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CEMDP identifica destino de pianista brasileiro desaparecido na Argentina


13/09/2025


Por Tatiane Correia, no GGN

Reprodução

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) anuncia neste sábado (13/09) a descoberta das circunstâncias em torno do desaparecimento do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior.

O brasileiro desapareceu em Buenos Aires na madrugada do dia 18 de março, poucos dias antes do golpe de estado que derrubaria María Estela Martinez Perón da presidência da Argentina e instalaria uma ditadura militar no país.

Na ocasião, Francisco Tenório saiu de madrugada do Hotel Normandie em que estava hospedado e nunca mais fora visto.

A partir de informações da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), por ordem da Cámara Federal de Apelaciones en lo Criminal y Correccional de la Capital Federal de Buenos Aires, foi possível estabelecer a confirmação da morte e o destino do corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior.

Para isso, foram comparadas as impressões digitais de um cadáver de um homem morto por disparos de arma de fogo, encontrado em um terreno baldio na região de Tigre, próxima a Buenos Aires, no dia de 20 de março de 1976.

Contudo, não se sabe ainda se será possível exumar o corpo do Cemitério de Benavídez, na capital argentina, para comparação de amostra genética.

Francisco Tenório Júnior, na década de 1970 já era um dos pianistas mais respeitados por seus pares no Brasil, participando de vários festivais e turnês no país e no exterior, além de ter trabalhado com grandes nomes da música brasileira.

No ano de 1976, Tenório acompanhava os músicos Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul, que contava com shows na Argentina.

TENÓRIO JR, A VERDADE REVELADA
Por Marcus Veras, em Quarentena News
Em 1976 o pianista brasileiro Tenório Júnior, 36 anos, que acompanhava Vinícius de Moraes numa turnê em Buenos Aires saiu para comprar cigarros num bar perto do hotel. Era um homem alto, cabelos negros, barba cerrada, e foi detido por uma patrulha de militares argentinos que buscavam “subversivos”. Torturado por seus captores, acabou fuzilado quando descobriram que ele não passava de um músico brasileiro. Tenório tinha visto o que não podia ser visto e a ordem era não deixar testemunhas. Foi em vão a luta da família e dos muitos amigos em busca de notícias de seu paradeiro.
A embaixada brasileira fechou-se em silêncio, certamente por estar vinculada à Operação Condor, que reunia Brasil Chile, Uruguai e Argentina em um esforço comum para capturar e eliminar “subversivos”. Nos anos 1990, um militar argentino em fuga passou pelo Brasil e contou que sabia qual teria sido o destino dele, entre as hipóteses seu corpo teria sido jogado no Rio da Prata como aconteceu com muitos militantes.
Tenório era um pianista excepcional, e seu único disco solo “Embalo”, está no Spotify para quem quiser ouvi-lo. Acompanhou muitos artistas brasileiros sempre com um suingue incomparável. Seu inexplicável desaparecimento causou uma profunda tristeza na família, nos amigos e nos fãs. Em 1978, estive em Buenos Aires, e a pedido do meu editor, o querido João Santana, tentei apurar alguma coisa. Na embaixada brasileira me botaram para fora, na polícia o delegado me recomendou voltar para casa rapidamente. E no aeroporto de Ezeiza levei uma dura de dois canas que pareciam clones do Videla.
Muitos anos depois, o cineasta espanhol Fernando Trueba, amante da música brasileira, produziu o filme de animação “Atiraram no Pianista”, onde conta de maneira sensível, mas sem firulas, a triste história deste mestre da música brasileira que estava no lugar errado na hora errada. Quem quiser ver está no YouTube e no Prime. Eu recomendo muito.
Neste sábado, chegaram notícias de Buenos Aires dando conta de que seus restos mortais foram reconhecidos. O corpo de Tenório foi largado em um terreno baldio no bairro de Don Torcuato e enterrado como indigente. A Equipe Argentina de Antropologia Forense, que há 30 anos busca desaparecidos durante a ditadura militar, avisou à família – Tenório deixou cinco filhos.
Como cantou um dia Ednardo, “eles são muitos, mas não podem voar”. A ditadura argentina, com a cumplicidade da brasileira, matou Tenório Jr., mas sua música estará sempre entre nós.