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De malas prontas para divulgar ‘O Agente Secreto’, Kleber Mendonça Filho lamenta: ‘Vou perder o carnaval’


29/01/2026


Por Lucas Salgado, em O Globo

Foto: Divulgação / Victor Jucá

Entre aeroportos e tapetes vermelhos. É como Kleber Mendonça Filho tem dividido a maior parte de sua agenda nos últimos meses. O cineasta pernambucano de 57 anos está na estrada desde maio do ano passado, quando “O agente secreto” deixou o tradicional Festival de Cannes com os prêmios de melhor direção e melhor ator, para Wagner Moura. Já ali, o filme se colocou como forte pretendente ao Oscar ao despertar a atenção da distribuidora americana Neon, responsável pelas premiadas campanhas de obras como “Parasita” (2019) e “Anora” (2024).

Após meses de participações em festivais internacionais, sessões especiais pelo mundo, premiações em eventos como o Critics Choice Awards e o Globo de Ouro, na semana passada “O agente secreto” recebeu nada menos do que quatro indicações ao Oscar — nas categorias melhor filme, filme internacional, ator e direção de elenco —, igualando o recorde brasileiro de “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, em 2004. Nos últimos dias, o longa também acumulou novas indicações no Bafta e no César. Em tempo: a Netflix anunciou que o filme estará no streaming, em data ainda não divulgada, assim que a janela de exibição nos cinemas terminar.

Em contagem regressiva para o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, no dia 15 de março, em Los Angeles, Kleber Mendonça Filho conversou com o GLOBO sobre o sentimento pós-indicações, as próximas etapas da campanha e sobre o próximo projeto.

Oscar

“O Oscar sempre me pareceu algo tão distante… Eu juntava os amigos aqui em casa para assistir à cerimônia, a gente tirava onda, bebia, comia, como se fosse um entretenimento. Agora, eu tenho um filme na cerimônia. Acompanhava e fazia matérias sobre o Oscar quando era jornalista. Lembro de quando o (Martin) Scorsese ganhou pela primeira vez (em 2007, por ‘Os infiltrados’), foi muito especial. Eu era criança quando ‘Touro indomável’ perdeu para ‘Gente como a gente’. Depois, como um jovem adulto, fiquei impressionado como ‘Os bons companheiros’ poderia perder para um filme como ‘Dança com lobos’. Então, quando ele ganhou foi muito especial.”

“Tem sido um momento muito intenso. O filme tem construído uma carreira de muito prestígio desde Cannes. Mas, de fato, é como se existisse uma narrativa com tudo indo em direção ao Oscar. Quatro indicações é algo muito expressivo. Na última semana vivemos uma tempestade de mídia, com forte repercussão em todo o mundo. O filme se aproxima dos dois milhões de espectadores no Brasil. Na França, ultrapassamos agora a marca de 400 mil ingressos vendidos. Amanhã, vamos expandir o circuito nos Estados Unidos para 294 cinemas. Nesta semana, o filme chega à Austrália e à Itália. Em fevereiro, estreia na Inglaterra e em vários outros países da América Latina. Tudo isso está dando muita energia para o filme.”

Retorno aos EUA

“Estou indo para o Festival de Roterdã e depois retorno aos Estados Unidos. Agora que o filme está indicado, eu, Emilie (Lesclaux, produtora), Wagner e Gabriel (Domingues, diretor de elenco) vamos marcar presença em eventos, apresentar sessões, participar de debates e de jantares. É uma continuação do que vínhamos fazendo, mas ao mesmo tempo uma nova etapa, que eu não conheço. Ainda estou me inteirando da situação aos poucos, mas devemos ter um mês de viagens intensas. Vou perder o carnaval, porque vai ser no final de semana do Independent Spirit Awards, mas espero conseguir voltar para casa em um momento, sei que faz parte do que faço. E uma coisa que me mantém são é pensar lá em abril e maio, quando vou começar a ler uma pilha de livros para trabalhar no próximo roteiro.”

“Toda vez que vou começar um roteiro, é uma terra desconhecida. Já aconteceu de partir para um roteiro e não conseguir, me interessar por outra coisa. Mas o filme que tenho pensado se passaria nos anos 1930, no Recife. É um desafio que quero ter. Um desafio técnico e histórico de pesquisa, de voltar mais ainda no passado e olhar para o Brasil de 90 anos atrás, em um momento muito dramático do mundo, antes da Segunda Guerra Mundial. Quero tentar investigar este filme. Tenho algumas ideias, só preciso ver este momento de ‘O agente secreto’ passar para me dedicar ao próximo.”

