governo amplos poderes para suspender ou dissolver entidades consideradas não conformes. Na prática, serve como uma ferramenta direta para silenciar a dissidência e, combinada com processos judiciais abusivos, levou dezenas de jornalistas ao exílio em questão de meses.
Em países assolados pela violência dos cartéis, como o México (122º), há uma necessidade urgente de forte proteção para garantir a segurança da imprensa — contudo, as autoridades em muitos desses países estão agravando a situação. O Equador (125º), que registrou a maior queda da região (-31), enfrenta uma erosão sem precedentes na segurança dos jornalistas, à medida que a violência ligada ao crime organizado se alastra e autoridades públicas cada vez mais hostis aumentam a pressão sobre a imprensa. O mesmo ocorre no Peru (144º, -14), onde quatro jornalistas foram assassinados em 2025. O Peru perdeu 67 posições desde 2022, em grande parte devido a uma série de iniciativas legislativas alarmantes, assédio judicial e campanhas de difamação contra veículos de comunicação independentes.
Preocupantemente, algumas dessas tendências se assemelham a formas mais tradicionais de censura — repressão estatal e ataques diretos — que prevalecem em países como Nicarágua (168º), Cuba (160º) e Venezuela(159º), onde a liberdade de imprensa permanece em seus níveis mais baixos na região.
Por outro lado, alguns países mostram sinais de melhoria ou relativa estabilidade. O Brasil (52º) subiu 58 posições desde 2022. A Colômbia (102º) e o Uruguai (48º) registraram melhorias, assim como a Guatemala (128º), apesar da perseguição contínua a jornalistas como José Rubén Zamora. O Canadá (20º) tornou-se o líder regional em decorrência da queda de Trinidad e Tobago (32º), impulsionada em parte pelo agravamento das condições econômicas e políticas. A RSF observou uma tendência semelhante em Belize (66º), onde o descontentamento dos jornalistas com suas condições de trabalho está crescendo.