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ABI lança edição especial de boletim em Ato para lembrar os 50 anos do atentado a bomba contra a entidade


 

Para marcar os 50 anos do atentado a bomba contra a sua sede, a Associação Brasileira de Imprensa lançou uma edição especial do Boletim ABI, editada pelo conselheiro Geraldo Cantarino. A publicação reúne textos, fotografias e documentos sobre um grave episódio da escalada de violência política promovida por grupos de extrema direita durante a ditadura militar. O atentado foi lembrado em um ato nessa quarta-feira (19), no auditório do 7º andar da ABI.

Fotos: Rogério Marques

Leia aqui

https://www.abi.org.br/wp-content/uploads/2026/08/Boletim_ABI_1976_Bomba_na_ABI-13-8-2026-compressed.pdf

O atentado terrorista marcou a história da ABI. A explosão de uma bomba em 19 de agosto de 1976 destruiu dois banheiros do 7º andar, próximos à sala da presidência da entidade, provocando grandes estragos em salas vizinhas, no elevador e em dois outros pavimentos do prédio, um dos ícones da arquitetura moderna brasileira. Apesar da violência da explosão, ninguém ficou ferido. Os prejuízos foram estimados, à época, em cerca de 1 milhão de cruzeiros.

A Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a autoria do atentado em um panfleto deixado no prédio após a explosão. A organização terrorista de extrema direita acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e afirmava que a entidade havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”.

No mesmo dia, uma bomba ainda mais potente atribuída à mesma organização clandestina foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro. O artefato, no entanto, não explodiu devido a uma falha no mecanismo de detonação. Se tivesse explodido, poderia ter provocado um grande número de vítimas, já que centenas de pessoas participavam no local de uma solenidade de entrega de carteiras a novos advogados.

Uma das principais fontes para este trabalho foi a edição de julho–agosto de 1976 do Boletim ABI, publicada logo após o atentado terrorista. Preservado como documento histórico e disponível aqui, esse material permite hoje revisitar os acontecimentos, compreender a dimensão da violência praticada contra a entidade e recuperar as reações que o ataque provocou dentro e fora da ABI.

Leia aqui

https://www.abi.org.br/wp-content/uploads/2026/08/Boletim-ABI_Julho-Agosto-1976_Edicao-completa_compressed.pdf

A pesquisa realizada trouxe à tona também documentos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura militar. Entre eles, um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.

O documento impressiona pelo grau de informação de que dispunham os órgãos de segurança sobre acontecimentos, reuniões e movimentações da entidade. Esse registro ajuda, assim, a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período.

O atentado de 19 de agosto de 1976 não pode ser compreendido isoladamente: fazia parte de um ambiente de violência e intimidação política que buscava conter qualquer possibilidade de avanço das liberdades democráticas.

Ao recordar esse episódio, a ABI reafirma seus princípios mais fundamentais e o lado em que sempre escolheu estar: o da defesa da ética, dos direitos humanos, da liberdade, da democracia e da soberania nacional.

Veja a matéria do Repórter Brasíl Tarde da TV Brasil

https://youtu.be/LYDNcbL72Kk

No Ato foram entregues títulos de sócios beneméritos aos companheiros Ana Arruda Callado, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho (in memoriam), Fernando Segismundo Esteves (in memoriam), Fichel Davit Chargel, Lygia Maria Collor Jobim e Oscar Maurício de Lima Azêdo (in memoriam) e foi colocada uma placa no corredor do 7.o andar, onde explodiu a bomba.

 


Vitor Iório entrega o diploma de sócio-benemérito a Fichel Davit Chargel/Foto: Rogério Marques

 

Octávio Costa, Fichel Davit Chargel e Ricardo Moraes/ Foto: Rogério Marques

Também participaram do Ato, o advogado criminalista Márcio Donnici, que veio para a sede da ABI, logo após a bomba, e o Padre Arnaldo Rodrigues, assessor de comunicação e representante da CNBB.

Foto: Rogério Marques

O padre Arnaldo Rodrigues, leu a carta enviada à ABI pelo presidente da CNBB, dom Jaime Splenger:

Foto: Rogério Marques

” Recebo com alegria e gratidão o convite da Associação Brasileira de Imprensa e saúdo, em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sua diretoria, os profissionais da comunicação e todas as pessoas reunidas nesta ocasião.

