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Amazônia 2025 – Visões e caminhos


10/11/2025


Por Maria Lucia Martins, da Comissão de Meio Ambiente da ABI

No período pré-COP 30, as visões do movimento ambiental e da academia direcionam-se para temas comuns, com aspectos urgentes que necessitam ser tratados sem achismos e sim com base em estudos de especialistas e as demandas locais, tanto da Amazônia Legal quanto de toda a Amazônia, com situações comuns que ultrapassam as fronteiras políticas. Dentre estes temas estão: Água, Mineração e estudos sobre petróleo na Margem Equatorial. Durante 15 dias, realizei uma série de entrevistas com diversas fontes em Belém: duas delas com especialistas do NUMA- Núcleo de Meio Ambiente da UFPA-Universidade Federal do Pará, que se apresentará em parceria com a SEMAS-Secretaria de Meio Ambiente do Estado na COP 30, e outra com especialista em mineração, titular do NAEA- Núcleo de Altos Estudos da mesma universidade, referência no conhecimento sobre a região Norte do Brasil.

A COP 30 é cenário complexo de negociações entre países participantes, com resoluções por consenso, caminho aberto durante o G20, realizado no Rio de Janeiro, cuja Carta Final reitera o compromisso dos países do grupo com as principais diretrizes do Acordo de Paris, antecipando diálogos sobre alterações do clima e suas consequências, especialmente as que afetam as populações mais pobres. No contraponto das conversas e negociações oficiais, se reúne em Belém a Cúpula do Povos, como ocorreu na Rio-92, no campo da UFPA. A  Pré-Cúpula dos Povos do Nordeste do Pará, reunida em Abaetetuba-PA na Jornada Somos a Floresta destacou a necessidade de mudar as causas estruturais que estão provocando a crise climática cobrando o respeito à Convenção 169 da OIT-Organização Internacional do Trabalho que consagra a Consulta Prévia, Livre e Informada e de Consentimento dos povos indígenas, comunidades quilombolas, agroextrativistas, de agricultura familiar e demais comunidades tradicionais quanto à medidas que ameaçam território onde vivem.

As soluções de acesso à água potável como os poços artesianos enfrentam a frequente contaminação dos rios e dos lençóis freáticos. O prof. Ronaldo Lopes Rodrigues Mendes, doutor em Desenvolvimento Socioambiental integrante da equipe do NUMA, prof. Permanente do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local da Amazônia e presidente da Associação Brasileira de Captação e Manejo de Água de Chuva (ABCMAC) (2020 a 2024), lidera o Grupo de Pesquisas Aproveitamento de Água de Chuva na Amazônia, Saneamento e Meio Ambiente (GPAC Amazônia) desde 2007. O aproveitamento da água de chuva, segundo ele, é um sistema mais econômico e sustentável do que a perfuração de poços artesianos, e vem sendo usado em diversas comunidades e territórios.

 Ronaldo Lopes Rodrigues Mendes

A captação e distribuição de água, existente há 144 anos em Belém, ainda representa um desafio por ser a maior cidade abaixo da linha do Equador e segunda mais populosa da região Norte do Brasil, com maior região metropolitana da Amazônia. Por este motivo, Ronaldo Mendes vem se dedicando ao desenvolvimento de sistemas de captação de água de chuva de vários portes: “A água da chuva é tão boa quanto outras águas e tem qualidades melhores do que as águas de alguns rios. Outro aspecto é que a água do rio pode ser poluída facilmente por esgoto, fossa, resíduos, e a água da chuva não. Então, de uma forma geral, a água da chuva é mais adequada para uso, do que a água do rio”, ele explica.  Ele reforça que qualquer água precisa ser tratada antes de ser destinada ao consumo humano. “A primeira tecnologia que a gente fala em termos de aproveitamento de água da chuva é a barreira sanitária para não ter contaminação. Com o descarte do primeiro milímetro de água da chuva, 90% da sujeira que estava na atmosfera não vai para a caixa d’água. O abastecimento pode ser sem consumo de energia elétrica, se posicionada a caixa de captação no alto, o que permite o acesso às torneiras por gravidade. Se a intenção for abastecer uma indústria ou um comércio, é possível fazer um sistema em que a água da chuva fique armazenada em um reservatório enterrado, como cisterna, por exemplo, para posterior bombeamento

NUMA-publicação com download gratuito: https://www.numa.ufpa.br/index.php/livros/item/117-agua-cidade-e-governanca

Mineração, contaminação e riscos

Armin Mathis atual diretor do NAEA, com décadas de experiência em Ciência Política e Pesquisa em Desenvolvimento, especialmente da Amazônia e mineração, atua como docente permanente no PPG em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido e no PPG de Gestão Pública.

