30/08/2026
Por Diogo Dantas, em O Globo
Reprodução
Morreu neste sábado (29) o jornalista Marcos Penido, que trabalhou no jornal O GLOBO por 32 anos, de 1983 a 2015. Ele tinha 74 anos e faleceu após um quadro de insuficiência cardíaca. O enterro será neste domingo, às 13h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, com velório a partir das 10h.
Penidão, como era chamado, deixa a mulher, Rita, e dois enteados. Além de admiradores com quem trabalhou nas redações do Rio de Janeiro. Ele era torcedor do Botafogo.
Pelo Jornal do Brasil, Marcos Penido ganhou seu primeiro Prêmio Esso, pela cobertura da Copa de 1982. No GLOBO, ganhou mais um, por revelar um esquema de manipulação no futebol carioca em 1994.
— Ele era o que hoje em dia cada vez temos menos no jornalismo, um repórter. Um cara dedicado a descobrir notícias. Cobriu nove Copas do Mundo, de 1982 a 2014, e trabalhou no Globo por 32 anos, de 83 a 2015. Ganhou o primeiro Premio Esso em 1983 pela cobertura da Copa de 1982, a sua primeira na profissão pelo Jornal do Brasil. Depois, ganhou em O GLOBO com a equipe reportagem que deflagrou esse processo de manipulação de resultados em 1994. Ele era uma pessoa doce, um gigante adorável—, conta Toninho Nascimento, que foi editor do Globo e por 16 anos chefe de Penido.
Wagner Canazaro, diretor de quadro de árbitros da entidade à época, havia convocado 70 juízes para articular um esquema de manipulação de resultados no Carioca de 1994. A partir de então, começou um trabalho incessante pela busca da verdade que impediu a realização do esquema e concedeu ao time de jornalistas formado por Marcos Penido, César Seabra, Eduardo Tchao, Paulo Júlio Clement, Antônio Roberto Arruda e Gustavo Poli o Prêmio Esso de Informação Esportiva.
Por Thales Machado, em O Globo
Uma vida de reportagem
Reprodução
Marcos Penido passou boa parte da vida olhando futebol de muito perto. Em nove Copas do Mundo, em décadas de treinos, concentrações, vestiários, viagens e jogos, era justamente para isso que estava ali. Houve uma noite, porém, em que não conseguiu olhar. Nos minutos finais da decisão do Brasileiro de 1995, no Pacaembu, o Santos pressionava o Botafogo e Penido, setorista do clube e botafoguense desde muito antes de ser jornalista, virou de costas para o campo. Não suportava mais assistir.
Quando voltou a olhar, o Botafogo era campeão brasileiro. Penidão, como era chamado pelos amigos, acompanhou a festa no vestiário, voltou ao Rio com a delegação e viveu, agora muito mais como torcedor, uma das noites que havia esperado durante anos. Depois, como fizera tantas outras vezes, foi escrever.
Mas reduzir Penidão à quantidade de Copas ou às grandes viagens deixaria escapar justamente aquilo que os colegas mais lembravam nele. Era um homem avesso à ostentação, de uma humildade que sobrevivia ao tamanho do currículo e de um companheirismo que marcou gerações de repórteres que trabalharam a seu lado.
Formado inicialmente em História, começou no jornalismo como estagiário no fim dos anos 1970 e foi conquistado pela reportagem a ponto de voltar à faculdade. Graduou-se em Jornalismo pela PUC-Rio em 1984, mesmo ano em que foi contratado por O GLOBO. Ficaria no jornal por quase 32 anos, descontada uma breve passagem pela Folha de S.Paulo, percorrendo setores dos grandes clubes cariocas e algumas das principais coberturas esportivas do período.
Seu maior furo não aconteceu numa Copa nem numa final. No fim de 1993, Penido recebeu a informação de que cerca de 70 árbitros haviam participado de uma reunião na Federação de Futebol do Rio em que receberam orientação para seguir uma espécie de “Regra 18”. Oficialmente, o futebol tinha apenas 17. A regra extra significava, segundo a denúncia, adequar decisões de arbitragem aos interesses políticos da federação.
O outro Esso viera ainda no Jornal do Brasil, em 1982, pela cobertura da Copa do Mundo daquele ano, o seu primeiro Mundial. De 1986 em diante, esteve em todas as edições do Mundial até o torneio de 2014, no Brasil. Ao longo desse caminho, acompanhou também o futebol carioca num tempo em que ser setorista significava passar os dias dentro dos clubes, conversar sem intermediários com jogadores e dirigentes e conhecer as histórias que raramente chegavam às entrevistas coletivas.
Depois de deixar O GLOBO, continuou ligado ao jornalismo esportivo e presidiu a Associação de Cronistas Esportivos do Rio entre 2014 e 2017. Era também uma maneira de permanecer perto dos colegas e de uma profissão à qual dedicara praticamente toda a vida adulta.
Talvez por isso a imagem de 1995 seja tão boa para guardá-lo. Durante décadas, Penido acreditou que um jornalista precisava saber onde terminava o torcedor e começava o repórter. Naquela noite no Pacaembu, por alguns minutos, Penidão não conseguiu. Virou de costas, esperou e só tornou a olhar quando o Botafogo já era campeão.
Depois da festa, voltou ao trabalho. Havia uma história para contar.