30/08/2025
De O Globo
Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Morreu neste sábado, 30 de agosto, em Porto Alegre, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, aos 88 anos. Ele estava internado desde o dia 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, com pneumonia, e faleceu às 0h40.
Um dos maiores prazeres de Luis Fernando Verissimo, nascido em 26 de setembro de 1936, era “soprar saxofone”. Quando tomava posse do instrumento, Verissimo, um calado incorrigível, podia apenas ouvir — além de nutrir sua paixão pelo jazz, iniciada na adolescência passada nos Estados Unidos junto com a família, entre as décadas de 1940-1950. Naquela época, seu pai, o também escritor Erico Verissimo (1905-1975), foi convidado a dar aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley.
A versatilidade da crônica era cara ao escritor, e dela saíam frases impensáveis de serem pronunciadas em voz alta pelo saxofonista tímido, que manteve uma coluna no Globo, desde 1999, no Estado de S. Paulo e na Zero Hora.
Verissimo começou no jornal gaúcho, depois de largar a publicidade, como copidesque (“função que já deve ter sido substituída por uma tecla de computador”, provocou em uma crônica décadas mais tarde).
Mestre do humor e da crônica
Em 1969, aos 33 anos, assumiu o papel de cronista e nele encontrou sua vocação. Fã das crônicas de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Antonio Maria, Verissimo enxergava no gênero “a liberdade absoluta” e fez questão de exercê-la pelas quatro décadas seguintes.
Ao longo da carreira, ele lançou mais de 70 livros, sendo seis deles romances, e vendeu mais de cinco milhões de exemplares, em 15 países.
Liberdade de cronista
Nos anos 1970, a concisão e a liberdade de cronista eram também exercitadas nas tirinhas de humor “As Cobras”, que começaram a ser publicadas na Folha da Manhã, de Porto Alegre, e driblavam a censura da ditadura militar com mais facilidade do que os textos. Ele já fazia ali uma espécie de minicrônica ao que seria o estilo Verissimo: com humor fino, a dupla de cobrinhas podia conversar sobre a existência de Deus, o fim do mundo ou simplesmente sobre futebol.
O analista virou peça, filme e série de televisão — o que se repetiu com outras de suas criações, como “A comédia da vida privada”, que se tornou uma série (na TV Globo) sobre o cotidiano da classe média, primeiro baseada em crônicas e depois com textos do próprio Verissimo feitos especialmente para a TV.
Dos romances, o que o escritor considerava o “mais bem acabado” era “O clube dos anjos” (1998), que narra a vida de um grupo de amigos que se reúnem num mesmo bar da adolescência à maturidade.
Enquanto seu gosto por comida se sofistica, as ilusões da juventude são substituídas pelos fracassos acumulados nas relações pessoais e profissionais. Foi só em 2009 que o escritor lançou seu primeiro romance sem encomenda de editora, “Os espiões”.
“O que faço não tem valor literário. Não tenho essa ambição, nem a capacidade do livro definitivo. Todos os outros livros foram provocados, não eram livros que tinha dentro de mim. Quando tem isso, vem cedo. Eu comecei tarde”, afirmou certa vez Verissimo, que dizia não ter prazer durante a escrita.
“Bom não é escrever, mas ter escrito”, costumava dizer, repetindo uma frase do escritor Zuenir Ventura, seu grande amigo. “Encaro escrever como um ofício, um que deu certo para mim, mas não seria minha escolha natural se outras coisas não tivessem dado errado. Não escrevo com prazer. Já a música é sempre um prazer para mim”.
‘Movimento dos sem netos’
O escritor e Lúcia, praticamente sua primeira namorada, casaram-se em 1963 e tiveram três filhos: Mariana, Fernanda e Pedro. O filho herdou o gosto pela música e, como o escritor, largou a publicidade, mas para cantar profissionalmente. O pai continuou um músico bissexto e teve várias bandas, a última delas a Jazz 6.
Os filhos cresceram, mudaram-se, e por muito tempo Verissimo fez campanha para voltar a povoar a casa de crianças. Fundou o Movimento dos Sem Netos junto com Zuenir e o escritor Moacyr Scliar, seu colega dos tempos de Zero Hora. Deixou o grupo em 2008, quando sua neta, Lucinda, nasceu no dia do 99º aniversário do Internacional, o time de futebol que era outra de suas paixões, ao lado do jazz, das viagens e da gastronomia.
Colorado doente em Porto Alegre e torcedor do Botafogo no Rio — onde tinha apartamento, em Ipanema —, Verissimo cobriu três Copas do Mundo para O Globo, em 2002, 2006 e 2010. Em todas elas exibiu duas de suas principais características: a simplicidade e o senso de humor apurado.
Na cobertura, o escritor realizou por vias tortas um antigo desejo de ser comentarista esportivo. Antes, ele queria mesmo era ser aviador, fascinado com as histórias da Segunda Guerra Mundial que ouvia nos Estados Unidos, onde viveu com os pais na década de 1940. Em terras americanas se apaixonou por filmes de bombardeios, mas também por Alfred Hitchcok e Woody Allen, por quadrinhos, e ainda por Cole Porter, Louis Armstrong e Miles Davis. Aos 17 anos, assistiu a um show de Charlie Parker, decidiu aprender trompete, mas a escola de música só tinha saxofone. Desde então, poupou o fôlego para “soprar” seu sax e deixou as palavras para o desfrute de seus leitores.
