21/09/2025
Por Maria Cristina Fernandes, no Valor
Foto: Marcelo Osakabe/ Valor
Foi uma manifestação sem uniforme, cor ou bandeira predominante além do rechaço à anistia de Jair Bolsonaro ou à blindagem dos parlamentares. Uma Avenida Paulista que, nos últimos anos, se acostumou a manifestações com carros de som distribuídos ao longo dos quarteirões, ambulantes com bandeiras do Brasil, Israel e Jair Bolsonaro, cantos de louvor evangélico, famílias uniformizadas de verde e amarelo, foi tomada, na tarde deste domingo, pelo improviso. Talvez por isso, reuniu mais gente do que todas aqueles protestos capitaneados pelos partidos de esquerda nos últimos tempos e surpreendeu até quem participou da organização mambembe.
No final da manhã, o presidente do PT, Edinho Silva, calculava que, em todo o Brasil, as manifestações reuniriam mais de 200 mil pessoas nas ruas e seria suficiente para enterrar a PEC da Blindagem e a anistia em quaisquer formatos. Se errou foi para menos. Sem o trio de ouro da música popular brasileira que subiu ao palanque do Rio (Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil), a manifestação da capital paulista empatou com a última promovida pelo bolsonarismo no 7 de setembro naquela avenida. “Tomamos de volta o que era nosso”, comentava um manifestante.
Os gritos de ordem, “sem anistia” e “não aceito não, a PEC da blindagem é pra proteger ladrão” superaram o “olê, olê olá, Lula, Lula”, tradicional das manifestações petistas. Nenhum, porém, superou aquele grito de ordem em que, uma alternância de personagens (Bolsonaro, Trump, Tarcisio e Nikolas Ferreira, encurtado para “chupetinha”) são enviados para aquele lugar impublicável. Nos cartazes, além do combo supressivo da anistia e blindagem, compareceram apelos pelo fim da escala 6×1 e em defesa da Palestina. A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi pauta dos cartazes, a grande maioria de cartolina.
À medida em que a multidão se aproximava do palanque, montado na calçada oposta ao Masp, com um som que mal chegava a quem estava embaixo da marquise, as bandeiras de partidos e sindicatos se adensavam e o discurso se radicalizava. Ali foi difícil ouvir o que a deputada Tabata Amaral (PSB) tinha para falar, pelos protestos contra sua presença, que contrastaram com a ovação aos deputados Sâmia Bonfim e Guilherme Boulos, ambos do PSol e mais aplaudidos do que quaisquer dos deputados federais do PT paulista que lá estavam, nenhum deles da bancada dos 12 que votaram de costas para os manifestantes. Dali a poucos metros, porém, a única reprimenda era à anistia e à blindagem, o dueto que voltou a povoar a Avenida Paulista de todas as cores.
Tamanho de manifestações contra PEC da Blindagem e anistia assusta bolsonaristas
O local que mais impressionou os bolsonaristas foi a Avenida Paulista, em São Paulo. A imagem de milhares de manifestantes nas ruas foi apontada como “similar” aos atos realizados pela direita em defesa do ex-presidente e causa preocupação por confrontar o argumento de que a esquerda não teria capacidade de mobilização.
Os dados do Monitor do Debate Político, da USP, mostram que o ato deste domingo na Avenida Paulista reuniu 42.379 pessoas. Visualmente, a manifestação preencheu ao menos três quarteirões da avenida no meio da tarde. Ao comparar os números de público do mesmo monitor da USP, a presença é semelhante à do último ato realizado por bolsonaristas no local, em 7 de setembro, que levou 42,2 mil pessoas à avenida e foi considerado um sucesso de público pelas lideranças bolsonaristas.
O fato da urgência do projeto de anistia aos golpistas de 8 de janeiro — que também busca beneficiar Bolsonaro — ter sido aprovada na Câmara dos Deputados no dia seguinte à PEC da Blindagem passou a ser criticado pelos aliados do ex-presidente, que veem dificuldades para a pauta avançar, ainda mais diante das mobilizações populares deste domingo (21).
Integrantes do governo Lula celebraram o resultado das manifestações, como o advogado-geral da União, Jorge Messias.
“Neste domingo, o Brasil voltou a mostrar ao mundo a força de sua democracia. As ruas de várias grandes cidades se encheram em defesa soberana de nossas conquistas democráticas. O povo expressou sua posição firme pela integridade do nosso Estado Constitucional. Com paz no coração e serenidade, nosso povo desenhou, nas praças e avenidas, o mapa de suas esperanças e as prioridades que espera de seus representantes. Seguiremos juntos, com coragem e, cada vez mais, esperança! A democracia é sempre caminho e nunca ponto de chegada. Temos muito a construir”, escreveu o ministro nas redes sociais.