Trabalho no exterior

“Gosto da ideia de achar alguma coisa no exterior, mas é um exercício tão peculiar. Não acho que eu faria um filme só por fazer. É uma possibilidade fazer só pelo dinheiro, mas, para mim, é muito importante fazer um filme no qual eu realmente acredite. Para isso acontecer, é preciso um alinhamento de planetas. Trabalharia com um roteiro de outra pessoa? Teria liberdade de alterar coisas? Não sei. Até hoje, escrevi meus próprios roteiros e os filmes estão saindo exatamente como eu gostaria. Acho que essa é a grande questão. Eu teria controle sobre um filme no exterior? Não adianta eu partir para uma experiência dessas e depois o filme ser confiscado por um estúdio e eu ficar reclamando como tantos realizadores que passaram por isso na história do cinema. Tenho recebido sondagens e tido conversas, mas não sei.”

Sobre críticas

“Cresci vendo filmes do mundo inteiro, vendo Kurosawa, Fassbinder, Spielberg, Joe Dante, Cronenberg, Ken Loach, Mike Leigh e David Lean. São todos estrangeiros, mas eu entendia e estava nos filmes. Eu aprendi algo sobre a Inglaterra, sobre o Canadá, sobre os EUA, sobre o Japão. E é a mesma coisa com ‘O agente secreto’. Fico muito feliz que o filme se comunique com todos. O que me chamou muita atenção é que no Brasil algumas reações pareceram se esforçar muito para tentar expressar quase como se fosse uma reação de estranheza a um filme que é muito brasileiro. Como sempre, a reação fala mais sobre a pessoa do que sobre o filme. Toda crítica é uma autobiografia. Saíram alguns textos que falavam: ‘Não entendi, acho que é porque não sou pernambucano.’ Meu Deus do céu, é muito velho isso. Acho que isso também fala sobre as divisões que o próprio filme aponta. E é curioso que essas reações não existem no restante do mundo.”

“Ontem à noite eu vi uma coleção de suvenires e objetos relacionados ao filme totalmente piratas na Shopee. Me mandaram uma marchinha que vai estourar agora no carnaval, e que fala de Wagner, de mim e da perna cabeluda. Dona Tânia (Maria) fazendo publicidade da Heineken. A quantidade de discussões, de editoriais que estão saindo no Brasil, intelectuais de todos os tipos, estudantes, professores, acadêmicos, eu gosto de tudo isso. É a maior prova de que uma obra de expressão artística é feito uma fogueira de São João. Pegou e agora vai. Estou fascinado e gosto muito do que está acontecendo com o filme.”

Distribuidora americana

“A Neon é uma excelente distribuidora. As pessoas que trabalham lá são cinéfilas, o que é muito importante. São pessoas que amam, conhecem e entendem de cinema. Eles têm o Ryan Werner (presidente de Cinema Global), que é um grande personagem, um grande conhecedor de como funciona o mercado. Ele que montou a estratégia e o mapa de onde eu, Emilie e Wagner, e outros membros do elenco e da equipe, deveríamos ir. As decisões que eles tomam, todas me parecem inteligentes e corretas. Confiamos neles. Não tivemos nenhum problema, é uma relação muito boa e de muito trabalho. Me sinto bem cuidado trabalhando com eles.”

Rivais

“Estou orgulhoso de fazer parte de uma lista de filmes como os deste ano. É uma safra muito boa. ‘Foi apenas um acidente’, do Jafar Panahi, ‘Sirât’, do Oliver Laxe, ‘Valor sentimental’, do Joachim Trier, ‘Uma batalha após a outra’, do Paul Thomas Anderson, que acho um belo filme americano. Fico me perguntando se no futuro uma parte desses filmes serão lembrados como uma safra especial.”

Melhor elenco

“Ver ‘O agente secreto’ colocado ali entre os dez indicados a melhor filme é bem prestigioso, ainda mais com uma safra de grandes filmes americanos e internacionais. Mas acho que a indicação pelo elenco é muito significativa. Gosto muito da ideia de um filme ser um panorama humano. Sou um cineasta brasileiro e tenho o interesse de colocar o elemento humano do Brasil na tela. Embora o filme tenha Wagner como um claro protagonista, ele interage com um país inteiro de pessoas. São mais de 60 personagens com falas.”

‘Não escrevo textão’

“Há mais de dez anos que uso o Instagram como pesquisa e como diário de observações, e mais recentemente comecei a pensar que talvez exista ali um fragmento do Kleber jornalista. Eu não escrevo textão, às vezes posto uma foto apenas com um emoji. Gosto do Instagram como um diário publicável das coisas que observo. Num ano normal, num dia normal, ninguém comenta quando eu posto uma planta do meu jardim, mas, é claro, quando você vai ao Globo de Ouro e tira uma foto do troféu no meio da mesa, isso vira quase um evento cultural, mas as minhas redes não deixam de ser o que sempre foram. Acho o Instagram mais carinhoso. O X é terra selvagem, onde você precisa ser mais seco e objetivo. Não perco o tempo batendo boca com ninguém, bloqueio em três segundos. As redes também são uma demonstração do que está acontecendo no mundo e oferecem informações interessantes para futuras histórias.”

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