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Marcelo Cerqueira morre aos 87 anos no Rio após complicações de pneumonia


28/02/2026


Reprodução

Em Agenda do Poder

O advogado, professor e ex-deputado Marcelo Cerqueira morreu neste sábado vítima de pneumonia seguida de infecção generalizada. Ele tinha 87 anos e deixa uma trajetória marcada pela militância estudantil, atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e participação na vida institucional brasileira..

Da militância estudantil ao exílio

Nascido em 1938, no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro, Cerqueira ingressou na Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Brasil. Ainda jovem, atuou como jornalista e, em 1957, filiou-se à Juventude Comunista.

Foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura e da revista Movimento, ligada à UNE. Em 1964, assumiu a vice-presidência da entidade após a eleição de José Serra para a presidência. Com o golpe militar naquele mesmo ano, foi forçado ao exílio, passando por Bolívia, Chile e países europeus.

Defesa de perseguidos políticos

Ao retornar ao Brasil, em 1965, foi preso por cem dias. Depois de libertado, concluiu o curso de Direito e iniciou uma atuação marcante na advocacia. Sem cobrar honorários, defendeu mais de mil pessoas processadas com base na Lei de Segurança Nacional e atuou em casos de desaparecidos políticos durante o regime militar.

Essa atuação consolidou sua reputação como advogado ligado à defesa de direitos civis e políticos em um dos períodos mais repressivos da história brasileira.

Vida parlamentar e atentados

Com a abertura política, foi eleito deputado federal pelo MDB em 1978, assumindo o mandato no ano seguinte. Após o fim do bipartidarismo, participou da fundação do PMDB.

Em 1981, sofreu dois atentados — um contra seu carro e outro contra sua casa. À época, atribuiu os ataques a grupos de ultradireita que tentavam frear o processo de redemocratização.

Cargos públicos e atuação acadêmica

Depois do mandato parlamentar, retomou a advocacia e passou a lecionar Direito Constitucional. Em 1985, foi consultor jurídico do Ministério da Justiça no governo José Sarney, transferindo-se para Brasília. Também em em 1985, concorreu pelo PSB à Prefeitura do Rio, ficando em quarto lugar.

Em 1986, na eleição para a Assembleia Constituinte, teve quase 90 mil votos mas não se elegeu porque o partido não atingiu o coeficiente eleitoral.

Nos anos seguintes, ocupou cargos relevantes na administração pública. Foi procurador-geral do Incra entre 1992 e 1993 e, posteriormente, chefe da procuradoria do CADE até 1994.

Militância econômica e produção intelectual

Nos anos 1990, destacou-se como crítico da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, movendo ações judiciais contra o processo.

Também presidiu o Instituto dos Advogados Brasileiros e publicou obras jurídicas, políticas e literárias, entre elas O Controle do Judiciário – doutrina e controvérsias, além de romances e ensaios.

Legado

Marcelo Cerqueira deixa três filhas e um legado que atravessa o movimento estudantil, a luta contra a ditadura e a consolidação institucional do país. Sua trajetória combina militância, produção intelectual e atuação pública em diferentes frentes da vida nacional.

A despedida ocorrerá na segunda-feira (2/3), das 11h00 às 15h00, no Cemitério Memorial do Carmo, Capela Salão  Celestial.

MARCELO CERQUEIRA: A VOZ QUE A DITADURA NÃO CALOU
Jorge Antonio Barros, em Quarentena News
Marcelo Cerqueira não era apenas um advogado; era um escudo. Em uma época em que o Direito brasileiro era retorcido para justificar a barbárie, Marcelo usou a beca como armadura para proteger aqueles que o Estado tentava apagar. Sua partida deixa um vazio imenso, mas sua história permanece como um testamento de coragem civil e compromisso inabalável com a liberdade. Ele morreu hoje aos 87 anos, vítima de pneumonia, depois de internado esta semana.
Em 1965, um ano após o golpe militar, foi preso por cem dias. Depois de libertado, concluiu o curso de Direito e iniciou uma atuação marcante na advocacia. Sem cobrar honorários, defendeu mais de mil pessoas processadas com base na Lei de Segurança Nacional e atuou em casos de desaparecidos políticos durante o regime milita​
O Defensor dos Esquecidos
​Enquanto muitos se recolhiam pelo medo legítimo do aparato repressivo, Marcelo Cerqueira caminhava nos corredores dos tribunais militares com a cabeça erguida. Ele não defendia apenas “clientes”; ele defendia a humanidade de estudantes, operários e intelectuais que o regime classificava como “subversivos”.
​Sua atuação na defesa de presos políticos durante a ditadura militar foi marcada por uma técnica jurídica impecável misturada a uma empatia profunda. Para Marcelo, o tribunal era o último campo de batalha onde a luz da justiça ainda poderia brilhar, mesmo que por frestas.
O Preço da Democracia: O Atentado
​A coragem de Marcelo não era teórica. Ela tinha custo e ele o pagou com a própria tranquilidade. No auge da tensão política, quando grupos radicais de extrema-direita e facções fascistas tentavam impedir a abertura democrática através do terror, Marcelo Cerqueira tornou-se um alvo direto.
O Atentado: Sua residência foi alvo de um atentado a bomba, em 2 de abril de 1981, nada menos que 28 dias antes da Bomba do Riocentro, o atentado que expôs as entranhas dos grupos secretos do regime militar.
​A Mensagem: O objetivo era claro — silenciar a voz que questionava o arbítrio e intimidar todos aqueles que ousavam lutar pelo Estado de Direito.
​A Reação: Marcelo não recuou. Pelo contrário, o ataque reafirmou sua convicção de que a democracia era o único caminho possível, e que o medo não poderia ser o regente da vida pública brasileira.
Um Legado de Humanidade
​Marcelo Cerqueira personificou a figura do jurista humanista. Para ele, o Direito só fazia sentido se estivesse a serviço da dignidade humana. Ele transitou pela política, foi deputado e manteve-se ativo nas causas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sempre com a verve de quem sabe que a liberdade é uma conquista diária, e nunca uma garantia definitiva.
​Sua vida foi um exercício de resistência ética. Ele nos ensinou que, diante da injustiça, o silêncio é uma forma de cumplicidade. Marcelo escolheu o barulho do debate, o peso da lei e o risco da vida para que hoje pudéssemos respirar em um país livre.
​Marcelo Cerqueira partiu, mas cada vez que um advogado se levanta para defender um direito fundamental contra o abuso do poder, há um pouco da sua essência ali. Ele foi, acima de tudo, um sentinela da nossa democracia.