02/12/2025
Com informações do Blog Letras, do G1 e do Metrópoles

Neste dia 2 de dezembro é celebrado o Dia Nacional do Samba.
Há duas histórias que se cruzam e que explicam o motivo das homenagens ao gênero nesta data, uma no Rio e a outra em Salvador.
No começo dos anos 1960, uma época em que a música norte-americana entrava com muita influência no Brasil, pairava no ar um certo receio diante de uma suposta ameaça aos gêneros nacionais. Neste contexto, entre os dias 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962, foi realizado no Palácio Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, o Congresso Nacional do Samba, que teve participação de nomes como Pixinguinha, Aracy de Almeida e Almirante. Na presidência do evento, estava Edison Carneiro, folclorista brasileiro e responsável pela redação da Carta do Samba, que indicou o dia 02 de dezembro como Dia Nacional do Samba.
A Carta do Samba versava sobre a importância do gênero, bem como sobre a necessidade de manter suas características fundamentais. Na página 6 do documento, um aviso: “foi sancionada lei estadual declarando o dia 2 de dezembro Dia do Samba, à base de projeto apresentado, nesse sentido, pelo deputado Frota Aguiar”. O objetivo do documento era exatamente criar a data comemorativa em homenagem ao samba
No entanto, o projeto foi vetado pelo então governador do estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro), Carlos Lacerda.
A criação do Dia Nacional do Samba no Rio de Janeiro
Quase dois anos depois do Congresso, no dia 27 de junho de 1964, o veto do Projeto de Lei foi rejeitado pelo Plenário. O Projeto, então, foi transformado na Lei nº 554, publicada no Diário Oficial do estado da Guanabara, no dia 7 de agosto de 1964.
O dia 02 de dezembro foi indicado para celebração do samba pelo Presidente da Associação Brasileira das Escolas de Samba, Servan Heitor de Carvalho.
Segundo ele, naquela data, em 1962, teriam início os ensaios das escolas de samba do Rio de Janeiro, para o Carnaval do ano seguinte. Então, seria uma forma de dar a “largada” nessa festa maravilhosa, que faz parte das nossas vidas e encanta a todos que visitam o nosso país.
Enquanto isso, em Salvador…
De forma paralela, em Salvador, capital da Bahia, os políticos também estavam mexendo os pauzinhos para celebrar esse estilo musical tipicamente brasileiro.
Assim, no dia 3 de outubro de 1963, o vereador Luiz Monteiro da Costa, sabendo da repercussão do Congresso Nacional do Samba e da Carta do Samba, apresentou o Projeto de Lei n° 164, instituindo o dia 02 de dezembro como Dia Nacional do Samba. A data também marca o início das festas populares na capital baiana.
Além disso, ele incluiu também a informação de que a data seria uma homenagem ao compositor Ary Barroso, após a entrega do título de Cidadão da Cidade de Salvador. Para quem não sabe, Barroso foi o criador da icônica canção Aquarela do Brasil.
Algumas curiosidades sobre o Dia Nacional do Samba
O Dia Nacional do Samba é uma data comemorativa oficial em dois estados brasileiros. Exatamente por isso, existem algumas curiosidades e lendas em torno dela. Olha só:
Em Salvador, existe um mito de que o dia 02 de dezembro foi escolhido para celebrar esse estilo musical, porque, nesse mesmo dia, no ano de 1940, Ary Barroso visitou a cidade pela primeira vez.
No Segundo Congresso Nacional do Samba, em 1963 no Rio de Janeiro, enquanto os sambistas cariocas aguardavam a aprovação da lei, um novo documento foi escrito, com a recomendação de que o samba fosse “festejado com o repicar de tamborins, com o ‘roncar’ das cuícas e com uma alvorada de 21 batidas no surdo”.
Trem do Samba
A 30ª edição do Trem do Samba acontece neste sábado (6), com saída do trem mais animado do Rio de Janeiro da Estação Central do Brasil às 18h04 em direção a Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio.
O evento, que integra o calendário oficial da cidade, terá shows gratuitos em quatro palcos e mais de 20 rodas de samba espalhadas pelo bairro, além da tradicional batucada que celebra o samba em vários dos vagões que seguem em direção à Zona Norte do Rio.
Idealizado por Marquinhos de Oswaldo Cruz, o Trem do Samba nasceu em 1995 como uma homenagem à história de Paulo da Portela e outros sambistas que, no início do século XX, usavam o trem para escapar da repressão policial e se reunir nos subúrbios cariocas.
