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Jornalista brasileira em Portugal recebe ameaça de morte


12/09/2025


Por Vicente Nunes, em Público Brasil

Arquivo Pessoal

Três dias depois de a Polícia Judiciária prender o português João Paulo Silva Oliveira — ele já foi solto — por oferecer 500 euros por cabeça de brasileiro decapitado, a jornalista Stefani Costa, do Ópera Mundi, foi ameaçada de morte por outro extremista de direita, Bruno Silva. Ela já denunciou o caso às autoridades portuguesas e pediu ajuda ao consulado e à embaixada do Brasil em Portugal.

Por meio das redes sociais, Bruno diz: “Estou a oferecer um dos meus apartamentos no centro de Lisboa, avaliado em média em 300 mil euros, a quem realizar um massacre e exterminar pelo menos 100 brasileiros em Portugal, e darei um bônus adicional de 100 mil euros a quem me trouxer a cabeça de Stefani Costa.” Não foi a primeira vez que ele fez ameaça à jornalista. Em junho do ano passado, o extremista de direita enviou a Stefani uma foto segurando “armas que seriam usadas para matá-la”.

Stefani conta que, à época, denunciou Bruno ao Ministério Público, que abriu um inquérito para investigá-lo — o processo corre em segredo de Justiça. “Já prestei vários depoimentos, mas o caso está andando bem devagar”, afirma a jornalista, que vive há oito anos em Portugal. Procurado pelo PÚBLICO Brasil, o Ministério Público informou que as investigações estão em andamento, com a ajuda da Polícia Judiciária.

O PÚBLICO Brasil também entrou em contato com o perfil de Bruno Silva nas redes sociais, mas não houve respostas. Segundo informações colhidas junto a investigadores do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, as apurações sobre as ameaças feitas à jornalista estão em curso, mas há muita dificuldade em identificar os responsáveis pelos perfis que espalham ódio pelas redes, pois, no geral, as plataformas criam dificuldades para colaborar com o processo.

Cobrança

A jornalista ressalta que não irá se intimidar diante das ameaças, e acredita que deve haver uma mobilização das autoridades para que se avance na aprovação de uma lei que puna, com rigor, os crimes de ódio em Portugal. “Acredito ser fundamental expor essa situação, pois ela representa também uma afronta ao exercício do jornalismo e à liberdade de imprensa”, frisa.

Para Stefani, quando esse tipo de ameaça é normalizado, todos se tornam reféns. “Por isso, é importante que os brasileiros se organizem cada vez mais e cobrem das autoridades portuguesas medidas concretas contra a xenofobia e o racismo. O mesmo vale para o governo brasileiro, que tem acompanhado de perto o aumento da violência contra imigrantes em Portugal”, afirma.

Ela acrescenta, ainda, que imigrantes como ela construíram vidas no país. “Contribuímos para o desenvolvimento de Portugal e fazemos parte da sociedade. Por isso, merecemos ser tratados com respeito e dignidade”, reforça. O advogado Camillo Júnior, que representa a jornalista, diz que o que se sabe até agora é que o extremista responsável pelo perfil Bruno Silva nas redes vive em Vila Real, no Norte de Portugal.

Repúdio

Em nota oficial, a Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP) repudiou as ameaças de morte feitas, por meio das redes sociais, à correspondente do Ópera Mundi. “A AIEP cobrará das autoridades portuguesas que ajam com rigor no sentido de coibir esses ataques a jornalistas e a quaisquer cidadãos, independentemente de sua origem, raça ou credo. Em uma nação democrática, que preza pelos valores humanistas, não pode haver espaço para a intolerância”, assinala.

Para a associação, os jornalistas não devem se intimidar diante dos intolerantes. “O jornalismo sério é ferramenta vital para enfrentar a onda de desinformação. Portugal, segundo estudo do Observatório Europeu dos Meios de Comunicação Digitais (EDMO), que faz o monitoramento mensal dos temas usados pelos disseminadores de conteúdos falsos, tornou-se o epicentro de fake news da Europa quando o tema é a imigração”, complementa a nota da AIEP.

Ao ser comunicada pela AIEP sobre as ameaças de morte à jornalista Stefani Costa, a assessoria de imprensa do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assegurou que vai informá-lo sobre o ocorrido. O Presidente tem sido um defensor da presença de imigrantes em Portugal e vem alertando o país para os riscos dos movimentos que estimulam a intolerância.