Armin Mathis

Segundo ele, até os anos 1970, os militares mantinham a ideia de vender esta riqueza mineral da Amazônia, alimentando visão ambígua em relação ao garimpo e favorecendo a exploração intensiva do subsolo brasileiro. Serra Pelada é um exemplo disto. Desde então, todo o garimpo tem dono.

A corrida do ouro tinha como propósito também o pagamento da dívida externa. Em 1983, os processos de fechamento de minas, direcionou garimpeiros para a área do rio Tapajós. A abertura da Transamazônica foi fator decisivo, mudando a característica do garimpo, antes artesanal. Itaituba tornou-se uma das capitais do ouro da Amazônia e centro do garimpo ilegal na região, com degradação ambiental e impactos diretos em terras indígenas.  A chegada de sulistas, afirma Armin, trazendo um investimento local maior, aumentou o preço do ouro internacionalmente, levando à exaustão das jazidas.  A extração antes feita de forma artesanal e não industrial, sem planejamento de mina, com sondagem, é a grande diferença, pois o maquinário presente no garimpo ilegal é quase industrial. Também há diferença no beneficiamento, após a retirada do ouro mais pesado, preso no cascalho, e o transporte do cianeto é muito perigoso, quando este entra em contato com a água podendo se tornar letal.

O fechamento de minas no Brasil constitui um problema, sobretudo quando se pensa nos danos ambientais. Uma jazida tem vida útil de 50 anos, não porque ainda não exista ouro, mas porque a exploração não é considerada mais rentável, por causa dos custos serem maiores que os ganhos. Estas áreas são entregues aos Estados. Alguns garimpeiros que estiveram nestas áreas antes retornam e houve uma cooperativa pioneira, em 1995, no processo de retomada, outras se formaram em Mato Grosso. Em outros países, há um Fundo seguro, usado quando acontece fechamento irregular. No caso de garimpos de extração e beneficiamento, é comum fazer reaproveitamento de área já trabalhada, o que significa que novas frentes podem estar situadas em áreas antes exploradas.

No garimpo manual somente se consegue 2 a 3 m3 por dia, o que torna mais difícil a rentabilidade e aumenta o preço do ouro. O poder local não tem como fazer um acompanhamento dos múltiplos garimpos. Não houve uma discussão sobre a capacidade técnica para o licenciamento e para a fiscalização.  A pesquisa melhorou, mas a fiscalização enfrenta maneiras de ser burlada. E existe envolvimento do garimpo com a política.

Indígenas no garimpo não constitui novidade, estes têm o direito legal de explorar e há conflitos internos: uns são a favor, outros contra, porque também ocorrem arrendamentos para exploração. A vida do garimpo não difere da na roça, principalmente para quem vem do nordeste. O garimpo está poluindo o solo e a água, trazendo fome e doenças, algumas fatais, às populações. Os indígenas, especialmente, estão restritos a se alimentarem com somente algumas espécies de peixes, menos impactadas pela contaminação dos resíduos da garimpagem de ouro. O Brasil é signatário das Convenção das Partes de Miamata sobre Mercúrio. A COP-6, realizada este ano em Genebra, cuja resolução deve ser contemplada durante a COP 30.

O preço do ouro atingiu, um patamar impensável há cinco anos. O garimpo pode proporcionar ganhos que nenhum outro emprego é capaz, e a transição destes trabalhadores só é possível para o setor de Construção Civil porque a maioria não tem formação que ultrapasse o segundo grau, lembra Armin Mathis.

