22/07/2026
Por Jorge Antonio Barros, conselheiro da ABI
Foto: Divulgação
O cinema brasileiro perdeu hoje uma de suas figuras mais imponentes e transformadoras. Luiz Carlos Barreto, carinhosamente conhecido como Barretão, faleceu aos 98 anos no Rio de Janeiro. Cineasta, produtor, fotógrafo, roteirista e articulador cultural, Barretão foi muito além de um mero realizador: ele foi uma das forças motoras que estruturaram e projetaram a cinematografia nacional para o mundo ao longo de mais de seis décadas.
Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Barretão mudou-se para o Rio de Janeiro no final dos anos 1940. Antes de imortalizar imagens na película cinematográfica, foi nos jornais e revistas que apurou sua sensibilidade visual. Integrou a icônica equipe de fotógrafos da revista “O Cruzeiro” nos anos de ouro do fotojornalismo brasileiro, ao lado de nomes lendários que revolucionaram a linguagem da imprensa no país.
Essa vivência com a câmera na mão e a percepção aguçada da realidade brasileira foram o passaporte perfeito para a sétima arte. Ao migrar para o cinema, assumiu a direção de fotografia de obras fundacionais do Cinema Novo. É dele a câmera em preto e branco que capturou o sol escaldante e a aridez de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e a enquadração barroca e convulsiva de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha — duas das maiores obras-primas da história do audiovisual latino-americano.
O Imperador da Produção e a L.C. Barreto
Embora sua contribuição na fotografia tenha sido histórica, foi no papel de produtor que Barretão consolidou seu império cultural. Em 1963, fundou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, ao lado de sua companheira de vida e de batalhas, Lucy Barreto.
Com uma visão estratégica singular, Barreto entendeu como poucos a equação entre valor artístico e apelo popular. Ele viabilizou alguns dos maiores sucessos de bilheteria e de crítica da história do país:
“Garrincha – Alegria do Povo” (1963), de Joaquim Pedro de Andrade
“Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), dirigido por seu filho Bruno Barreto, que levou quase 11 milhões de espectadores aos cinemas e deteve por décadas o recorde de maior bilheteria do cinema nacional.
“O Quatrilho” (1995), de Fábio Barreto, e “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto — ambas produções indicadas ao Oscar de Melhor Filme Internacional, marcos fundamentais do período conhecido como a Retomada do Cinema Brasileiro.
Legado e Dinastia Audiovisual
Lutador incansável pelas políticas públicas do audiovisual, Barretão foi também um defensor fervoroso da preservação e do incentivo à indústria de cinema no Brasil. Sua paixão pela sétima arte atravessou gerações, construindo uma verdadeira dinastia ao lado de Lucy e dos filhos Bruno, Fábio (1957–2019) e Paula Barreto.
Com a sua partida aos 98 anos, apaga-se a luz de um dos homens que mais enxergaram longe no Brasil. Mas nas telas, na luz estourada do sertão de Vidas Secas e na grandiosidade de suas dezenas de produções, a assinatura de Luiz Carlos Barreto permanece inesquecível.