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Em Fórum na China, ABI homenageia Gustavo de Lacerda e denuncia pressão dos EUA ao Brasil


19/07/2025


A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) participou do Fórum de Jornalistas da Iniciativa Cinturão e Rota de 2025, realizado de 15 a 19 de julho, em Nanchang, capital da província de Jiangxi, e Ganzhou, ambas no leste da China. A entidade foi representada pelos jornalistas Jamile Barreto, 2ª secretária do Conselho Deliberativo e integrante da diretoria de Igualdade Étnico-Racial, e Marcelo Auler, conselheiro do Conselho Deliberativo. A presidente da FENAJ, Samira de Castro, e o primeiro-secretário, Moacy Neves, também participaram.

O Fórum teve como tema Promovendo Diálogos Civilizacionais e a Modernização Global com o Poder dos Jornalistas e reuniu cerca de 100 representantes de associações de jornalistas e veículos de mídia de mais de 50 países. A programação incluiu discursos de abertura, diálogos paralelos e encontros entre jornalistas e autoridades locais.

Em seu discurso, em nome da ABI e dos jornalistas da América Latina, Jamile Barreto prestou homenagem a Gustavo de Lacerda, fundador da ABI, em 1908. “Gostaria de começar destacando a figura de Gustavo de Lacerda, fundador da ABI, em 1908. Ele foi mais do que um visionário ao criar uma instituição que se tornou pilar da liberdade de imprensa e da democracia no Brasil — foi também um ancestral que inspira, especialmente a nós, pessoas negras, a ocupar espaços de poder e a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Seu legado transcende o tempo, e é com esse espírito que me apresento”, afirmou.

O jornalista Marcelo Auler, em suas falas em duas mesas-redondas, uma só com jornalistas latino-americanos e do Caribe e outra com jornalistas de todo o mundo, enfatizou o papel histórico da ABI na defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos. Destacou que a entidade teve atuação fundamental na luta contra a ditadura militar no Brasil e pela anistia aos opositores do regime. Auler chamou atenção ainda para a coincidência significativa de estar na China num momento em que o Brasil enfrenta ameaças por parte do governo dos Estados Unidos, motivadas, entre outras coisas, pela sua aproximação com a China.

” Nesses dias em que estamos aqui, a soberania nacional do Brasil foi atacada pela administração de Donald Trump. Entendemos que essa pressão se deve à nossa participação nos Brics. Isto também está por trás do pedido de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que tentou em 2022 dar um golpe de Estado para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo isto contando com o apoio das grandes big techs, o que me faz alertar a todos da necessidade de que todos os países decidam regular essas plataformas que tentam impor suas posições ideológicas a todos os lados”, afirmou.

Ele lembrou que a cúpula dos BRICS foi recentemente sediada no Rio de Janeiro e afirmou que, a partir desse encontro, o presidente norte-americano Donald Trump passou a ameaçar o Brasil com uma taxação de 50% sobre suas exportações. Para o jornalista, essa retaliação é uma resposta direta ao avanço dos investimentos chineses no Brasil e em toda a América Latina.

Auler defendeu, também,  que cada país tenha soberania para elaborar suas próprias legislações voltadas à regulamentação das big techs, que controlam o fluxo de informações por meio de algoritmos, livre de pressões externas.

Em seu discurso principal, He Ping, presidente da Associação de Jornalistas de Toda a China, afirmou que os veículos de mídia de todo o mundo devem construir pontes para o entendimento mútuo, a fim de promover a prosperidade civilizacional e amplificar a voz da paz para garantir a continuidade das civilizações.

Andrei Kryvasheyeu, presidente rotativo da Rede de Jornalistas da Iniciativa Cinturão e Rota, conclamou jornalistas de diversos países a fortalecerem a colaboração para reduzir mal-entendidos e preconceitos por meio de uma cobertura objetiva.

A programação incluiu visitas a museus, indústrias de alta tecnologia, um parque e duas mesas-redondas: a primeira com jornalistas latino-americanos e a segunda reunindo profissionais de imprensa de todos os países participantes.

Leia a integra do discurso de Jamile Barreto:

Senhoras e senhores,

Permitam-me compartilhar algo pessoal: estar aqui hoje, neste momento tão simbólico da minha trajetória, representa mais do que uma realização profissional — é também a celebração de um caminho marcado por desafios, escolhas corajosas e, sobretudo, por encontros transformadores.

