26/06/2026
Entrevista por Luiz Paulo Lima, diretor de Igualdade Racial da ABI

João Da Costa, empresário moçambicano, fala sobre os 51 anos de independência de seu país e o legado histórico deixado pelo seu avô Samora Machel.
João, como é herdar um legado liderado pelos avós revolucionários e humanistas Samora, Josina e Graça Machel?

É uma honra imensurável carregar um legado histórico que transcende gerações. Ter a trajetória de Samora, como parte da minha identidade representa uma riqueza humana, política e moral que me inspira diariamente.
Ao olhar para a história, percebo que muitos dos ideais pelos quais lutou — como a independência, a dignidade do povo africano, a valorização da educação e a emancipação social — continuam actuais e exigem permanente compromisso. Mais do que um privilégio, herdar este legado significa assumir uma grande responsabilidade.
Sinto que a minha missão é dar continuidade a esse compromisso, contribuindo para o combate ao analfabetismo, às desigualdades sociais e a todas as formas de exclusão. Defendo igualmente o fortalecimento da educação, da ciência, da inovação e do conhecimento como instrumentos de libertação e desenvolvimento dos povos.
Ter como referência um humanista, pan-africanista e líder visionário como Samora Machel é motivo de profundo orgulho e, acima de tudo, um permanente chamado ao serviço do continente africano.
De que forma a sua geração se engajou na luta politica de reconstrução do país pós-revolução .
A luta da minha geração assume hoje uma dimensão predominantemente económica e de desenvolvimento. Se a geração da independência conquistou a liberdade política, cabe à nossa geração consolidar a independência econômica de Moçambique.
O nosso compromisso consiste em encontrar soluções inovadoras, incorporar novas tecnologias e desenvolver modelos capazes de agregar valor aos recursos naturais do país. Não podemos continuar a exportar matéria-prima sem transformação e sem gerar riqueza para a população moçambicana.
Acreditamos numa economia baseada na industrialização, na inovação, na bioeconomia e na transformação produtiva. O verdadeiro desenvolvimento sustentável será alcançado quando conseguirmos transformar os nossos recursos em produtos de elevado valor agregado, criando emprego, conhecimento, competitividade e prosperidade para as futuras gerações.
Moçambique completa 51 anos de independência. O seu expertise esta direcionado para os estudos socioeconômicos pelo mundo. Qual o retrato que faz sobre seu país que enfrenta profundos contrastes entre as desigualdades e o potencial desenvolvimento.?
Moçambique possui condições naturais para se tornar uma das maiores potências agrícolas e logísticas da África Austral. A sua localização geoestratégica, a abundância de recursos naturais, o potencial agrícola e a riqueza do seu capital humano colocam o país numa posição privilegiada para liderar cadeias de valor regionais e estabelecer fortes relações comerciais, particularmente com os mercados asiáticos.
No entanto, esse enorme potencial ainda não se traduz plenamente em desenvolvimento económico e inclusão social. Precisamos de políticas públicas mais eficientes, capazes de impulsionar a industrialização, fortalecer o sistema educativo, estimular a inovação, por isso apresenta o ambiente favorável para o investimento e o empreendedorismo.
Defendo igualmente um modelo económico que valorize as comunidades rurais e as classes mais desfavorecidas, pois são elas que movimentam a economia real e promovem a circulação da riqueza. O acesso ao crédito, à educação, à tecnologia e à capacitação produtiva deve ser entendido como investimento estratégico e não como custo.
Ao mesmo tempo, o fortalecimento das instituições democráticas e a consolidação da independência entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário constituem pilares fundamentais para garantir estabilidade, segurança jurídica e confiança dos investidores. Acredito que, reunindo essas condições, Moçambique poderá iniciar a mais promissora etapa da sua história em termos de crescimento sustentável e desenvolvimento inclusivo.
O que o Brasil representa nessa sua trajetória pessoal e as relações institucionais.e intercâmbio cultural entre os dois países?
O Brasil representa, para mim, um parceiro estratégico na construção de uma nova agenda de cooperação entre os países do Sul Global, especialmente entre nações unidas pela língua portuguesa, por fortes afinidades culturais e por interesses comuns de desenvolvimento.
Vejo o período de 2026 a 2032 como uma oportunidade histórica para aprofundar as relações entre Brasil e Moçambique, promovendo intercâmbios de conhecimento, inovação, investimento, educação, indústria e desenvolvimento tecnológico.
A minha trajectória é estadia no Brasil permite-me construir pontes institucionais sólidas, ampliar redes de cooperação e compreender o enorme potencial existente para o fortalecimento das relações económicas entre os dois países. Ficando cá até novembro, acredito que essa aproximação pode gerar alianças sustentáveis e duradouras, capazes de transformar conhecimento em oportunidades, investimentos em desenvolvimento e ideias em impacto económico real.
Mais do que uma experiência pessoal, considero esta missão uma oportunidade de contribuir para a construção de uma parceria estratégica que beneficie ambos os povos e fortaleça a cooperação Sul-Sul como instrumento de crescimento, prosperidade e desenvolvimento sustentável.