Problemas de saúde
Verissimo lidava há alguns anos com problemas de saúde. Em 2020, retirou um câncer na mandíbula. Em janeiro de 2021, quando ainda se recuperava do câncer, teve um AVC isquêmico que lhe trouxe sequelas e o afastou do ofício de escritor.
Na segunda-feira, 11 de agosto, ela foi internado no no Centro de Terapia Intensiva Hospital Moinhos de Ventos, em Porto Alegre, com um princípio de pneumonia, quadro que se agravou nos dias seguintes.
Luis Fernando Verissimo deixa a mulher, Lucia e os três filhos Mariana, Fernanda e Pedro.
O presidente Lula decretou luto oficial de três dias em todo o País pela morte do escritor Luis Fernando Veríssimo. O decreto foi publicado neste sábado (30) em edição extra do Diário Oficial da União.
Lula lamentou a morte do escritor. “Um dos maiores nomes de nossa literatura e jornalismo”, disse. Lula destacou personagens como o Analista de Bagé, Ed Mort e As Cobras, ressaltando o uso da ironia para denunciar a ditadura e defender a democracia. O presidente prestou solidariedade à viúva Lúcia Verissimo, aos filhos e familiares.
O Ministério da Cultura também se manifestou, citando a escrita refinada e divertida que marcou gerações. A pasta afirmou que Verissimo ampliou a presença da literatura brasileira e conquistou milhões de leitores no país.
Personagens icônicos
Analista de Bagé
Um dos principais personagens de Verissimo, o Analista de Bagé apareceu pela primeira vez numa reunião de crônicas de mesmo nome publicada em 1936, obra que consolidou o escritor na literatura nacional. O personagem tornou-se tão famoso que chegou a ganhar versões em quadrinhos, peças de teatro, livros e filme.
A história acompanha um psicanalista da cidade gaúcha de Bagé, no interior do estado, conhecido por abandonar o método tradicional e adotar um estilo direto e cômico, sem meias palavras. Seus atendimentos revelam abordagens inusitadas, com propostas de soluções rápidas e pouco convencionais para os dilemas trazidos pelos pacientes.
O personagem aborda ainda o choque entre aspectos tradicionais da cidade do interior onde vive o psicanalista com o sujeito urbano contemporâneo à época, tecendo críticas bem humoradas a falsos valores morais, temas políticos e à classe média brasileira.
Velhinha de Taubaté
Presença recorrente em diversas crônicas e livros do autor, a Velhinha de Taubaté ficou conhecida nacionalmente por ser “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”, como definida pelo próprio autor. Criada durante a ditadura militar no país, em 1983, a personagem era uma sátira sobre a ingenuidade política brasileira, representando o eleitor sempre disposto a acreditar nos seus governantes.
As Cobras
As Cobras são parte de uma série de quadrinhos de Verissimo que começaram a ser publicados nos anos 1970 no jornal gaúcho Zero Hora, também durante a ditadura militar. Segundo o escritor, elas são “produto da combinação do meu gosto por quadrinhos com minhas limitações como desenhista”.
As tiras traziam duas cobras que, com linguagem simples e humor ácido, discutiam temas variados e teciam críticas sociais em pleno regime militar. Como diz o escritor na apresentação de “As Cobras Antologia Definitiva” (Companhia das Letras), “era o tempo da censura, e muitas vezes se podia dizer com desenhos o que não dava para se dizer com textos”.
Detetive Ed Mort
Com língua afiada e sem um centavo no bolso, o detetive Ed Mort é um dos personagens mais conhecidos de Verissimo. Rendeu o primeiro longa-metragem baseado numa obra do autor, em 1997, protagonizado pelo ator Paulo Betti e com participações de Chico Buarque e Gilberto Gil. Também virou quadrinho e série para o Multishow, com Fernando Caruso no papel do detetive trapalhão.
A Família Brasil
Verissimo também ficou conhecido em seu trabalho como cartunista pela criação da Família Brasil, uma típica família brasileira de classe média. Sabe-se pouco sobre ela, nem mesmo os nomes de seus membros são revelados, apenas que é composta por um pai trabalhador, mas que tem a profissão ignorada; uma mãe dona-de-casa; um filho adolescente; um neto pequeno e uma neta de colo.
As tiras começaram a ser publicadas em 1989, no jornal Zero Hora, e foram adaptadas para o audiovisual em 2009 em seriado da RBS TV. “Eles se preocupam com dinheiro, nem sempre podem ter as férias e os Natais que gostariam de ter, conversam, se entendem, se desentendem… No fim as ‘aventuras’ deles são essas, as aventuras do cotidiano, do dia a dia”, explica o autor na apresentação de “As Aventuras da Família Brasil” (Editora Objetiva), uma coletânea dos quadrinhos.