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Em seu centenário de morte, Irineu Marinho segue como referência da modernização do jornalismo


21/08/2025


Por Nelson Gobbi, em O Globo

Foto: Brun/Acervo Roberto Marinho

Um dos pioneiros do jornalismo moderno no Brasil, Irineu Marinho usou toda a experiência em redações de periódicos como O Fluminense, Diário de Notícias, Gazeta de Notícias e A Tribuna para fundar um dos noticiários mais inovadores do início do século XX, A Noite, em 1911. Repetiria a dose 14 anos depois, com a criação do GLOBO, mas sua morte prematura em 21 de agosto de 1925, aos 49 anos, apenas 23 dias após a publicação do primeiro número do jornal, o impediria de ver o sucesso do novo empreendimento, e de que forma transformaria não só a forma de levar notícias aos leitores mas a própria sociedade brasileira, nas décadas seguintes.

No centenário de sua morte, o filho de imigrantes portugueses nascido em Niterói, em 19 de junho de 1876, que se iniciara no ofício no jornal estudantil O Ensaio e, aos 15 anos, já trabalhava como suplente de revisor no Diário de Notícias, em 1891, na então capital federal, continua uma referência na transformação do jornalismo vivida entre o final do século XIX e o início do XX. O antigo modelo de negócios, herdado dos tempos do Império, atrelava a sobrevivência dos periódicos à relação com determinados grupos políticos. Em centros como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, contudo, já se apontava para uma sustentabilidade baseada na relação com o leitor e, por conseguinte, nas vendas dos exemplares.

A sua geração de jornalistas também sinalizava uma outra mudança de perfil nas redações, com a figura do repórter, que buscava a notícia diariamente nas ruas e a levava de forma ágil e objetiva ao leitor, ganhando o protagonismo antes desempenhado por escritores responsáveis pelos chamados “artigos de fundo”, comuns na imprensa oitocentista, e que tinham nos periódicos uma fonte complementar de renda.

Essas inovações serviram de base para o lançamento de A Noite, em 18 de julho de 1911, periódico que apostava numa edição vespertina (publicada após as 18h) com os principais fatos ocorridos ao longo do dia, e aos quais os leitores dos demais matutinos da cidade só teriam acesso horas depois. Tendo em sua equipe 12 companheiros de redação da Gazeta de Notícias e A Notícia, Irineu Marinho investiu no noticiário local, interesse direto da população que crescia, graças ao fluxo em direção à então capital, e mudava a cara da cidade. Estas histórias são citadas no segundo volume de “Histórias dos jornais no Brasil — 1840-1930”, de Matías Molina (1937 -2025), recém-lançado pela Editora Contexto com o apoio do Núcleo Celso Pinto de Jornalismo do Insper.

— O jornalismo acompanhava as transformações do país com a República, e a nova cena política da sua capital — observa Humberto Saccomandi, coordenador do Núcleo Celso Pinto de Jornalismo, do Insper, e colunista do Valor Econômico. — Essa nova mídia se adapta à cobertura deste centro de poder mais democrático, ainda que disputado por oligarquias, em relação aos tempos do Império. A vida na cidade e as disputas políticas influenciam o jornalismo, ao mesmo tempo que são influenciadas por ele.

Além do protagonismo do factual em relação aos artigos de opinião e uma linha editorial que visava a independência partidária, A Noite também investiu na parte visual, mantendo no time de ilustradores e chargistas de sua primeira página nomes como Seth (Álvaro Marins), J. Carlos, Raul Pederneiras e Julião Machado — experiência que seria repetida anos depois no GLOBO. A relação com o leitor e a vida na cidade — ao menos até 1914, quando o noticiário internacional passa a disputar as manchetes mais constantemente, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial — transformou A Noite em um grande êxito comercial, chegando a tiragens de mais de cem mil exemplares.

A mudança na figura do repórter seria evidenciada, entre outros fatores, pela criação, entre 1903 e 1904, do Círculo de Repórteres (tendo o jornalista entre seus fundadores), que, em 1908, serviria de base para a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), como destaca o livro “Irineu Marinho — Imprensa e cidade” (2012, Globo Livros), de Maria Alice Rezende de Carvalho.

