— O Arlindo Rodrigues disse que eles estavam indo para o barracão do Salgueiro, pois o carnaval estava atrasado, e perguntou se eu queria ir junto. “Quero”, respondi. E fomos. Um caminhão havia levado toda a parte decorativa do baile, que seria reaproveitada pela escola. Quando chegamos lá, Arlindo apontou para uma alegoria toda branca e me disse: “Aquele carro é seu, vai decorar!” — recorda a carnavalesca, professora, comentarista e jurada do Prêmio Estandarte de Ouro, em entrevista ao GLOBO em 2015.
“Ainda não consegui imaginar como serão meus dias de escola de samba, de desfiles na Sapucaí, sem Maria Augusta. Perdê-la é como perder um pedaço da história de todas as escolas de samba do Rio de Janeiro. (…) Ela era firme na defesa das tradições e do bom gosto. Hoje é um dia triste para mim. Mas, como sabemos que este é apenas um plano (entre tantos outros) tenho certeza de que, do outro lado, ela estará próxima ao setor das escolas de samba, estará ao lado de todos os artistas. Que sua passagem seja leve e tranquila. Te amo, minha eterna e amada Augusta”, escreveu Bruno Chateaubriand.
Em 2022, quando o Estandarte de Ouro comemorou 50 anos, Maria Augusta foi homenageada pelo prêmio. Este ano, ela foi enredo da escola mirim Aprendizes do Salgueiro (“Uni-duni-tê, o Aprendizes escolheu você!”.
Já o Salgueiro afirmou que a escola está “coração em luto, mas repleto de gratidão”. Lembrou ainda que a agremiação a homenageou no seu desfile mirim: “Ela viveu essa homenagem como uma criança feliz. Esteve com nossos pequenos, deu aula, riu, chorou, e desfilou com uma emoção que tomou conta de todos. A quadra se encheu de amor. Era como se ela voltasse para casa. E, de fato, voltou”.
Entre as escolas que se manifestaram o Império Serrano destacou que a relação entre Maria Augusta e a agremiação “remonta à década de 1980, quando ela passou a ocupar o posto de madrinha da nossa comissão de frente e da bateria. Sempre presente nos ensaios, eventos e desfiles, tornou-se uma figura querida e marcante, símbolo de carinho e respeito à frente dos nossos ritmistas”.
No Instagram, Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, publicou foto com Maria Augusta em Singapura, no ano 2000. “A Dinda foi descansar. Ela lutou muito nos últimos dias e nós mantivemos a esperança”, escreveu. Neguinho da Beija-Flor também se manifestou: “Recebi com muita tristeza a notícia do falecimento da minha grande amiga Maria Augusta. Uma mulher incrível, que deixou sua marca na história da Beija-Flor, com carnavais inesquecíveis”.
Criatividade, simpatia e leveza
Foi ao lado dos mestres Pamplona e Arlindo que ela deu seus primeiros passos na folia carioca. Arlindo era exigente com as cores e a encarregou da preparação das tintas, lembra Flávia Oliveira. “Nasciam ali a professora de Teoria da Cor da EBA/UFRJ e a carnavalesca conhecida pelos matizes fortes e sofisticados”, diz a jornalista, acrescentando que Maria Augusta acabou identificada como a artista do “luxo da cor”, que se contrapõe ao “luxo do brilho”, atribuído especialmente a Joãosinho Trinta.
Nos anos 1970, Maria Augusta trocou a vermelho e branco da Tijuca pela União da Ilha. Na nova escola, fez carnavais inesquecíveis, embora não tenha ganhado títulos. Com simplicidade, no lugar do luxo e de alegorias imensas, o enredo “Domingo” (1977) é considerado um dos mais criativos da história dos carnavais. Em 1978, criou o memorável “O Amanhã”.
— “Domingo” nasceu de uma experiência pessoal. Quando vim para o Rio, estudei no internato do Colégio Bennett. Os domingos eram dias de alegria, eu aproveitava a folga para ir à casa dos meus avós, na Rua Almirante Tamandaré — relembrou.
Maria Augusta deu à Ilha o estilo “bom, bonito e barato”, de uma escola simpática e leve. Sem falar que “Domingo” e “O Amanhã” renderam sambas antológicos, feitos por compositores a partir dos seus enredos.
— A obra é a intuição — repetiu ela em entrevistas.
Paixão nasce na infância
Maria Augusta também dizia que o carnaval era a essência de sua vida. Nascida em São João da Barra, no Norte Fluminense, em 23 de janeiro de 1942, ainda criança frequentava com a mãe as festas populares da região. Cedo, teve contato com os bois Pintadinho e Jaraguá. dançando na rua, desfile de rancho, desfile de caboclo e bailes de clube. Tudo muito colorido, uma de suas características como carnavalesca.
— O carnaval entrou em minha vida, nas estradas empoeiradas do norte do estado do Rio — relembrou em uma entrevista.
A fé entrou na sua vida quando trabalhava no enredo “Bahia de Todos os Deuses”. Filha de xangô, primeiro, descobriu a umbanda e, depois, o candomblé. Passou a usar contas de proteção no pescoço e quase sempre roupas brancas. Mas desde a infância já questionava a existência.
Outras escolas
Além de Salgueiro e União da Ilha, Maria Augusta passou ainda por Paraíso do Tuiuti, de 1980 a 1983; Tradição (1985) e Beija-Flor (1993). Já considerava encerrada a carreira na função quando recebeu o convite de Anísio Abraão David, patrono da escola, para substituir Joãosinho Trinta, após 17 anos, na azul e branco de Nilópolis, explica Flávia Oliveira no livro “Pra tudo se acabar na quarta-feira”:
“Não foi simples substituir o artista que forjou a escola gigante, luxuosa e supercampeã. Augusta apresentou Uni-duni-tê, a Beija-Flor escolheu: É você, um enredo onírico, com inspiração no universo infantil, fantasias leves e multicoloridas, alegorias aquém da grandiosidade que se tornara marca da agremiação. Conseguiu um terceiro lugar”.
Foto: Mônica Imbuzeiro/ Agência O Globo

