13/11/2025
Por Rogério Marques, no Quarentena News
Fotos: Roberto Cerqueira
Lá se vão 40 anos em que aconteceu um dos maiores e mais bem sucedidos movimentos reivindicatórios, até hoje, na história das empresas de mídia brasileiras. Durante os meses de julho e agosto de 1985 a emissora e seus funcionários viveram momentos de alta tensão, no tempo das máquinas de escrever, no mesmo ano em que a ditadura militar chegava ao fim.
Na época, eu estava na empresa havia pouco tempo e fazia parte de um grupo de apoio à direção do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, presidido então por José Carlos Monteiro. Guardo comigo até hoje documentos importantes relacionados àquele movimento, entre eles uma edição extra do jornal “Unidade e Ação”, do Sindicato dos Jornalistas, e comunicados da direção da TV Globo dirigidos aos funcionários, no longo processo de negociações. Esses documentos, que hoje fazem parte da memória sindical, me ajudaram a relembrar os acontecimentos daqueles dois meses.

Trabalho extenuante
Em 1985, quando tudo aconteceu, trabalhar na TV Globo era uma alternativa para muitos profissionais no Rio, tanto no jornalismo como na área de entretenimento. No setor de impressos, vários jornais e revistas tradicionais já haviam encerrado as atividades ou estavam em crise financeira, atrasando salários, entre eles “Correio da Manhã”, “O Jornal”, revista “O Cruzeiro”, “Diário de Notícias”, “Última Hora”, “Jornal dos Sports”, ”Jornal do Commercio”.
O mesmo já havia acontecido com emissoras como a TV Tupi, TV Excelsior, TV Rio. Ao mesmo tempo, a TV Globo se firmava como a mais poderosa emissora do Brasil e uma das maiores do mundo. Além de não atrasar salários, tinha um bom plano de saúde. Apesar disso, atrás das câmeras não faltavam motivos de insatisfação.
Enquanto o Brasil parava para ver novelas como “Corpo a corpo” e “Roque Santeiro”, altamente lucrativas, os funcionários tinham que enfrentar longas e extenuantes jornadas de trabalho. Em alguns programas, chegava-se a trabalhar mais de 24 horas diretas. Entrava-se pelas madrugadas, até o dia amanhecer, lutando-se contra o sono.
Não havia respeito aos intervalos legais entre as jornadas. Apesar do sacrifício, as horas extras e o adicional noturno não eram pagos corretamente. Havia acúmulo de funções, demissões eram frequentes e os salários, embora superiores aos de outras empresas jornalísticas, principalmente na área de impressos, eram incompatíveis com o poder econômico da TV Globo.
Rumores de demissões
No início de julho de 1985 circulavam rumores de demissões em massa como contenção de despesas, devido a um grande investimento feito pela empresa na compra de um canal de TV italiano, a Telemontecarlo, uma tentativa de entrar no mercado europeu que acabou resultando em fiasco. Falava-se em 900 demissões. Foi um dos estopins do movimento, iniciado pelos radialistas.
No dia 11 de julho, o Sindicato dos Radialistas convocou uma assembleia que reuniu 240 trabalhadores da categoria, todos funcionários da TV Globo.
Uma semana depois, no dia 18, uma nova assembleia teve cerca de 500 participantes e a adesão dos sindicatos de seis outras categorias – jornalistas, artistas e técnicos, músicos, rodoviários, publicitários e telefônicos. Uma operação padrão por tempo indeterminado foi decidida. Os funcionários só cumpririam a jornada regular de trabalho, sem fazer horas extras. Uma Comissão Intersindical, integrada pelos sete sindicatos, foi eleita para negociar com a empresa.
Diante da grande adesão dos funcionários, as assembleias passaram a ser feitas no Condomínio Esporte Clube, no bairro do Horto, perto da emissora. Em 25 de julho, cerca de 900 funcionários lotaram o auditório do clube. De início, a empresa se recusou a reconhecer a Comissão Intersindical e a negociar com ela. Mas o movimento cresceu tanto que a direção da Globo recuou e passou a negociar com a Comissão.
As reivindicações
A lista de reivindicações dos funcionários era longa e justa. Entre outras, suspensão imediata das demissões; readmissão dos demitidos, extinção de todas as horas extras; reposição salarial de 80% e equiparação salarial com a Globo de São Paulo.
O jornal Unidade e Ação, do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, noticiou os acontecimentos em uma edição extra com boa cobertura fotográfica. É possível ver a jornalista Monica Horta, nos primeiros meses de uma gravidez, e o ator Stepan Nercessian debatendo com os trabalhadores, em uma das assembleias. Na época, além de diretora do Sindicato dos Jornalistas, Monica era funcionária da Globo. Stepan Nercessian, outra liderança importante do movimento, era diretor do programa Chico Anysio Show.
O dia 8 de agosto, uma quinta-feira, foi marcante na história do movimento. Cerca de 600 funcionários fizeram uma manifestação na porta da emissora. De lá se dirigiram em passeata ao clube Condomínio, gritando em coro palavras de ordem.
Na frente da passeata, uma faixa estampava a frase “Chega de ti-ti-ti”, um jogo de palavras com o título da novela das 7. Naquele dia, cerca de 1500 funcionários lotaram o auditório do clube. Profissionais de processamento de dados resolveram aderir.
Roque Santeiro em risco
Na edição de 14 de agosto de 1985, a revista “Isto É” noticiava: (…) “o diretor da Central Globo de Produções, Daniel Filho, informou a Roberto Marinho que o estoque de capítulos de “Roque Santeiro” se esgota no próximo dia 22”. Motivo: os técnicos e outros funcionários recusavam a fazer horas extras. Mesmo que a operação padrão não chegasse a uma greve, a TV Globo não conseguiria manter sua grade de programação sem as longas e irregulares jornadas de trabalho.

