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Guguta Brandão: dos anos de chumbo à prisão dos golpistas


05/12/2025


Por Henrique Brandão, primeiro-secretário do Conselho Deliberativo, em Fundação Astrogildo Pereira

À direita, Guguta e Henrique Brandão

Ipanema lembrava uma cidade do interior, em meados dos anos de 1960, quando Guguta e Darwin Brandão se mudaram para lá. No bairro, predominavam casas de muro baixo e ruas calmas.  Os poucos prédios tinham, no máximo, quatro andares. Foi em um desses que o casal foi morar, numa cobertura na Rua Redentor.

Seria apenas um apartamento simpático, a poucos metros da praia, perto de endereços da boemia carioca.
Mas, ali, no topo de um prédio simples, vivia-se intensamente a atmosfera de resistência à ditadura e se discutia política e cultura daqueles tempos, que se refletem até hoje na vida brasileira.

O apartamento foi abrigo de clandestinos perseguidos pela ditadura e também era palco de festas memoráveis, frequentadas por jornalistas e políticos de variadas tendências – desde que fossem de oposição à ditadura –, cineastas, artistas plásticos, teatrólogos, compositores, músicos e alguns empresários progressistas.

A convivência era democrática, mesmo que as posições políticas, eventualmente, fossem divergentes. A legião de amigos era grande. Em seu livro Ela é carioca – uma enciclopédia de Ipanema, Rui Castro cita alguns dos frequentadores assíduos do pedaço.

A qualquer hora do dia, entravam e saíam [do apartamento] Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Teresa Aragão e Ferreira Gullar, Millôr Fernandes, Thiago de Mello, Wilma e Ziraldo, Mary e Zuenir Ventura, todo o Cinema Novo (…) Fernando Gabeira, Milton Temer, Hélio Pellegrino, Ana Maria Machado, Ceres e Flavio de Aquino, Steve e Marília Kranz”

Talvez por falta de espaço, o escritor não mencionou Ana Arruda e Antônio Callado, Neném e Moacyr Werneck de Castro, Lúcio Rangel, Darcy Ribeiro, Elsie e Noel Nutels, Célia e Poty, Antônio Houaiss, Djanira e Motinha, Martha Alencar e Hugo Carvana, Albino Pinheiro, Magaly e Sergio Cabral, Lucy e Luiz Carlos Barreto – todos frequentadores dos almoços, jantares e reuniões políticas.  A lista é enorme e, com certeza, faltam vários além dos citados acima.
Eu, que sou o primogênito dos três filhos do casal – os outros são Rodolfo e João Pedro –, tenho algumas lembranças da época. Muitas vezes, em conversas entre nós, Guguta, de memória invejável, relata fatos acontecidos há muitos anos.

O casamento de Martha Alencar e Hugo Carvana, em 1968, por exemplo, ganha destaque nas lembranças, não só pela amizade com Martha, que se estreitou com o tempo, mas por um motivo prosaico: Carvana, tricolor fanático, convidou o time do Fluminense para a festa. Nós, os garotos da casa, rubro-negros de berço, não deixamos passar em branco tal heresia: surgimos na sala empunhando a bandeira do Flamengo. Saímos orgulhosos de nossa “reação” clubística. Guguta, hoje, lembra rindo desse episódio.

No quarto que ficava no andar de cima, nos fundos da cobertura, muita gente boa ficou escondida nos anos de chumbo. O jornalista Milton Temer foi uma delas.  Outras, saíram dali direto para o exílio.

Miguel Arraes também dormiu nesse quarto, nos anos de 1980, quando já havia voltado ao país e era então governador de Pernambuco. Compadre de minha mãe – era padrinho do meu irmão mais novo – preferia, muitas vezes, ficar ali, conversando com Guguta, do que ir para um hotel.

Muitos encontros clandestinos aconteceram naquele cafofo. Nós, os filhos, moleques na época da ditadura, éramos orientados a não subir ao andar de cima enquanto aconteciam as conversas políticas. Marighela, por exemplo, era um que, de vez em quando, aparecia disfarçado. Guguta comentou, muitos anos depois, que a peruca e o casaco de couro mal ajambrados que ele usava mais chamavam atenção do que funcionavam como disfarce: “parecia um roqueiro!”, relembra.

