Octávio Costa também relembrou a convivência profissional com o homenageado. “Embora não tenhamos atuado exatamente na mesma área, fomos colegas de redação no Jornal do Brasil. Também nos reencontramos quando eu era diretor da edição carioca de Brasil Econômico e ele trabalhava no DIA. Ao longo desses anos, acompanhei de perto o trabalho dele e as muitas histórias que ajudou a contar”, destacou.
Entre os presentes no lançamento também estava o contraventor Ailton Guimarães Jorge, mais conhecido como Capitão Guimarães. Ele afirmou que decidiu participar do evento motivado pela curiosidade de conhecer, pelas palavras de Luarlindo Ernesto da Silva, histórias vividas ao longo de mais de sete décadas no jornalismo.
“Vim justamente para comprar o livro e conhecer essas histórias de 70 anos atrás contadas por quem as viveu. Gosto muito da história do Rio Antigo e quero ver se o livro retrata aquilo que guardo na memória sobre essa época. É importante preservar esses bastidores das crônicas policiais do Luarlindo”, afirmou.

O jornalista Jorge Antônio Barros, especializado em cobertura policial e segurança pública, destacou a influência decisiva de Luarlindo na formação de diversas gerações de repórteres. Os dois trabalharam juntos na redação do Jornal do Brasil, onde Jorge Antônio Barros chegou como estagiário, em 1981. Segundo ele, Luarlindo se tornou rapidamente uma referência profissional e humana para os jornalistas mais jovens.

“Eu trabalhei com ele na redação do Jornal do Brasil, onde cheguei como estagiário em 1981 e aprendi muita coisa. O Luarlindo sempre foi um exemplo de profissional, de repórter, apaixonado pela profissão, que transmitia para a gente esse amor, essa dedicação e esse sangue correndo nas veias pelo bom jornalismo”, afirma.

Barros lembra que, em uma redação repleta de grandes nomes, Luarlindo se destacava pela generosidade e pela disposição em compartilhar experiências com os colegas em início de carreira. “Entre tantos monstros sagrados da reportagem, o Luarlindo era uma mãe para o jovem repórter, para o repórter iniciante. Ele sentava, contava histórias do passado e não tinha nenhum problema em revelar seus fracassos, assim como seus sucessos”, recordou.

Uma das lembranças mais marcantes citadas por Jorge Antônio Barros remete a um incêndio ocorrido na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, no fim da década de 1980. Mesmo de folga, Luarlindo demonstrou o mesmo faro jornalístico que o tornou conhecido ao longo da carreira.

“O Luarlindo estava de folga e passava pela Marquês de Abrantes quando aconteceu um incêndio. Várias pessoas se jogaram pela janela. Essa história ficou marcada porque mostrava exatamente o espírito de repórter que ele tinha, sempre atento e pronto para acompanhar os acontecimentos”, contou.

Trajetória de sucesso

As inúmeras histórias vividas pelo repórter em mais de 60 anos de atuação renderam reconhecimento e admiração. No Jornal do Brasil, ele ganhou dois prêmios Esso por equipe. Um pelo trabalho realizado na cobertura do atentado ao Riocentro, em 1981, e outra por uma série de reportagens que o jornal fez com três repórteres morando em comunidades do Rio contando como a vizinhança vivia e sua realidade.

Luarlindo Ernesto teve o primeiro emprego no jornal Última Hora aos 14 anos. Na época, fazia ligações para as delegacias durante a madrugada para ‘caçar’ pautas. Depois de uma passagem pelo Exército, ele foi admitido, aos 19, como repórter e cuidava do que acontecia no Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon.

Histórias do Luar

Assalto ao restaurante Fiorentina

“Eu tinha uma namorada que era casada e eu fui no restaurante Fiorentina para mostrar que era exuberante e tal. Só que o restaurante foi assaltado pelo Lúcio Flávio, que estudou comigo, servimos juntos ao exército. O Lúcio Flávio havia acabado de fugir, uma fuga espetacular do Presídio Frei Caneca. Havia uma ideia de que talvez ele tivesse sido sequestrado pelo Mariano, inimigo dele. Não se sabia se ele tinha fugido ou se estava morto, e a minha pauta era procurar pistas do Lúcio Flávio. Então, eu estava no restaurante, comecei a namorar, e ouço o barulho: ‘É um assalto’. Eu reconheci a voz, sabia que era o Lúcio Flávio. Coloquei isso no jornal? Nunca. Eu teria que dizer que o assaltante do restaurante era o Lúcio Flávio e eu estava lá com amante. Dias depois, ele é preso. No momento de uma entrevista coletiva, ele diz: ‘Nunca fui um cara violento. Só naquele dia porque o garçom foi se meter comigo. Não é não, Luar?’ Então, ele conta a história do assalto que ninguém sabia e eu coloquei no jornal como se tivesse tomado conhecimento naquele momento”.

Presente holandês

“O Fred era chefe de máquina de navio europeu, fazia transporte de gás, petróleo. Uma vez, ele passou na Holanda para carregar ou descarregar uma carga, acho que era o Porto de Roterdã, e comprou uma garrafinha do tipo bico de jaca. Mandou para a mulher e pediu para me entregar, porque tinha esquecido meu endereço. Eu estava passando de carro em frente à porta deles e ela me viu, me parou e disse que o Fred havia mandado um presente para mim. Chegando em casa, eu abri e vi o rótulo dizendo que era holandês. Nunca falei holandês nem bêbado. Mas o Fred era ‘biriteiro’ e eu também, então eu destampei e bebi. Quando ele chegou, me perguntou:

– Gostou?
– É bem forte…
– Você bebeu?
– Bebi.
– É perfume, seu maluco!Relatório da bomba no Riocentro“O Jornal do Brasil fez a melhor cobertura do atentado ao Riocentro, ganhou até prêmio. Só que a Globo conseguiu o relatório do Exército primeiro. Claro que era um relatório totalmente imparcial, mas não interessava. Toda a imprensa estava atrás. Eu estava no Jornal do Brasil durante a madrugada e, naquela época, os jornais trocavam figurinhas. Quando eu vi, mandei pararem as máquinas. Copiei até os erros, porque não tinha tempo”.

Prisão de Tommaso Buscetta

“A história começa em 1972, quando o Tommaso é preso no Paraná e deportado. Ele consegue fugir e, dez anos depois, volta ao Brasil. Não havia registro de movimentação do Tommaso no Brasil em 1982, fui eu quem localizei. Depois, fui chamado para prestar depoimento na Itália, porque também havia o processo por tráfico internacional. Eu contei só a metade para me chamarem para depor novamente. Quando eu voltei, estava em Angra e vi a notícia na televisão de que o Tommaso havia morrido. Morreu para me sacanear e não consegui voltar de graça para a Itália. Minha mulher conheceu Roma, mas eu só ia a trabalho”.