Diante de um movimento que contagiou funcionários da emissora até em outros estados, a TV Globo atendeu a grande parte das reivindicações. No dia 12 de agosto a Comissão Intersindical dos trabalhadores da TV Globo se reuniu com representantes da empresa, que distribuiu aos trabalhadores um documento apresentando, entre outras, as seguintes propostas:
– Pagamento de adicional noturno e respeito ao intervalo legal entre as jornadas;
– Antecipação salarial de 20% para todos os trabalhadores, sendo 5% como reposição;
– Reposição salarial de 10% para todos os empregados que ganham até 7 salários mínimos;
– Reposição salarial de 5% para todos os empregados que ganham mais de 7 salários mínimos por mês;
– 40% de adicional de acúmulo de função para aqueles empregados que, embora não exercendo o cargo de motorista, dirijam veículos da empresa, por necessidade de trabalho;
– Pagamento de adicional noturno e o respeito ao intervalo legal entre jornadas de trabalho;
– As horas extras dos radialistas passam a ser pagas com acréscimo de 50% a partir da primeira hora extra trabalhada;
– As duas primeiras horas extras dos jornalistas passam a ser pagas com acréscimo de 30%.
Os funcionários representados pela Comissão Intersindical não conseguiram tudo que pretendiam inicialmente, mas os avanços foram consideráveis, e ficou um aprendizado: quando a causa é justa e existe unidade, os trabalhadores ganham uma força irresistível para conquistar aquilo a que têm direito
1985 FOI UM ANO ESPECIAL
Por Monica Horta
Monica Horta
Dá para dizer que foi inesquecível. Depois de 21 anos encerrado no caixão de chumbo da ditadura militar, o nosso “gigante adormecido” começava a despertar. Não chegou a se levantar, mas já se espreguiçava, como alguém que dormiu muito mas já percebe que um dia ensolarado está começando lá fora. Aqui, em particular os funcionários da TV Globo vínhamos de um período de passividade.
Trabalhar na Globo era um sonho cobiçado porque os salários eram maiores do que a média. Talvez por isso, o pessoal do movimento sindical que, nesse momento, estava recebendo uma transfusão de sangue e ferro dos trabalhadores do ABC, dizia que a TV Globo era impossível de mobilizar. Ninguém tinha coragem de arriscar seu emprego na Vênus Platinada.
Mas a certeza do sucesso e sua boa relação com o poder tinham feito a Globo querer crescer. Para isso começou a contratar mais funcionários. Sangue novo sempre provoca movimentos novos. Naquele ano de 1985, recém-eleita diretora do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, eu tinha viajado muitas vezes a São Paulo para editar, junto com o jornalista Ricardo Alvarez, o boletim da Comissão Nacional Pró-CUT.
Nas minhas idas e vindas a São Paulo me frustrei com o processo de formação da CUT, mas comecei um novo casamento com o Ricardo, que me rendeu uma gravidez que aparece, ainda pequena, na foto da assembleia de funcionários da TV Globo. Ao mesmo tempo, o país estava grávido da Constituinte que nasceria depois.
Mas as viagens a São Paulo me ensinaram a importância do chamado “trabalho de base”. Uma prática de formiguinha que me fazia perguntar a cada jornalista quantas horas extras tinha feito e não recebido. As primeiras respostas foram: “Uma porrada.” Aos poucos, a consciência das horas extras não recebidas serviu de piso para um espírito reivindicatório que seria importante depois.
Além disso, a movimentação dos radialistas também mexia com o brio dos jornalistas globais. E as assembleias foram crescendo com novas categorias aderindo. Diante da mobilização geral começou a aparecer a revolta diante do número enorme de técnicos (as novelas eram gravadas no mesmo prédio onde estavam as redações dos jornalistas) que dormiam no chão da emissora porque os intervalos entre as jornadas de trabalho não permitiam que quem morava longe fosse para casa durante a semana. Com tudo isso chegamos a fazer assembleias com mais de mil pessoas, só da Globo.
O momento político em geral e a percepção do poder do coletivo conquistado nos levaram às reivindicações sem retaliação da empresa e à vitória em pontos importantes como o pagamento de horas extras e o respeito ao intervalo legal de jornadas.
O INESQUECÍVEL MOVIMENTO DE 1985
Por Stepan Nercessian
Stepan Nercessian
Dizem que foi a primeira intersindical que deu certo. Na ocasião, eu era diretor do Chico Anysio Show e também contratado como ator. Não pertencia a nenhuma diretoria de sindicato. Portanto, minha imunidade foi votada em assembleia.
Foi um movimento superorganizado, que na verdade começou muito antes de eclodir, com o envio, pelos funcionários, de farta correspondência com reivindicações à direção da emissora, sem que se obtivesse qualquer resposta.
Outra característica ímpar do movimento — e eu fui defensor assíduo da ideia — foi a de que não precisávamos e nem deveríamos decretar greve. Bastaria cumprirmos o horário estabelecido por lei, que a emissora não resistiria.
Outro dado muito positivo foi que mesmo tendo filiados de partidos políticos (eu era PCB), jamais foi permitida sequer a presença nas assembleias de quem não fosse funcionário. E ninguém se escondia. Para entrar nas assembleias era preciso mostrar o crachá.
Obtivemos vários ganhos e mesmo que os relativos a salários não tenham sido expressivos, muito avançamos em termos de relação de trabalho e de respeito com os trabalhadores.
Em determinado momento, até a família Marinho reconheceu a seriedade do movimento e o quanto era necessária uma mudança de rumo na relação.