Ao recordar os 50 anos da bomba que explodiu na sede da ABI, em 19 de agosto de 1976, recordamos também os diversos atentados cometidos contra instituições e pessoas que resistiam ao arbítrio. A memória desse período sombrio não deve alimentar ressentimentos, mas impedir esquecimentos convenientes e silêncios cúmplices. Naqueles anos, a CNBB procurou manter uma presença firme e corajosa, denunciando o terrorismo de Estado, defendendo os perseguidos e erguendo sua voz em favor da democracia, da liberdade, dos direitos humanos e da justiça social.

Celebrar essa resistência é renovar, no presente, o compromisso de jamais permitir que a violência, o medo ou o arbítrio se imponham sobre a lei, o diálogo e a dignidade humana. A lei, quando necessária, pode e deve exercer sua força, mas uma força legitimada pela justiça, orientada por princípios éticos e morais e sempre colocada a serviço da proteção da pessoa e do bem comum.

A história da ABI está profundamente ligada com a defesa da liberdade, da democracia e do direito da sociedade à informação. Uma missão que se torna ainda mais necessária no presente, quando o debate público é ameaçado pela desinformação, pela intolerância e por novas lógicas de inimizade que transformam diferenças em divisões e adversários em inimigos. A palavra, que tem o poder de aproximar e construir pontes, também pode ferir e separar; a informação, que deveria esclarecer e iluminar, pode ser distorcida para confundir, manipular e alimentar conflitos. Por isso, comunicar não é apenas transmitir fatos ou compartilhar informações. É um compromisso ético com a verdade, uma responsabilidade diante da dignidade de cada pessoa e um serviço permanente ao bem comum.

A Igreja reconhece e valoriza o trabalho dos jornalistas que, muitas vezes em condições adversas, procuram verificar os acontecimentos, dar voz aos que não são ouvidos e revelar aquilo que os poderes prefeririam conservar nas sombras. Isso “requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai: mover-se com desejo de ver” (Papa Francisco).

Uma imprensa livre não está acima da crítica, mas também não pode estar submetida ao medo, à violência, aos interesses de poderes particulares ou às conveniências políticas. Quando a liberdade de imprensa é ameaçada, não é apenas o jornalismo que perde sua voz: é a própria sociedade que vê enfraquecido o seu direito de conhecer, compreender e questionar a realidade. Sem uma imprensa livre, a democracia perde os olhos para enxergar, os ouvidos para escutar e, não raramente, a memória que lhe permite compreender sua própria história.

Em um período especialmente sensível da vida nacional, somos chamados a recuperar a capacidade de escuta, de diálogo e de compreensão do outro. O Brasil não precisa de novas trincheiras, mas de pontes; não precisa de narrativas que aprofundem distâncias, mas de um jornalismo capaz de informar com rigor, contextualizar os acontecimentos e contribuir para uma sociedade mais consciente e responsável.

Nesse caminho, a verdade não pode ser apropriada por grupos, interesses ou conveniências, nem transformada em instrumento de divisão.

Para o jornalismo, buscá-la é uma tarefa permanente e exigente, construída pela apuração cuidadosa dos fatos, pela diversidade de fontes, pela independência, pela consciência ética e, sobretudo, pelo respeito à dignidade das pessoas.
Que a ABI continue sendo casa da liberdade, espaço de pluralidade e voz vigilante em defesa da democracia. E que jornalistas e comunicadores jamais percam a coragem de perguntar e investigar, a humildade de escutar e reconhecer diferentes perspectivas e, sobretudo, o compromisso de colocar a comunicação a serviço da sociedade. Um serviço que deve alcançar especialmente aqueles que tantas vezes não encontram espaço nas narrativas públicas: os pobres, os vulneráveis, os esquecidos e todos aqueles cujas histórias permanecem invisíveis nas manchetes.

Sobre todos e todas, invoco as bênçãos de Deus e renovo meus votos de uma jornada fecunda, iluminada pela verdade, pela justiça e pela esperança”.

 

O presidente da ABI, Octávio Costa, e o presidente do CD, Ricardo Moraes, descerraram uma placa no local do atentado.

Foto: Rogério Marques 

 

 

O Globo de quinta-feira (20) registrou os 50 anos da bomba na ABI.

 

O jornalista Ancelmo Gois registrou os 50 anos da bomba na sede da ABI na sua coluna no O Globo de sábado (15).