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O repúdio à ditadura nas palavras de Ulysses Guimarães e Carmem Lúcia


31/03/2025


Por Marcos Gomes (*)

No dia 5 de outubro de 1988, o deputado Ulysses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, anunciou a promulgação da nova Constituição brasileira, que simbolizou o fim de um longo período de repressão e autoritarismo vivido durante a ditadura militar (1964-1985). Em seu discurso, Ulysses proferiu uma frase célebre: “Tenho ódio e nojo à ditadura”, sintetizando o sentimento de repúdio de uma nação que ainda sofre as sequelas causadas pelas mortes e o desaparecimento de lideranças políticas, sindicais, estudantis e de movimentos sociais.

Trinta e sete anos depois, a ministra Carmem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF) resumiu em duas palavras o significado da ditadura militar no Brasil: “Ditadura mata”. Ao proferir o seu voto na sessão da 1ª Turma do STF, na última quarta-feira, que tornou réu Bolsonaro e seus aliados por tentativa de golpe de Estado, a ministra disse que o processo democrático no Brasil foi alvo de uma tentativa concreta de desmontagem institucional.

“Ditadura mata. Ditadura vive da morte e não apenas da sociedade, não apenas da democracia, mas de seres humanos de carne e osso que são torturados, mutilados, assassinados”, lembrou a ministra.

Carmen Lucia também recomendou a leitura do livro da historiadora Heloisa Starling, Professora titular do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais, “A máquina do golpe – 1964: como foi desmontada a democracia no Brasil” ao destacar que “não se faz o golpe em um dia, assim como também o golpe não acaba em uma semana e nem em um mês”.

Nesta terça-feira, 1º de abril, o golpe militar de 1964 completa 61 anos. Liderado por setores das Forças Armadas, com o decisivo apoio de parte da elite empresarial, da imprensa, de setores conservadores da sociedade e do governo dos Estados Unidos, que temia a expansão do comunismo na América Latina durante a Guerra Fria.

O contexto em que Ulysses Guimarães fez aquela contundente declaração foi de celebração, mas também de reflexão sobre os horrores do regime militar. Durante os 21 anos de ditadura, o Brasil viveu sob um sistema que perseguiu opositores políticos, silenciou vozes dissidentes e violou sistematicamente os direitos humanos, atacou a imprensa.

No dia 19 de agosto de 1976, a sede da ABI foi alvo de um atentado a bomba que destruiu o 7º andar de sua sede na Rua Araújo Porto Alegre, 71. Felizmente ninguém se feriu, mas até hoje os autores do atentado não foram identificados e punidos.

A promulgação da Constituição de 1988 foi o ápice de um processo de redemocratização iniciado com a abertura política e a mobilização popular, como as Diretas Já, que desenvolveram o retorno das eleições diretas para presidente. Ulysses, como uma das principais lideranças desse movimento, representava a voz de milhões de brasileiros que clamavam por justiça, liberdade e o fim definitivo de qualquer resquício autoritário.

A conexão entre as palavras de Ulysses Guimarães e Carmem Lúcia está na defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos. Ambos os discursos alertam para os perigos do autoritarismo e a importância de preservar as instituições democráticas. A Constituição de 1988, com seus avanços em direitos sociais e garantias individuais, é um legado dessa luta, mas também um lembrete de que a democracia exige vigilância permanente.

O Brasil, ao longo de sua história, enfrenta desafios para consolidar a sua democracia, e as palavras de Ulysses e Carmen Lúcia soam como um chamamento à nossa união, em tempos de polarização e ataques às instituições. Eles nos convocam a refletir sobre o impacto devastador da ditadura e a importância de proteger os valores democráticos, garantindo que o “ódio e nojo à ditadura” se traduzam em ações concretas para que nunca mais se repitam os erros do passado.

Democracia sempre!

(*) presidente do Conselho Deliberativo da ABI