Desde então, o evento tornou-se símbolo de resistência e celebração das raízes do samba, sempre próximo ao Dia Nacional do Samba, comemorado em 2 de dezembro.
A festa começa com um esquenta na Central do Brasil, onde se apresentam Marquinhos de Oswaldo Cruz, as velhas guardas de Mangueira, Salgueiro, Império Serrano e Vila Isabel, além de nomes como Gisa Nogueira, Didu Nogueira, Osmar do Breque, Ernesto Pires e Marquinhos Sathan.
O embarque no trem acontece às 18h04, mediante troca de um quilo de alimento não perecível pelo bilhete. Ao longo do trajeto e nas ruas do bairro, mais de 20 rodas de samba garantem a festa até a madrugada.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2017/s/M/BmEqxOTZWJdSm3JUiPNg/supervia-trem-do-samba-2012.jpg)
Gênero ainda enfrenta disparidade de espaço e cachês no Réveillon
O Dia Nacional do Samba convida a refletir sobre o espaço que o gênero ocupa hoje no país. Em 2025, a data coincide com os 30 anos do polêmico Réveillon de 1995, quando Paulinho da Viola, único sambista convidado para se apresentar em Copacabana (RJ), recebeu um cachê muito inferior ao dos demais artistas.
Enquanto nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento e Chico Buarque ganharam R$ 100 mil pelas participações no Tributo a Tom Jobim, Paulinho recebeu apenas R$ 30 mil.
O episódio, lembrado no livro Projeto Querino: um Olhar Afrocentrado Sobre a História do Brasil, de Tiago Rogero, ficou marcado como um caso emblemático de preconceito contra o samba. Rogero relata que uma das organizadoras chegou a culpar o próprio artista pelo cachê baixo, sugerindo que sua estrutura de trabalho era menos profissional que a dos demais músicos. Para quem acompanhou a época, a situação explicitou a desvalorização sistemática do gênero e de seus representantes.
Três décadas depois, dados oficiais das maiores festas públicas de Réveillon do país — Salvador, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro —mostram que o samba segue ausente das curadorias governamentais em boa parte do Brasil.
Em Salvador, apenas três das 83 atrações dos últimos três Réveillons eram do samba. Em Brasília, o gênero não aparece desde 2022, quando o Fundo de Quintal se apresentou — no período analisado, apenas uma das 13 atrações era do samba. Em São Paulo, o panorama é semelhante: nas festas da Avenida Paulista, apenas três das 21 atrações contratadas representavam o gênero, todas escolas de samba.
Para o professor e crítico cultural Acauam Oliveira, a explicação é histórica, racial e estrutural. “O projeto das elites brancas sempre foi eliminar e expulsar os negros das esferas de produção de cultura e de conhecimento. O que se observa é um projeto deliberado de marginalização dos produtores de arte negra”, afirma.
O único contraponto aparece no Rio de Janeiro, onde o samba ocupa um lugar orgânico na vida cultural. Entre 2022 e 2024, 18 das 21 atrações do Réveillon carioca eram do gênero. Segundo Oliveira, isso ocorre porque a cidade respira samba — algo que não se repete em outras regiões. “Em várias cidades, o samba não faz parte do cotidiano. Esse também é um elemento, além da questão racial, que ajuda a explicar a diferença de valorização.”
Cachês desiguais
A presença tímida do samba fora do Rio não é o único problema. O tratamento financeiro dado aos sambistas também demonstra desigualdade.
Em São Paulo, por exemplo, as escolas de samba receberam cachês muito inferiores aos artistas principais dos eventos. Em 2022, a Mancha Verde ganhou R$ 30 mil — 23 vezes menos que Leonardo, atração de R$ 700 mil. Em 2023, a Mocidade Alegre recebeu R$ 22 mil, enquanto Chitãozinho e Xororó receberam R$ 797 mil. Em 2024, a diferença se repetiu: R$ 38 mil para a Mocidade Alegre, contra R$ 1,1 milhão para Bruno & Marrone.
Para o historiador Luiz Antonio Simas, embora o samba tenha sido valorizado como gênero ao longo do tempo, o sambista continua subestimado mercadologicamente.
“A legitimação do gênero musical não correspondeu à legitimação do artista”, diz. Ele ressalta que o samba é construído majoritariamente por populações que historicamente sofreram maior precarização no Brasil, o que influencia diretamente a negociação dos cachês. “O sambista, em geral, vai negociar valores que não estarão à altura dos cachês milionários pagos para artistas de outros gêneros.”