Sou filha de muitas vozes. Trago comigo as histórias da minha família, especialmente das mulheres negras que me antecederam e que, mesmo sem acesso aos espaços que hoje ocupo, sonharam este futuro comigo. Cada passo meu é sustentado por esse legado de resistência e esperança.

Chegar até este momento não foi simples. Esta presença é fruto de um percurso que desafia estatísticas e rompe barreiras impostas a tantas mulheres negras. Estar neste palco, é mais do que uma conquista individual — é a afirmação de que novos caminhos estão sendo abertos para toda uma geração.

Essa jornada só foi possível graças ao apoio e ao acolhimento que encontrei na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Agradeço ao presidente Octavio Costa e aos jornalistas Marcos Gomes e Luiz Paulo Lima, da diretoria de Igualdade Racial da ABI, por caminharem ao meu lado e impulsionarem ações comprometidas com a diversidade e a justiça racial no jornalismo. E ao colega jornalista Marcelo Auler, que me acompanha nesta representação institucional.

Como jornalista com atuação voltada aos direitos humanos e à equidade racial, tenho buscado contribuir para uma comunicação mais plural, consciente e comprometida com a transformação social.

Hoje, minha voz ressoa como marca de uma presença histórica, mas também como expressão de competência, preparo e compromisso com uma comunicação capaz de transformar realidades.

É uma honra representar a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e, sobretudo, como mulher negra, representar os jornalistas da América Latina neste importante Fórum de Jornalistas da Iniciativa Cinturão e Rota. Este evento, que promove “diálogos civilizacionais e a modernização global com o poder dos jornalistas”, é uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre o papel essencial da comunicação no mundo contemporâneo.

Gostaria de começar destacando a figura de Gustavo de Lacerda, fundador da ABI em 1908. Ele foi mais do que um visionário ao criar uma instituição que se tornou pilar da liberdade de imprensa e da democracia no Brasil — foi também um ancestral que inspira, especialmente a nós, pessoas negras, a ocupar espaços de poder e a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Seu legado transcende o tempo, e é com esse espírito que me apresento.

Este fórum, embora recente, já se consolida como espaço fundamental para pensarmos a comunicação como ponte entre civilizações. Ela é, sem dúvida, ponto de partida e de chegada. É por meio dela que compartilhamos saberes, construímos legados e conectamos passado, presente e futuro.

E é neste ponto que entra a dimensão geopolítica da comunicação. Vivemos um momento histórico em que a descentralização das narrativas globais se torna urgente. Durante muito tempo, poucas vozes — oriundas de centros hegemônicos — determinaram o que era notícia, o que era importante, o que merecia ser lembrado. No entanto, estamos testemunhando o surgimento de uma nova arquitetura da informação: mais multipolar, mais representativa, mais fiel à diversidade do mundo real. Descentralizar a comunicação é também descentralizar o poder. É permitir que América Latina, África, Ásia e outras regiões historicamente silenciadas não apenas relatem suas histórias, mas também moldem o imaginário global.

Reforço a importância da educação como caminho para uma sociedade mais justa, equânime e diversa. Comunicação e educação andam juntas — porque não basta informar, é preciso formar. Precisamos preparar as futuras gerações para ocupar com dignidade os espaços que estamos abrindo. O legado que deixamos só se sustenta quando encontra continuidade em pessoas prontas para ampliá-lo.

Deixo, portanto, uma mensagem a todos os jornalistas da América Latina, da China e do mundo: este fórum é uma oportunidade singular para definirmos, juntos, os próximos passos rumo a uma comunicação mais acessível, inclusiva e transformadora. Que sejamos capazes de erguer pontes reais entre os povos, reconhecendo nossas diferenças como riquezas e o diálogo como caminho para a paz.

Encerro com um agradecimento especial à China, que, por meio de sua história e cultura, nos ensina a importância de conectar passado e presente, transformando saberes ancestrais em bases sólidas para um futuro próspero e consciente. Que essa sabedoria nos inspire a promover o diálogo, valorizar a educação e fortalecer a comunicação como forças capazes de mudar o mundo.

Muito obrigada.