Banner 2
Banner 3
Banner 1

Brasil vai aderir a processo na ONU em que África do Sul acusa Israel de genocídio em Gaza


15/07/2025


Por Luísa Marzullo e Renato Vasconcelos, em O Globo

 Foto: Reprodução X

O Brasil decidiu aderir formalmente, ainda esta semana, à ação movida pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em que o país africano acusa o governo israelense de cometer genocídio contra a população palestina na Faixa de Gaza. A medida corresponde a uma escalada na abordagem brasileira sobre o conflito — que vinha demonstrando contrariedade aos desdobramentos no enclave principalmente em declarações políticas, principalmente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que já provocou desgastes na relação com o Estado judeu.

O chanceler Mauro Vieira anunciou a decisão em entrevista à emissora catari Al-Jazeera. Segundo o ministro das Relações Exteriores, a decisão decorre da escalada dos ataques israelenses contra a população civil palestina nos últimos meses.

— Os últimos desdobramentos da guerra nos levaram à decisão de nos juntarmos à África do Sul na Corte Internacional — declarou Vieira.

Na prática, ao aderir formalmente à ação, o país se torna parte interessada no processo, podendo apresentar memoriais escritos, sustentar argumentos orais e participar das fases processuais seguintes. Do ponto de vista político, a adesão posiciona o Brasil ao lado de países que têm criticado duramente a condução militar de Israel em Gaza e que defendem maior responsabilização internacional diante de crimes de guerra. Irlanda, Espanha, México, Colômbia, Bolívia, Líbia, Turquia, Maldivas e a Palestina também já pediram adesão ao processo.

O movimento contrasta com potências ocidentais, principalmente os EUA, que têm endossado a ação militar de Israel. Washington recentemente aplicou sanções contra a relatora especial da ONU para os territórios palestinos, Francesca Albanese, por acusações reiteradas de genocídio contra Israel. A iniciativa brasileira, contudo, pode ser interpretada como uma tentativa de resgatar uma tradição diplomática baseada na defesa do direito internacional e da solução pacífica dos conflitos.

A ação originalmente proposta no CIJ pela África do Sul, em dezembro de 2023, ainda não tem data para julgamento de mérito. A petição inicial, de 84 páginas, acusa Israel de violar a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, tratado multilateral assinado após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de evitar episódios como o Holocausto.

À época, Pretória argumentou que as declarações públicas de autoridades israelenses, incluindo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, desumanizavam a população do enclave e demonstravam a motivação de destruir os palestinos de Gaza “como parte da identidade nacional, racial e étnica mais ampla do país”.

Em contrapartida, Israel acusou os sul-africanos de se prestarem a um papel de “braço jurídico do Hamas”, rejeitando a acusação de genocídio, e afirmando que o atentado lançado pelo grupo terrorista em 7 de outubro de 2023 é que teria uma motivação genocida. Também apontou que o processo configuraria difamação.

Escalada brasileira

O presidente Lula declarou apoio à ação movida pela África do Sul em janeiro de 2024, após apelos da embaixada palestina no Brasil. O movimento consolidou uma posição que o petista já havia começado a desenhar em outubro do ano anterior, quando acusou pela primeira vez Israel de estar cometendo um genocídio em Gaza.

— É muito grave o que está acontecendo no Oriente Médio, não se trata de discutir quem está certo e errado, quem deu o primeiro tiro, quem deu o segundo, o problema é que não é uma guerra, é um genocídio que já matou quase 2 mil crianças que não tem nada a ver com essa guerra — disse Lula durante um evento no Palácio do Planalto em 25 de outubro de 2023, dezoito dias após o atentado do Hamas.

A retórica de Lula não mudou desde então, apesar de manifestações críticas por parte da oposição no Brasil, e de movimentos civis judaicos. Na semana passada, ao receber o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender publicamente a criação do Estado Palestino e criticou a postura de grandes potências em relação ao conflito.

— Assim como o Brasil, a Indonésia sempre defendeu que o diálogo é a única forma de solucionar a guerra na Ucrânia. Reconhecer o povo palestino e permitir seu ingresso na ONU é reconhecer a simetria necessária para a paz. Nunca tivemos medo de apontar a hipocrisia diante das mais flagrantes violações do nosso tempo — disse Lula.

O Ministério da Saúde de Gaza, órgão que faz parte da administração do Hamas, afirma que ao menos 58.386 palestinos, em sua maioria civis, morreram na campanha de retaliação israelense em Gaza, em dados considerados confiáveis pela ONU. O grupo palestino ainda está em domínio de 49 cativos, sequestradas durante o atentado terrorista que matou 1,2 mil pessoas, a maioria civis, em Israel. A estimativa é de que 27 estejam mortos.