Na segunda metade dos anos de 1970, no começo da chamada abertura política, meus pais, juntos com outros amigos, fundaram o Grupo Casa Grande, responsável por promover debates políticos sobre temas até então proibidos. Foi lá, no teatro que deu nome ao grupo, sediado no Leblon, que o então sindicalista Lula, hoje presidente da República, falou para um auditório lotado, ávido para ouvir a liderança do movimento dos trabalhadores do ABC.
Quando voltou do exílio para se operar de um câncer no pulmão, em 1978, Darcy Ribeiro foi recepcionado na casa de Ipanema. No mesmo ano, pouco tempo depois, quem partiu de forma definitiva foi meu pai, vítima de infarto. Darcy fez o discurso à beira do túmulo.

Guguta seguiu adiante. Continuou ativa na luta pela redemocratização do país. Foi uma das organizadoras do Centro Brasil Democrático (Cebrade), entidade que tinha o arquiteto Oscar Niemayer como presidente.
Além de encontros que debatiam a redemocratização, o Cebrade organizou os shows do 1º de Maio, quando milhares de pessoas se reuniam para assistir, no Riocentro, a um encontro de estrelas da MPB, capitaneados por Chico Buarque. Foi em um desses shows, em 1981, que aconteceu o famigerado atentado a bomba que acabou matando um sargento e ferindo um capitão do exército, responsáveis pelo ato terrorista.

Na campanha pelas Diretas Já (1984), convocada por Dr. Ulisses Guimarães, Guguta teve atuação decisiva, coordenando a participação de artistas e intelectuais nos palanques Brasil afora.

Logo depois, derrotada a emenda das Diretas Já, emendou na campanha de Tancredo Neves, coordenando os palanques que ajudaram na mobilização para a eleição do político mineiro pelo Colégio Eleitoral.

Na casa de Ipanema sempre se respirou muita cultura. Não apenas pelos convidados que frequentavam o local, mas pelo apreço que meus pais sempre tiveram pelo fazer artístico. Nada de academicismo, pelo contrário. Nas artes plásticas, os artistas populares imperavam. Nas paredes, pinturas e gravuras de amigos: Djanira, Caribé, Poty, Thereza Miranda, João Câmara, Lula Cardoso Alves, Rubens Gerchman, entre outros.

Nos toca-discos, rodava muita MPB, samba, baião e jazz. Minha mãe sempre teve ótima memória musical. É dessas pessoas para quem os amigos ligam para dirimir dúvidas sobre letras.

Não à toa, aprendemos a gostar de Carnaval em casa. Meus pais saíam na Banda de Ipanema desde o primeiro ano. Fomos levados aos desfiles das escolas de samba quando ainda não se pensava na construção da Passarela do Samba. Foi Guguta, a meu pedido, que ligou para o Aldir Blanc a fim de pedir autorização para usar o nome de um personagem de seu livro de crônicas, o “Esmeraldo Simpatia é Quase Amor”, em nosso bloco de Carnaval, que completou 40 carnavais em 2024.

Por toda essa atividade, ela foi convocada por José Aparecido de Oliveira, amigo de longa data, para ser a representante do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro, cargo que exerceu também durante a gestão de Antônio Houaiss.

Mais importante, no entanto, é a legião de amigos e amigas que cultiva e que a têm em alta conta. Algumas amizades são das antigas, de pessoas companheiras de viagem de longo curso. Outras, mais recentes, são cultuadas de maneira natural.  O que une a todos, idosos e jovens, das mais distintas origens, é a alegria de viver contagiante de Guguta.

Por isso, ela está aí: frequenta teatro, não perde uma estreia no cinema, participa de discussões políticas com vivo interesse (detesta Bolsonaro e seus asseclas) é afetuosa e recebe o carinho das amigas e amigos que a rodeiam.

Em dezembro de 2025, ela faz 90 anos. Junte-se a nós na festa do dia 7 e muitos vivas para a Guguta!

A ABI parabeniza Guguta Brandão pelos seus 90 anos.