— O Irineu teve uma influência grande na profissionalização dos trabalhadores de jornal e nas mudanças pelas quais a atividade passou. Conhecendo as transformações na imprensa na Europa e nos Estados Unidos, ele entendeu a reportagem como o filão mais atrativo ao leitor, por ser ágil e associada aos acontecimentos da cidade — aponta Maria Alice, professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio. — Outros pontos importantes eram a sua relação com a vida cultural de uma cidade como o Rio e uma concepção bem moderna, naquele início de século, do que deveria ser o Brasil, um país mais plural, popular, de características mais democráticas.

Pioneiro na vida cultural

A influência de A Noite na vida cultural da cidade pode ser medida por episódios como a inspiração para o que foi considerado o primeiro samba gravado no país, “Pelo telefone” (1916), de autoria atribuída a Donga e Mauro de Almeida. A “roleta na Carioca”, citada numa das versões da letra original, teria origem numa reportagem de 1913, na qual os jornalistas Eustachio Alves e Castelar de Carvalho forjaram uma jogatina em plena rua, para evidenciar a permissividade das autoridades cariocas com as apostas. Donga voltaria às páginas do diário, ao lado de Pixinguinha e os demais integrantes dos Oito Batutas, na campanha movida pela Noite contra o preconceito racial sofrido pelo conjunto, desde o seu início, em 1919.

A atuação de Irineu Marinho não se limitava à redação, com investimento em novas meios, como o cinema, por meio da sociedade na produtora Veritas Fim, em 1917, e o selo Empresa de Romances Populares, que editava textos publicados em capítulos no jornal, como o romance Numa e a ninfa, de Lima Barreto. Sua relação com o meio literário, musical e teatral também levou à fundação do Retiro dos Artistas, em 1918, em parceria com o ator Leopoldo Fróes.

— Mesmo sendo mais reservado, Irineu sempre esteve atento ao espírito do seu tempo. Artistas frequentavam a redação e dedicavam peças a ele, assim como também recebia por lá os ranchos e os cordões no pré-carnaval — detalha Christiane Pacheco, supervisora executiva do Acervo Roberto Marinho, cujo portal História Grupo Globo mantém documentos e fotos de Irineu disponíveis para consulta. — Já era um reconhecimento do carnaval da população negra, da Zona Portuária, que O GLOBO encamparia depois com os desfiles das escolas de samba, a partir de 1933.

Problemas de saúde

Abalada por problemas pulmonares, renais e hepáticos, a saúde de Irineu Marinho se agravaria nos quatro meses de prisão no quartel da Ilha das Cobras, em 1922, por ordem do presidente Epitácio Pessoa, sob acusação de colaboração com o Movimento Tenentista, pela cobertura do jornal da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Em 1924, seguiu com a mulher, Francisca Pisani, os cinco filhos e amigos para uma temporada na Europa, a fim de recuperar-se de uma cirurgia na pleura.

Após nove meses, a temporada europeia teve fim com a notícia de que o fundador havia perdido o controle de A Noite para o sócio, Geraldo Rocha, em fevereiro de 1925, após uma mudança estatutária feita com outros acionistas. Quatro meses depois, Irineu Marinho lançaria O GLOBO, tendo na equipe 33 jornalistas que o acompanharam do antigo jornal. Menos de um mês depois, há exatos100 anos, seria vitimado por um infarto. Roberto Marinho (1904-2003), o primogênito, preferiu deixar o comando do novo diário a Eurycles de Matos, amigo de confiança do pai, e ganhar experiência em diferentes áreas da empresa. Até que, em 1931, com a morte de Eurycles, assumiu o controle do jornal, nos anos iniciais de constituição do Grupo Globo.

O GLOBO em terceiro volume

Lançado poucos meses após a morte do autor, o jornalista Matías Molina, aos 87 anos, em abril deste ano, o segundo volume de “Histórias dos jornais no Brasil” tem um capítulo dedicado à Noite, com uma citação à fundação do GLOBO. Este último terá um capítulo próprio no terceiro volume da série deixada por Molina, ainda sem previsão de publicação.

— O terceiro volume vai cobrir os jornais de 1925 até recentemente, abrangendo o centenário do GLOBO. Molina deixou um material bastante adiantado, e um jornalista que já acompanhava o projeto irá atualizar — adianta Humberto Saccomandi. — É uma pesquisa muito aprofundada, à qual ele dedicou toda a sua vida.