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Não tem água que apague esse fogo


15/06/2026


Corpos de camponeses perseguidos pela ditadura militar teriam sido queimados em fornalhas de usinas na Paraíba, segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) . É nesse contexto de revelação sobre a violência contra trabalhadores rurais que o documentário Não tem água que apague esse fogo resgata a história da resistência camponesa em defesa da democracia e da reforma agrária.

O doc, com duração de 30 minutos, tem pré-estreia no Rio de Janeiro, dia 17 de junho, quarta-feira, às 19h, na Sala 2 do Estação Net Rio e em João Pessoa, no dia 29 de junho, às 18h, no Cine Aruanda. A produção é da ONG Criar Brasil.

Ameaças, emboscadas, assassinatos e o constante medo de lutar por direitos trabalhistas e pelo direito à terra fazem parte do cotidiano de gerações de trabalhadores rurais. O filme traz depoimentos de filhos de pessoas assassinadas por defender uma vida digna e terras para os agricultores e mostra o trabalho de conservação da memória das Ligas Camponesas na Paraíba.

“Compreender que a luta pela democracia não só se dá no espaço da cidade, nos ambientes políticos partidários, dentro de instituições, é muito além do que isso. A democracia interfere diretamente na vida de todas as pessoas, e também nos recursos naturais: águas, florestas, rios, em todos os espaços”, diz no documentário a vice-presidenta do Memorial das Ligas Camponesas de Sapé (PB), Alane Lima, 35 anos, camponesa e mestra em geografia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Waldir Porfírio, integrante da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba (CEVPM-PB), lembra: “os dois primeiros desaparecidos políticos no Brasil foram duas lideranças camponesas daqui da Paraíba, Nego Fuba e Pedro Fazendeiro” ¹. No documentário, filhos dos dois agricultores, desaparecidos em setembro de 1964, dão seus depoimentos.

Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) e protocolada em 26 de maio na 1ª Vara Federal da Paraíba, a União e o estado da Paraíba, durante o período da ditadura civil-militar, atuaram como braço armado de latifundiários contra as Ligas Camponesas da Paraíba. De acordo com o MPF, Exército e Polícia Militar mantiveram uma parceria sistemática com usineiros da região para perseguir, ameaçar, torturar e matar trabalhadores rurais. As fornalhas das usinas teriam sido utilizadas para incinerar corpos e restos mortais das vítimas.

Apagamento

Mas a violência contra os camponeses não se restringe aos governos militares. Registros atualizados da Comissão Pastoral da Terra mostram um crescimento das mortes no campo a partir de 2017. O banco de dados documenta assassinatos nas áreas rurais do Brasil desde 1985. Os números preocupantes não mobilizam a sociedade. “A velha oligarquia rural repaginada hoje no que nacionalmente a gente conhece como agronegócio, eles continuam no poder”, explica o professor da UFPB, Marco Antônio Mitidiero.

O filme revela que a luta dos trabalhadores do campo é apagada mesmo para quem está próximo. “Eu só fui realmente tomar consciência, entender e compreender a minha história quando fui para a universidade. Até então, eu sabia que minha avó era Elizabeth Teixeira, mas não sabia quem era essa Elizabeth Teixeira, essa proporção, essa dimensão dessa mulher. Era silêncio total”, conta Juliana Teixeira, neta de Elizabeth e João Pedro Teixeira, líderes históricos das Ligas Camponesas de Sapé. Hoje professora na Escola Cidadã Integral Técnica Monsenhor Odilon Alves Pedrosa (ECITMOAP), em Sapé/PB, ela narra para os adolescentes o passado do lugar.

“Quando a gente fala que a gente vive num país democrático, é democrático pra quem? E pra quê? Então, como é que a gente vive num país democrático se a gente tem o nosso direito humano cerceado, que é o direito à terra?”, questiona Alane Lima. O filme aborda as consequências dos golpes e tentativas de golpes contra o Estado Democrático de Direito para os camponeses. Ciclos de avanços e retrocessos que incluem o acesso à terra, ao crédito e a outras políticas públicas, como compra de alimentos da agricultura familiar e assistência técnica.

“A história dos camponeses do Brasil pode ter altos e baixos. A mudança não depende da nossa vontade. Depende da população ir se organizando, ter consciência de classe e ir acumulando força, que pode demorar anos. Mas nós vamos chegar lá”, avalia João Pedro Stédile, líder do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MST).

O título do documentário, Não tem água que apague esse fogo, faz referência à frase usada por João Pedro Teixeira, fundador das Ligas Camponesas de Sapé, que inspirou o filme Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. É uma metáfora que simboliza para os agricultores a luta contínua pela terra, pela vida e pela justiça social.

Roteiro — Rosangela Fernandes, Marcelo Pitaro

Direção — Isabelle Gomes, Rosangela Fernandes, Marina Vianna, Gustavo Souza

Serviço:

Pré-estreia no Rio de Janeiro

Estação Net Rio, Sala 2, Rua Voluntários da Pátria, 35, Botafogo – Dia 17/06/2026, às 19h.

Ingressos gratuitos.

Pré-estreia em João Pessoa 

Cine Aruanda, Cidade Universitária UFPB, João Pessoa, Paraíba – Dia 29/06/2026, às 18h.

Ingressos gratuitos

Estreia em primeira tela:

Rede TVT, TV aberta em São Paulo – Dia 20/06/2026

Disponível no Youtube CRIAR Brasil -Dia 20/06/2026