“Projeto nacional de desvalorização”
Quando os sambistas finalmente recebem valores maiores, surgem questionamentos públicos e políticos. Foi assim em 2014, quando Seu Jorge recebeu R$ 700 mil para se apresentar no Réveillon de Copacabana, valor que gerou incômodo nos bastidores. Em 2015, a contratação de Zeca Pagodinho por R$ 800 mil levou a oposição na Câmara Municipal a pedir justificativas formais. Em 2017, Alcione foi alvo de críticas e até de investigação do Tribunal de Contas do Distrito Federal por receber R$ 300 mil em Brasília.
Para Acauam Oliveira, isso evidencia um projeto nacional de desvalorização. “Estamos diante de uma elite profundamente predatória, que transformou a cultura brasileira em um grande latifúndio musical, controlado por interesses privados articulados ao agronegócio.”
Simas concorda e acrescenta que a disputa simbólica também pesa. “Há uma desqualificação que opera sobre a herança afro-brasileira. O avanço do agronegócio nesses grandes eventos, como o Réveillon, desloca espaços que antes pertenciam ao samba.”
Mesmo diante das barreiras institucionais, o gênero segue vivo e pulsante. O samba passa por um momento de expansão, com novas rodas, projetos comunitários e artistas que se voltam novamente às raízes. O Dia do Samba, instituído pela Lei nº 554 em 1964, segue como lembrança anual da força do estilo que molda identidades e sociabilidades Brasil afora — ainda que a festa oficial não o celebre como deveria.
Para Simas, o samba não depende dos grandes palcos para existir. “A cultura do evento muitas vezes é rasa. Mas o samba é o evento da cultura. É uma maneira de se posicionar na vida, de construir identidade e proteção social. O sambista é um construtor do que há de melhor no processo civilizatório brasileiro”, conclui.
As melhores frases de samba
Grandes sucessos do samba com os melhores trechos em frases memoráveis. Aproveita e salva as suas preferidas para usar nas redes sociais!
Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio, sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia — Noel Rosa, Feitio de Oração
Quem samba na beira do mar é sereia — Clara Nunes, O Mar Serenou
Eu faço samba e amor até mais tarde — Chico Buarque, Samba e Amor
Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar — Chico Buarque, Quando o Carnaval Chegar
O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor, o grande poder transformador — Caetano Veloso, Desde Que o Samba É Samba
Esse samba é da antiga, de gente amiga, vem sambar — Candeia, Samba da Antiga
O samba se faz prisioneiro pacato dos nossos tantãs, o banjo liberta da garganta do povo as suas emoções — Jorge Aragão, Coisa De Pele
Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba, de Samba, pra gente sambar — Alcione, Não Deixe o Samba Morrer
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar — Novos Baianos, Brasil Pandeiro
Canta Canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar — Martinho da Vila, Canta Canta, Minha Gente
Eu vou festejar, vou festejar o teu sofrer o teu penar — Beth Carvalho, Vou Festejar
Samba agoniza mas não morre — Nelson Sargento, Agoniza Mas Não Morre
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé, manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar, sua hora vai chegar! — Grupo Revelação, Tá Escrito
O castigo que eu vou te dar é o desprezo, eu te mato devagar — Velha Guarda da Portela, Você me Abandonou
Explode, coração, na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro contagiando, sacudindo essa cidade — Salgueiro, Peguei Um Ita No Norte
Mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom — Fundo de Quintal, O Show Tem Que Continuar
Pé do meu samba, chão do meu terreiro, mão do meu carinho, glória em meu outeiro. Tudo para o coração de um brasileiro — Mart’nália, Pé do Meu Samba
O tambor tá batendo é pra valer, é na palma da mão que eu quero ver — Almir Guineto, Caxambu
Meu coração tem mania de amor, amor não é fácil de achar — Paulinho da Viola, Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida
Um samba que mexe o corpo da gente e o vento vadio embalando a flor — Dona Ivone Lara, Sonho Meu
Eu nasci com o samba e no samba me criei do danado, do samba nunca me separei — Dorival Caymmi, Samba da Minha Terra
É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe — Vinicius de Moraes, Samba da Bênção
E o povo na rua cantando é feito uma reza, um ritual. É a procissão do samba abençoando, a festa do divino carnaval — Clara Nunes, Portela na Avenida
Quero assistir ao Sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver — Cartola, Preciso Me Encontrar
Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz — Gonzaguinha, O Que É, O Que É