A pesquisadora Ana Laíde Barbosa, mestre em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais e do Movimento Xingu Vivo,alerta que o rio Xingú é federal e que o canal de derivação, feito para diminuir o lago e não atingir áreas indígenas, como mitigação, desagua em turbina da usina, que opera atualmente a fio d´água. No período de seca, a condição de gerar energia é pequena, e a barragem provocou a diminuição de pescado por conta da piracema. A vazão é de 16mil m3 por segundo, quando o ideal seria de 20 mil m3. Recentemente, o Ibama se retirou do processo de licenciamento da Belo Sun, mineradora canadense, e a SEMAS-Secretaria de Meio Ambiente, não o sustentou, pois após a aprovação da PL da Devastação diz a pesquisadora “acreditamos que a Belo Sun tem expectativa de iniciar a operação”. A situação é complexa, porque o Rio tem contaminação por mercúrio somada com a por agrotóxicos, atingindo os afluentes do Tapajós, Xingu e Madeira. Crescem os conflitos ambientais na Região e o aparato estatal não vem se se pronunciando em defesa efetiva dos povos que vivem nestes territórios.

 Ana Laíde Barbosa

NAEA-Guia de Estudos Amazônicos 1973-2022: https://naea.website/editora-naea/Livros/isbn/978-85-7143-223-9.pdf

Garimpo de Ouro na Amazônia:
cadernos.ensp.fiocruz.br/ojs/index.php/csp/article/view/8456/18850

Belo Sun, situação:  https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/pa-projeto-de-mineracao-volta-grande-belo-sun-ameaca-modos-de-vida-e-sobrevivencia-de-povos-indigenas-ribeirinhos-e-outras-comunidades-tradicionais/

Itaituba, “a cidade pepita”..: https://share.google/JKstlgNuzjleFCBy3

Margem Equatorial e exploração de petróleo

Em entrevista, o engenheiro químico do NUMA e doutor em engenharia Petróleo; membro permanente dos programas de pós-graduação em Engenharia Química e Geofísica, recém integrante da Academia Brasileira de Ciências, Pedro Tupã Pandeva Aum revelou que a exploração de petróleo na Margem equatorial é complexa e vem sendo estudada há anos.

 Pedro Aum

Ele atua no campus da UFPA em Salinópolis, no qual desde 2015 está incluída a implantação dos cursos de Bacharelado em engenharia de Exploração e Produção de Petróleo e Engenharia Costeira e Oceânica. Os grupos de pesquisas visam a melhorar a produção de poços de petróleo, além dos estudos de redução das emissões de dióxido de carbono-CO2, por meio do armazenamento geológico, fundamental à redução do efeito estufa. O foco principal tem sido em rochas de reservatórios do pré-sal brasileiro, responsáveis por mais de 70% da produção nacional. Na província de exploração, localizada a cerca de 300 kms. da costa, em águas que chegam a 2.000 mts de profundidade há grandes acumulações de petróleo leve, de excelente qualidade e com alto valor comercial, o que coloca o Brasil numa posição estratégica em relação ao comércio de energia global. Os experimentos realizados no LCPetro precisam reproduzir condições similares às destes ambientes. Desde 2017, Pedro Tupã acompanha várias plantas, também nas bacias de Campos e outras áreas sensíveis, de exploração em águas profundas. Ele considera que é difícil ter lado a lado o ambiental e o técnico, mas é importante entender que o desenvolvimento é necessário. No mundo todo condena-se o uso de plásticos e, também, se critica a manutenção do uso de fósseis.

O LCPetro, instalado no campus de Salinópolis, é um dos poucos laboratórios no país com estrutura adequada para realizar experimentos de escoamento de fluidos reativos em rochas, nas condições encontradas no pré-sal. A exploração, situada à 650 mts de Manaus, na Província Petrolífera de Urucum desde 1986, persiste até hoje, dando um exemplo da capacidade técnica brasileira e prova de que a exploração de óleo e gás pode ser feita em harmonia com o meio ambiente.

O detalhamento dos estudos que vêm sendo realizado em Salinópolis incluem vários tipos de mapeamento, modelos matemáticos que precisam ser alimentados com informações de qualidade, para atender possível demanda na Margem Equatorial.

No petróleo você só sabe quando perfura, procuramos formações em estrutura geológicas com características de armazenar petróleo.  Estamos na fase estudos, prevendo a possibilidade de 5meses para perfuração, explica PedroTupã, que considera ter a ANP importante papel nos leilões e na regulação do Setor.

Ciência, petróleo e preservação ambiental: https://www.beiradorio.ufpa.br/2023/156-167-junho-julho-e-agosto/709-ciencia-petroleo-e-preservacao-ambiental

Petróleo na Margem Equatorial- Academia Brasileira de Ciências
: https://www.abc.org.br/wp-content/uploads/2025/08/PME.pdf

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