07/02/2026
A ABI participou na terça-feira (3), na sede da Procuradoria da República no Estado de São Paulo, de uma escuta ativa conduzida pela procuradora Ana Letícia Absy, responsável pelo inquérito que trata da participação do Grupo Folha no apoio aos órgãos de repressão durante a ditadura militar. O objetivo da reunião foi ouvir das vítimas e testemunhas dos atos praticados pela Empresa Folha da Manhã S. A. recomendações para as reparações devidas pela empresa a suas vítimas e à sociedade.
O ato contou com a presença de jornalistas que trabalhavam nos jornais do Grupo Folha durante o período em que a empresa colaborou materialmente com o aparelho de repressão da ditadura, e que foram presos, torturados ou humilhados com a conivência e colaboração da empresa. Entre os jornalistas vitimados estavam presentes ou participaram virtualmente da escuta ativa Rose Nogueira, José Maria dos Santos, Sérgio Gomes, Jorge Okubaro, Vicente Alessi, Edmundo de Moraes, Vilma Amaro e José Luiz Proença. Vítimas da colaboração do Grupo Folha que militavam contra a ditadura, mas não trabalharam na empresa, como André Tsutomu Ota, Ivan Seixas e Adriano Diogo, puderam se manifestar. Procuradores do Ministério Público do Trabalho, pesquisadores do papel da imprensa durante a ditadura militar também participaram da sessão
A participação das vítimas e de representantes da Fenaj, ABI, IIEP e AAPR na escuta ativa foi preparada em reunião anterior, realizada na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Nessa reunião preparatória foram relacionadas sugestões de reparação aos profissionais vitimados.

Essas sugestões foram apresentadas na sessão de ontem na Procuradoria da República pela vice-presidente da ABI, Regina Pimenta, e pelo presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Thiago Tanji, representando a Fenaj. São estas as sugestões:
1-) Reconhecimento e pedido de desculpas à sociedade na capa de todos os jornais do Grupo Folha por ter atuado para legitimar e apoiar a violência do regime (primeira página do jornal e site por três meses), com destaque para:
I-) A posição editorial de legitimação das graves violações de direitos humanos perpetradas pelo regime ditatorial;
II-) A atuação em benefício das “ações psicológicas” disseminando narrativas falsas como se verdade fossem, cumprindo um papel central e consciente de espraiamento massivo de informações equivocadas, parciais ou falsas;
III-) A presença e contratação de policiais e agentes da repressão dentro da redação e na estrutura empresarial do Grupo Folha;
IV-) O papel cumprido pelo Grupo Folha, com destaque para o jornal Folha da Tarde, como porta-voz das posições dos órgãos estatais, policiais e militares da repressão política à maioria do povo;
V-) Demissão política de jornalistas, com destaque para as demissões após a greve de 1979;
VI-) Cessão de veículos do Grupo Folha para a repressão;
VII-) Danos individuais diretos e indiretos decorrentes de tortura, prisão, morte e do desaparecimento forçado dos militantes que foram alvo dessas graves violações de direitos humanos;
2-) Financiamento de um Centro de Memória sobre Imprensa e Ditadura – vinculado ao Sindicato dos Jornalistas
3-) Financiamento de material audiovisual sobre a ditadura;
4-) Financiamento da digitalização do jornal do sindicato;
5-) Concessão de espaço no jornal Folha de S. Paulo sobre a ditadura, com destaque para matérias e histórias dos jornalistas perseguidos;
6-) Dedicar espaço periódico e de destaque em seus veículos jornalísticos (impresso e online) aos vitimados, suas entidades representativas e seus defensores para tratar de temas relacionados à ditadura militar;
7-) Pelo período de 24 anos (1964 – 1988), que o jornal coloque uma tarja ao longo do mês de março com referência à sua colaboração e cooperação com a ditadura militar.
😎 Financiamento de pesquisas independentes que versem sobre questões vinculadas à ditadura militar, dentre elas pontos como a relação entre a imprensa e a ditadura;
9-) Financiamento de bolsas de pesquisa e extensão nos temas de justiça de transição, direitos humanos, e ditadura militar para alunos negros, indígenas e quilombolas em faculdades públicas e privadas de jornalismo, em nível de graduação e pós-graduação, com o intuito de fomentar a diversidade neste campo;
10-) Abertura dos arquivos trabalhista, histórico e jornalístico do Grupo Folha para pesquisadores independentes;
11-) Uma vez esclarecido o número de vitimados, a Folha deve pedir desculpas às vítimas e aos seus familiares, bem como promover formas de indenização pelos danos morais e materiais e assistência psicológica;
12-) Divulgação da série documental ‘Folha Corrida’ de forma fixa em todos os veículos online do Grupo por ao menos três meses;
13-) Reparação coletiva via Sindicato dos Jornalistas pelas perseguições e danos coletivos diretos da Greve de 1979.